quarta-feira, 5 de agosto de 2009

PEÇA DA MINHA VIDA

Mesmo antes de nascer, Deus te escolheu como pai
Nome pequeno para uma função tão grande
Quando, enfim, chegamos, descobriste o que seria:
Cabecinhas novas para tu guiares
Mas nem tudo ocorre como esperado
E eis que mais tarde tu adormecerias
E acordarias meio atordoado
Saudade lancinante a cortar-te o peito...:
“Onde estão meus filhos?”
Luz guia, tu apagaste!
Agora acendes em outros redores
Tão longe de nosso lugar
Tão perto do nosso coração.

E os dois pequeninos comparecem todos os dias
Às desventuras da tua ausência
Crescem pernas, bocas, cabeças
Aquelas mesmas que te esperaram no jantar
No adormecer
No acordar
No brincar
Na escola
Nas dúvidas diárias
Na volta da faculdade
Do trabalho
Na chegada dos filhos...sobrinhos queridos:
Netos teus.
E mamãe te espera para pegar-te a mão segura
Quantas esperas, meu pai!
Quanta saudade!
Saudade que tu já compreendeste
E que nos resta acomodar
Sem maiores dores ou faltas
Como um quebra-cabeça no coração
PEÇA DA MINHA VIDA!

Escrito em 10.08.2003.
Magna Santos

terça-feira, 4 de agosto de 2009

PAI

Uns já se despediram
Outros tentam encontrá-los
Alguns esperam reconhecê-los
Pais

Impossível existir sozinho
Impossível pensar uno
Difícil pensar em dois...
Pai

Há palavras nascidas germinadas
Há nomes acompanhados de outros
Há letras que associam outros fazeres:
Pai

_ Pega a lanterna para eu te ver melhor
_ Pega o analgésico para eu te ouvir melhor
_ Pega a minha mão, filha

Pego o sonífero para eu acordar
Pego o sonho para eu te encontrar
Pego o paradeiro de uma estrada do mar...
Meu pai.


Magna Santos

domingo, 26 de julho de 2009

ARCO-IRIS DE PENAS*

Pintaram um arco-íris
De asas
Caído do céu
Ciscando ligeiro
Pelo terreiro
À procura de milho
Não
À procura de abrigo
Não
À procura
A'penas

Magna Santos

* Mais uma parceria com Pachelly Jamacaru, o qual entrou na brincadeira e autorizou a publicação desta fotografia.

domingo, 19 de julho de 2009

ÚLTIMA VEZ

Na última vez que te vi
Tinhas os olhos manchados
Havia névoa
Que inundava tua visão
Nela se confundindo
Como uma vidraça
Suja na manhã

Tanta dor em teu olhar...
Ceguei

Hoje não te vejo mais
Muito menos te sinto

Perguntam-me ainda por ti
Poucos que insistem em lembrar-te

Quando estão comigo
Respondo:
Não sei


O tempo passa, amigo
E apaga muitas marcas
O tempo passa, irmão
E nos permite novas estradas

As pegadas do caminho
Dão-me certeza:
Caminhei

Os rastros dos meus pés
Me convidam a novos andares

Teimo em ver o horizonte
Com olhos bons
Sem névoa
Sem manchas
Sem dores

...
Só paz.



Magna Santos

domingo, 12 de julho de 2009

PALAVRAS

As palavras não são minhas
Não são
As palavras são delas mesmas
Embora constrangidas
Por passarem por tantas mãos


As palavras secam
Quando não as pronuncio
As palavras reclamam
Quando não as acarinho


As palavras...
Sempre elas
A me acordarem

À noite para uma longa espera


Sim
As palavras têm insônia
Perambulam nas esquinas
Andam sozinhas nas ruas
Ou acompanhadas pensam
No final


No ponto final.



Magna Santos

quarta-feira, 8 de julho de 2009

RESQUÍCIOS DE VIAGEM E OUTRAS BOBAGENS

Há viagens que rendem. Esta rendeu. Salvo-conduto para andar em paz pelo resto do ano. Portanto, impagável.

No alto dos meus 39 anos, me vejo às vezes bem menina, embora noutras velha me pareço. Devo sofrer de um distúrbio ainda a ser catalogado. Se tiver sorte, entrarei pra história, quando conseguir decifrar meu próprio caso. Não, melhor passar a bola pra minha analista, talvez a oportunidade seja dela.

Nunca tive nenhum problema em relação ao passar do tempo, nenhum rasgo de vaidade ou sei lá o quê para esconder idade. O tempo passa e, para mim, isto sempre foi muito natural. Assim, vivi, estudei, por força do próprio trabalho, pesquisei, anos atrás, construindo hipótese confirmada, no final, sobre as temidas palavras que passeiam pelo caminho do envelhecimento. Associei à ideologia e Althusser me ajudou deveras nos meus pensamentos, além de Luria, o chato do Lacan e tantos camaradas que nos instigam a pensar melhor. Portanto, teoria não me faltava.

Porém, o que são teorias comparadas às vivências em família? Lá vai uma cena besta, banal, mas que me rendeu boas considerações: não sei mais o que estávamos a conversar, nem o que se passava na minha cabecinha chata para sair com esta pérola no meio dos meus iguais:

_ Eu achava que demorava tanto chegar os 40. Antigamente, pensava mesmo que uma pessoa de 40 anos tinha tanta idade! Hoje em dia os mais jovens não pensam assim.

Os olhos admirados da minha cunhada me interrogaram aos risos:
_ Como é? Antigamente? Não, minha filha, antigamente não, ainda hoje.

Surpreendentemente, a minha impressão era só minha. Ninguém concordou comigo. Mas será o Benedito? Meu sorriso amarelo não era pário pra risadagem que se formou, muito menos para inúmeros exemplos surgidos aos montes e de várias bocas ao mesmo tempo. Deus do céu, quase se formou um debate, tendo a mim como alvo, logicamente. Como não ía perder a diversão, teimei, reforcei o que nem eu mais acreditava só para ver a coisa pegar fogo. Eu gosto mesmo é do barulho.

A celeuma perdurou, mas amansou até no dia seguinte reacender em um ambiente onde os adolescentes dividiam o espaço conosco. Eles lá jogando o velho jogo de baralho chamado "burro" e nós cá, conversando miolo de pote. Um certo "nós cá" bem que tentou infiltrar-se no jogo, mas foi avisada pela outra: "te manda que tu és tia". Esta informação não podia dar noutra coisa, senão em mais risadas e teimas. Mas, por força das circunstâncias, renunciei a qualquer intuito de jogo. Enquanto conversava, retorcia a cabeça à mesma linha do ombro e observava com vigor a atividade "joguística".

_ Magna, tô avisando: tu tás doida para ficar com torcicolo. Olha pra cá, "tia".

E agora vocês podem perguntar onde isso tudo, afinal, foi parar. Em lugar algum, amigos. Bem, continuo com minhas teimas (pois gosto da graça), alguma teoria sem maior relevância (embora com mais uma palavra para computar: 'tia'. O torcicolo? Ah, já estou bem, obrigada, mas da pomada cataflam não restou quase nada.


Magna Santos

segunda-feira, 6 de julho de 2009

VOLTANDO

Vocês vêem coisas. Aqui não sou eu a escrever. Desconfio que não cheguei ainda. Ainda estou lá...onde não sei. Talvez me demore na porteira admirando o ipê que não floresceu. Quem sabe abraçada ao jasmim, plantado por mãos avós que não conheci. Devo estar numa rede contemplando o Araripe, buscando classificar suas cores tão singulares, tentando também imaginar as vidas naqueles pontinhos brancos que dizem serem casas distantes. Lá, por certo, não se precisa de geladeira nem de luz elétrica nem de gás. De que se precisa lá, meu Deus?

Lá, onde não sei, devo estar acompanhando uma criança alimentando pintos. Saudade também se sente das galinhas, mesmo que depois as coma e repita mais e mais e mais, como se iguaria e criatura fossem diferentes, como se aquela do prato fosse algo fabricado, bem distante da amiga do quintal.

Os sons ainda estão nos meus ouvidos. Acostumei-me aos plurais engolidos cheios de risadas e tudo mais. Reconhecer uma voz antiga, rir com outra aprendendo a falar. Rir também de tantas outras coisas...de perder o fôlego! Rir de si mesma, dos outros, da vida, das diferenças das gerações que nos acordam para o passar do tempo.

Ah, sensações!

Devo estar ainda cantando um "parabéns pra você" numa farra assim, digamos, bem "thriller", pois é necessário atualizar os acontecimentos.

Sim, é necessário atualizar-se. É essencial estar em dia com o coração para deixá-lo chorar de emoção ao ser convidada para madrinha de mais um amado pequeno com nome de avô. Quanta honra num convite, quanto isto representa!

É preciso estar aberta a conhecer gente nova, receber um presente cheio de poesia, trocar abraços e sorrir, mesmo sem jeito, com o convite para o compartilhamento de palavras. Outra honra.

Demoro-me demais nos cantos. Mas, creio, já peguei o ônibus, já tentei dormir no seu embalo, já me assustei com a chuva e o horário de retornar ao trabalho, quando aqui entrei nesta cidade de surpresas.

Cheguei, portanto, para outras viagens.


Magna Santos

domingo, 28 de junho de 2009

ATÉ BREVE

Pronto. A mala está arrumada. Daqui a 4 horas pegarei a estrada. Em plena noite de São Pedro, só me resta esperar algumas fogueiras pelo caminho. Certamente, contemplarei bandeirinhas, balões enfeitando ruas, meninos com traques de massa, arrasta-pé e rojão. A lua, salvo engano, estará crescente. Colocarei os problemas para dormir e estenderei meu olhos pela janela, esperando ver todas as maravilhas que meus olhos alcançarem.

Infelizmente, o mp3 - que nunca uso - vai continuar inativo, pois acabo de descobrir que a pilha se foi. Não há mais tempo nem disposição para providenciar nada, a não ser estas poucas linhas para informar a minha ausência do Sementeiras por uns dias.

A trilha sonora, portanto, ficará por conta dos sons do caminho. Porém o barulho do ônibus e a paisagem na janela me farão recordar um tempo em que essa viagem era muito mais frequente. Quanta coisa mudou desde aquela época! Para melhor, é bom ressaltar. Hoje me conformo em ir apenas uma vez por ano ao meu pequeno pé de serra.

E vou em paz.


Magna Santos

quarta-feira, 17 de junho de 2009

QUERERES

Depois de uma 'viagem' e de uma 'falta' inesgotável, hoje queria mesmo escrever algo simples, falando da vida, da alegria, do correr dos dias, do traçar do destino, como bem fizeram os adoráveis Samarone Lima e Luna Freire. Ah, eu queria falar com simplicidade da simplicidade. Queria contar das cores que vi hoje assim que acordei, do atraso que me permiti chegar ao trabalho, do bom dia que não hesitei em desejar, apesar do silêncio respondido.

Queria dizer que meu coração ficou apertado o dia inteiro por pensar os problemas alheios, quando os meus nem sempre sei resolvê-los. Não, não queria falar de problemas. Quem sou eu para trazer problemas para alguns olhos generosos que visitam estas terras atrás de sementes felizes.

Queria mesmo era falar de alegria. Da visita inusitada que também me permiti fazer a uma amiga no meio da manhã, para falar da vida, das perguntas da vida e da total falta de respostas. Queria dizer que almocei um feijão verde delicioso, temperado com muito papo, com risadas e histórias das mais diversas. Queria contar que existem adolescentes pensando sobre a vida, renunciando à festa de 15 anos para levar mantimentos a esfomeados de esperança. Ah, eu queria repetir esta história uma porção de vezes, porque é maravilhoso poder lembrá-la.

Queria também contar que existem crianças que encaram com naturalidade a morte, não porque seja seu cotidiano, mas porque é - a morte - mesmo natural, apesar da saudade que deixa em quem fica. Quem sabe as crianças se despeçam melhor do que os adultos, porque acabaram de chegar a este planeta de pontos finais, trazendo na bagagem tantas exclamações quantas cabem nos bolsos. Queria informar que, de vez em quando, mergulho profundamente nas interrogações e reticências, saindo com muitas exclamações enganchadas nos bolsos e cabelos. Lá no fundo tem mesmo uma porção delas. Pode acreditar!

Queria confessar como fico feliz quando me ligam para contar que estão com saudades e que lamento o relógio ser ingrato aos encontros, porém continuo querendo aquele sorvete, mesmo se o tempo estiver frio.

Queria pedir desculpas pelas palavras que não sei escolher direito, quando tento me definir, pois ainda não tenho definição.

Gostaria (só para mudar um pouco o verbo) de me estender nas histórias de como foi meu dia, contudo o sono me convida a sonhar mais para que eu viva muito mais, quando acordar.


Magna Santos

segunda-feira, 8 de junho de 2009

VIAGEM*

Protege a cabeça do vento
E roda no assento
Para ver mais:
Passa carro
Mato
Avião
Redemoinho
Carrapicho
Caramanchão
Passa sossego
Atropelo
Estrangeiro
Conterrâneo
Vira e volta
Pé ligeiro
Passa mãe
Pai
Desconhecidos
Assobio
Homem vendendo mel...
Nenhum tostão pra comprar
Passa
Passa tanto
E tanto o percorrido...
Embora o peito espremido
Só não passa
A vontade
De chegar.

Magna Santos

*Mais uma vez, Pachelly Jamacaru gentilmente autorizou a publicação desta foto, de cuja beleza veio a inspiração para esta 'viagem'. Fica a sugestão para conferir o blog deste artista, captador dos momentos simples e, por isso mesmo, mais belos.
Obrigada, Pachelly.