segunda-feira, 8 de junho de 2009

VIAGEM*

Protege a cabeça do vento
E roda no assento
Para ver mais:
Passa carro
Mato
Avião
Redemoinho
Carrapicho
Caramanchão
Passa sossego
Atropelo
Estrangeiro
Conterrâneo
Vira e volta
Pé ligeiro
Passa mãe
Pai
Desconhecidos
Assobio
Homem vendendo mel...
Nenhum tostão pra comprar
Passa
Passa tanto
E tanto o percorrido...
Embora o peito espremido
Só não passa
A vontade
De chegar.

Magna Santos

*Mais uma vez, Pachelly Jamacaru gentilmente autorizou a publicação desta foto, de cuja beleza veio a inspiração para esta 'viagem'. Fica a sugestão para conferir o blog deste artista, captador dos momentos simples e, por isso mesmo, mais belos.
Obrigada, Pachelly.

domingo, 31 de maio de 2009

FALTA

Seu peito seca
O leite acabou
O dia também se fez noite
E ele não chora mais

Um choro, por favor
Para suas noites
Uma febre
Uma dor
Um calafrio

Seus pés não vão ao quarto vizinho
Não há barulhos infantis por entre as paredes
Só o silêncio
Acorda as manhãs

Não fosse os bem-te-vis
Nada faria sentido

Sim
O bem criou mesmo asas
E voou



Magna Santos

domingo, 24 de maio de 2009

ENCONTRO



O diálogo com outros terrenos nos deixam mais férteis, mais serenos e, por vezes, mais plenos. Assim, deixo o que escrevi a partir de duas fotografias de Pachelly Jamacaru, já publicado em seu blog no último dia 11. Pachelly é um artista que capta a beleza e tem o dom de fotografá-la, escrevê-la e também musicá-la. Sou, particularmente, tocada por suas imagens. Estas duas, em especial, me chegaram como um carinho no coração, trasbordando em lágrimas, emoção e muitas lembranças. Nem toda poesia está escrita, a grande maioria está para ser vista, sentida e vivida. Com a permissão do conterrâneo Pachelly, publico as fotografias, porém existem muito mais no seu blog(acesso do lado direito). Vamos às imagens e algumas palavras minhas:


A MENINA E O ESPELHO DA SERRA

Lá no alto da serra vive uma menina feliz
Uma menina
E sua boneca
E seu pai
E sua mãe
À noite dormem abraçados
Pela manhã acordam assombrados
De tanta cor e luz.
Há muitas frestas nas telhas
Quebradas com o tempo
Há tantas outras nas paredes
Que a tinta branca esconde

Outro dia a menina perguntou:
_ Mãe, o que é espêi?
_ O que, menina?
_ Espêi, mãe, o que é?
A mãe sorriu e a pegou pela mão
Foram pela estrada estreita
Onde a menina distraída chutava pedrinhas
E brincava com as borboletas
Ao chegar do outro lado do "lagoin"
(como a menina chamava)
A mãe pediu:
_Olha, fia
E a filha olhou e viu
...
E nunca mais esqueceu.

Muito obrigada, Pachelly Jamacaru.
Magna Santos

segunda-feira, 18 de maio de 2009

DONA INSPIRAÇÃO

Há dias que a espero, mas ela finge não me ver. Aliás, é sempre assim: quanto mais a queremos, mais a perdemos. Melhor é deixá-la ir, por si só terá vontade de voltar um dia.

Sempre temperamental, chega quando quer, não adianta espernear. Alguns dizem que já a possuem naturalmente. Não consigo entender e me controlo para não julgá-los mentirosos. Talvez não sejam, talvez não. Talvez o problema seja meu que ainda não ganhei sua simpatia incondicional. Sim, terá que ser incondicional, pois o que farei nos dias que a preguiça não deixar pensar? No dia em que as palavras gargalharem em vez de sorrirem, gritarem ao invés de sussurrarem?

Ah, bendita inspiração que acontece quando menos esperamos, que nos surpreende sem nenhuma caneta, cotoco de lápis, muito menos papel e com uma memória incapaz de reter o já sabido, quanto mais o inusitado...

Santa inspiração que gosta das noites, quando o silêncio vem nos visitar. Gosta daquela solidão instantânea, passageira, quando os momentos parecem se alongar ou refletir a beleza das ruas, das praças, das gentes.

O relógio se arrasta e a fuga é inevitável. Impossível não viajar nos pensamentos, nos sonhos, nas ilusões. A falta dela nos deixam volúveis, enche um barril inteiro de ausências, ao ponto de estar aqui sem saber como terminar esta conversa, mantida por força dos dedos. Perdoem-me a escassez de assunto e essas palavras tão evasivas. Quando ela voltar mais complacente, há de deixar os seus rastros neste terreno de sementes. Por ora aceito humildemente a sua falta e peço: paciência.

Magna Santos

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A FUGA

O menino queria fugir. Preparou a bolsa com seus pertences favoritos, ou diria, seu tesouro: um pião, 10 bolas de gude, 5 chicletes, o último gibi. A mãe assistia a tudo em meio a cálculos de contas a vencer em poucos dias. No entanto, observando a movimentação do pequeno, deixou de lado calculadora, papéis e preocupações financeiras; eles podiam esperar.

_ Queres ir aonde, Serginho?

_ Para longe.

_ Onde? insistiu

_ Naquele lugar que é depois daquela curva.

_ Pois bem, meu filho, mas você está esquecendo duas coisas.

_ O que, mãe?

_ Primeiro nossa foto. Não se pode ir embora sem fotos. Depois, precisa lanchar para seguir viagem.

O menino concordou sem demora. Escalou a primeira prateleira da estante e retirou a foto: ele, o pai, a mãe e dindin, seu cachorro. Depois olhou-a demoradamente, guardou na mochila e sentou-se à mesa, esperando algo para comer.

A mãe fez um ritual inusitado na cozinha: ligou o som em uma música bem divertida, buscou apetrechos e começou a rebolar manipulando os ingredientes. O menino também assistia a tudo, tentando apenas observar, mas aos poucos começou a batucar com os dedos. Dindin parecia entender tudo, com seu rabo ministrando euforia. A mãe, ao som da batucada, ía cada vez mais misturando: sabor e ritmo, enquanto o filho mesclava som, sorriso, fome e alegria em porções generosas.

Fartaram-se ao pôr do sol até que Serginho pareceu lembrar-se de algo. Guardou as bolas de gude e o pião. Nada mais de chicletes, ele e a mãe mascaram todos. De mãos dadas com ela, seguiu para o quarto a fim de escutar o gibi antes de dormir.

A fuga? Ah, ela poderia esperar para depois...e de novo.


Magna Santos

segunda-feira, 27 de abril de 2009

ERA UMA VEZ...*

Havia uma contadora de histórias que o viu pela primeira vez. Pela primeira vez também ele foi visto. Ele ainda não sabia direito o que isto significava, mas gostou do que sentiu, ou melhor, do que começava a sentir.

Não sabia mais o que era sonhar, pensava que tinha a ver com seus pesadelos ou com algumas conversas que escutava: "cara, tu já viu o bagulho que peguei hoje? Fresquinho. Nota 10". "Eita, brilha como ouro". "E quantas atira por minuto? Quero uma dessas". Será isso sonho? Pensava que sim, porém não sabia mais...desde o dia que acordou com a casa em chamas. Foi tirado do sonho por um pesadelo e nele permaneceu por desconhecer outra realidade.

O medo ainda o invade e nessas horas não quer saber de nada nem de ninguém, quer todo mundo longe. Quer? Sim, é melhor, antes que eles saiam por conta própria, como tantas vezes. Medo da dor, do abandono, medo, sempre ele a atormentá-lo. Medo também era seu segredo. Queria ser um homem, mas era apenas um menino.

Desde aquele momento que ela chegou, tem dia reservado para algo bom. E toda vez é assim: ela chega, chama todo mundo. É engraçada, tem olhos doces e voz que muda de acordo com as personagens. As crianças sentadas a escutam de bocas abertas, menos ele que permanece de pé e de boca discretamente escondida nas mãos.

Passam as semanas e ele está lá, de pé, fingindo distração, mas lá e, certamente, ensaiando um sonho e construindo uma outra realidade. Uma realidade onde as pessoas possam abrir a janela e ver flores no lugar de entulhos, andar tranquilas ao anoitecer, após um dia de trabalho ou de escola. Uma realidade onde crianças são apenas crianças com pais de verdade ao lado. Onde sonhar é tão simples quanto comer e dormir em paz. Mas...este também é o sonho de uma contadora de histórias, aquela que o viu pela primeira vez, quando pela primeira vez ele foi visto.

E é assim que os sonhos se encontram.


Magna Santos

*Este é uma ficção, mas quem quiser ler algo real, leia "Os sonhos de Alexandre" no Palavras-pontes. Este vai para Luna Freire e todas as pessoas que dedicam um pouco ou muito do seu tempo a acreditar nas outras pessoas e tentar mudar o mundo dos que são banidos para o terreno da exclusão.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

ESTRANHO VISITANTE

Ele apareceu em uma manhã muito linda. Demorou chegar, mas veio. Feito o sol, resolveu clarear um pouco o ambiente. Tudo escuro, marrom, quase negro e ele ali, insistentemente claro, límpido. Chegou meio torto, aliás, muito torto, tremido até, tímido demais, medroso demais, coitado. Resolvi deixá-lo ali para ver o que aconteceria. Um pouco de generosidade minha era necessário, afinal, não é todo dia que temos um visitante tão ilustre.

Minhas amigas já o conheciam, só faltava eu. Não me disseram coisas boas sobre ele, na verdade, detestaram tê-lo como hóspede; mas, cá pra nós, nunca acreditei no que diziam. Para mim era pura implicância de mulheres temperamentais, simples, mas temperamentais. Uma coisa vi de pronto, ele não estava ali para agradar, embora também não vivesse para desagradar, era apenas sincero, não mentia a respeito de quem quer que fosse conhecer. Ele mostrava a realidade. Não tratava ninguém como criança, gostava da vida, da experiência de vida, não desconsiderava os anos vividos, muito pelo contrário, colocava-se inteiramente solidário a eles - os anos.

Agora estávamos ali, frente a frente, cara a cara, digamos assim. Decidi travar um diálogo. Antes, fitei-o com seriedade, embora feliz por tê-lo recebido. Apesar de tímido, surpreendeu-me a rebeldia. Olhou para mim altivo e firme, claro e lindo, apesar de torto e rebelde. Era totalmente diferente dos demais. Achei engraçado a disparidade e ri um sorriso meio amarelo, pois ainda estava difícil de engolir sua rebeldia. Os antigos conhecidos são todos tão calmos!

Lembrou-me que viria para ficar e que mesmo que não o quisesse agora, viria novamente. Pelo visto, estava acostumado a ser rejeitado, tadinho. Como sou hospitaleira, fiz-lhe um carinho de amiga, mas sentenciei:

_ Tu és lindo, meu querido. Aceito-te claro como és, pois gosto muito de ti, mas impossível tanta rebeldia. Que venha, então, depois, porém feito gente, igual aos demais. Não vou virar uma velhinha de cabelos encaracolados.

Assim, lamentavelmente, arranquei o meu primeiro cabelo branco aos 39 anos. Que venham os demais, que nasçam, mas, por favor, sem fazer alarde com rebeldias ou caracóis. Cheguem mansamente como os outros fios lisos...como são desde que nasci.

Magna Santos

segunda-feira, 13 de abril de 2009

QUANDO AS PALAVRAS SALVAM

Enquanto as crianças a esperam, tenta atinar para o que não sabe ainda. Faz dias que não se atreve a olhar para dentro de si com medo de ver o já revisado e não atualizado. Não espera mais aquele telefonema, não arruma mais as gavetas, tampouco se olha no espelho. Anda com medo de sonhar acordada. Já não espera mais nada.

Não ser mãe é assim: as crianças a esperam, não o contrário. Ampara a cabeça entre as mãos na tentativa de acolhê-la mais do que aos outros, quando então escuta uma voz pertinho: "tia". Não há mais tempo, precisa levantar-se.

Atende ao chamado por obrigação. Escolhe as peças pedagógicas, fantoches, máscaras e tudo mais. Ensaia uma coreografia engraçada e os pequenos se colocam próximos dela como se de fato fossem. Só que de fato são.

Segue a sina da contação. Demora a perceber a acolhida do sorriso. Ainda está distraída nas próprias colocações, afinal, o príncipe acaba de chegar e a bruxa ameaça acabar com a alegria.

_ Mas, tia, essa história não é assim.

_ Não? E como é?

_ Os anões expulsam a bruxa que cai no barranco.

_ E depois?

_ Depois colocam a princesa numa caixa de vidro

_ Por que?

_ Ora, tia, porque ela ainda estava viva para morrer!

_ "Ela ainda estava viva para morrer" - sussurra a última frase para si mesma - Ah...

Desta vez, não só a Branca de Neve foi salva.


Magna Santos

quarta-feira, 8 de abril de 2009

FELIZ PÁSCOA


Paz, amor e prosperidade a todos!

Desconheço a autoria do vídeo. Quem souber, por favor, informe. A música é O Homem de Roberto Carlos e o filme, Jesus.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

ABRINDO

Abril veio com força total. Parece que abriu mesmo as portas para uma infinidade de sentimentos, pensamentos, inquietações.

Nesta segunda-feira abriram-se também as torneiras do céu. Parecia que São Pedro queria lavar mais do que as ruas de Recife. De dentro do carro, observei diversas pessoas à espera da primeira condução do dia em meio à água. Um dilúvio ameaçava chegar. Carros parados, outros em movimento com o alerta ligado como a dizer: "olhem eu aqui, estou quase boiando". Sei não...o inverno este ano será difícil pelo que sugere. Um barquinho, por favor! 'Viver não é preciso, mas navegar é'. Desculpe-me, poeta, mas hoje o entendimento é exatamente este. Continuei com a sensação de que não deveria ter saído de casa. Mas esta acabou ao chegar ao trabalho; não poderia ter faltado.

Intervalo para almoço espremido em escassas horas. Só mesmo amigas para estender o tempo. Conversas que não acabam mais. Dividimos os medos, compartilhamos as esperanças, cutucamos as feridas e vimos com isso que o tumor é antigo, mas é curável, benigno, graças a Deus. Nada como enxergar a própria cegueira para começar a resguardar um pouco de luz.

Viva, portanto, abril, que começa celebrando a mentira e nos traz tantas verdades.

Sobrou-me a vontade de agradecer às minhas amigas "donas" de abril, as que em breve ficarão mais velhas, mais maduras, mais lindas.


Magna Santos