sexta-feira, 14 de agosto de 2009

QUANTO VALE

Há quem diga que flutuo
Outros, que permaneço no chão
Há quem suspeite do meu esboço
Como a amealhar intenções
Há quem adivinhe os suspiros
Os gritos e até as solidões

Há, sempre haverá
Onde ainda nem sei...

Me aparto do mundo
Para me ter mais inteira
Me aparto de tudo
Para sossegar o espírito
E há quem diga que sofro
Quando apenas sonho

Meninos perambulam nos meus sonhos
À procura de abrigo
Órfãos esperam aconchego
Enquanto estudo
Pais se interrogam sobre o eixo
Quando tateio o meu
Leis falam dos direitos
Onde existem aos pedaços
Inteira, permaneço na intenção

Escrevo os meus dias no silêncio
Falo quando faz barulho
Escuto a saudade
Enquanto canto
Talvez eu chore
Enquanto durmo
Talvez eu sonhe
Enquanto acordo

Creio que deixei de dormir
Talvez a sonolência de tempos
Se despeça pra nunca mais

Quero assistir ao menino bravio
Quero amparar-me na esquina dos trilhos
Extasiar-me com as multidões
Isolar-me dos padrões vazios
Encontrar-me com a menina que fui
Tirar-me de um muro de pedra
E pular ao encontro da luz

Sem dragões vermelhos
Sem espelhos assombrados
Sem cristaleiras de eus

Dar adeus ao que não me serve mais

E quando eu estiver de volta
Quero me ver de pé
Caminhando
Quem sabe pulando de alegria
Me despedindo do meu amado pai:
Até logo, até breve, até mais
Segue avante, querido sempre, estou aqui...
Estou em paz


De mãos abertas ao destino
Seguindo as pegadas do Menino de Luz
Sem esperar pelo Natal.
Sem esperar.

Quanto vale um coração sereno?
Quanto vale um espírito em paz?
Quanto vale toda uma vida?
Quanto vale o que tenho pra viver...
Ah, quanto vale!


27.11.2006.
Magna Santos

domingo, 9 de agosto de 2009

O AMOR DE PRESENTE

Não, não tenho mais o que te falar como antes
No dia de hoje.
O meu amor eu já te dei em dia de pais
Embrulhei com carinho
Empacotei
Adornei com um laço
Da mesma fita que amarrava os meus cabelos infantis
E te dei.
Mas que bobagem a minha:
Ele (o meu amor) já era teu.
E hoje repito a bobagem outra vez
Toma pra ti o que já é teu
Repara na falta do laço
Sinal que tua filha cresceu.
Continues também crescendo onde estás
Isto nos felicita
Continues seguindo pro alto
Isto nos conforta
Continues se libertando de nós
Isto nos fortalece.


Enquanto o Pai deixar
Serei tua filha
Enquanto Ele deixar
Te darei o amor toda vez
Para não esqueceres de onde vens
Para lembrares aonde vais.


O Pai te espera de braços abertos!
Segue feliz e em paz!
Feliz dia dos pais!


Escrito em 06.08.2008.
Magna Santos

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

DRAGÃO VERMELHO

Meus cabelos balançavam soltos
Ao contato de tuas mãos.
Por entre as grades do jardim
Via teu corpo de herói a deslizar como num sonho
Grande, alto, alegre, feliz
Como eu, como nós,
Meu pai.
Já estavas atrasado
Ao que tudo indicava
Ou quase tudo:
Ficava eu a ver-te ir
Por entre a grade? Não.
Me subiam ao muro
E de lá assistia
Ao que não podia supor.
Corrias feito um menino
E o dragão vermelho te esperava
Para inesperadas aventuras.
Um tchau de braço inteiro
Mostrava como eras feliz
Parecia um menino...!
Igual a menina que ficava
A ver-te por cima do muro
Sentada no muro...
Lugar mais incômodo, meu pai!
Melhor o teu colo
Melhor o teu braço
Teu abraço benfazejo
Teu aconchego eterno
Que o tempo me promete e traz
Meio que em uma nuvem
Talvez uma fumaça que seja
Tragada pelo dragão
Derramada pela espuma do mar
Que te levou de mim

Foi engano, papai, é engano!
Olha o relógio outra vez
Ainda é cedo
Não estás atrasado
Vem!
Me tira daqui
O muro é duro, pequeno, inseguro
Quero sair
Quero subir nas tuas costas
Sentar na tua corcunda
E sair por aí
Segurar na testa tua
Pra não cair
...
Que mundo mais bonito, pai
Quando visto daqui!

Escrito em 2004.

Magna Santos

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

PEÇA DA MINHA VIDA

Mesmo antes de nascer, Deus te escolheu como pai
Nome pequeno para uma função tão grande
Quando, enfim, chegamos, descobriste o que seria:
Cabecinhas novas para tu guiares
Mas nem tudo ocorre como esperado
E eis que mais tarde tu adormecerias
E acordarias meio atordoado
Saudade lancinante a cortar-te o peito...:
“Onde estão meus filhos?”
Luz guia, tu apagaste!
Agora acendes em outros redores
Tão longe de nosso lugar
Tão perto do nosso coração.

E os dois pequeninos comparecem todos os dias
Às desventuras da tua ausência
Crescem pernas, bocas, cabeças
Aquelas mesmas que te esperaram no jantar
No adormecer
No acordar
No brincar
Na escola
Nas dúvidas diárias
Na volta da faculdade
Do trabalho
Na chegada dos filhos...sobrinhos queridos:
Netos teus.
E mamãe te espera para pegar-te a mão segura
Quantas esperas, meu pai!
Quanta saudade!
Saudade que tu já compreendeste
E que nos resta acomodar
Sem maiores dores ou faltas
Como um quebra-cabeça no coração
PEÇA DA MINHA VIDA!

Escrito em 10.08.2003.
Magna Santos

terça-feira, 4 de agosto de 2009

PAI

Uns já se despediram
Outros tentam encontrá-los
Alguns esperam reconhecê-los
Pais

Impossível existir sozinho
Impossível pensar uno
Difícil pensar em dois...
Pai

Há palavras nascidas germinadas
Há nomes acompanhados de outros
Há letras que associam outros fazeres:
Pai

_ Pega a lanterna para eu te ver melhor
_ Pega o analgésico para eu te ouvir melhor
_ Pega a minha mão, filha

Pego o sonífero para eu acordar
Pego o sonho para eu te encontrar
Pego o paradeiro de uma estrada do mar...
Meu pai.


Magna Santos

domingo, 26 de julho de 2009

ARCO-IRIS DE PENAS*

Pintaram um arco-íris
De asas
Caído do céu
Ciscando ligeiro
Pelo terreiro
À procura de milho
Não
À procura de abrigo
Não
À procura
A'penas

Magna Santos

* Mais uma parceria com Pachelly Jamacaru, o qual entrou na brincadeira e autorizou a publicação desta fotografia.

domingo, 19 de julho de 2009

ÚLTIMA VEZ

Na última vez que te vi
Tinhas os olhos manchados
Havia névoa
Que inundava tua visão
Nela se confundindo
Como uma vidraça
Suja na manhã

Tanta dor em teu olhar...
Ceguei

Hoje não te vejo mais
Muito menos te sinto

Perguntam-me ainda por ti
Poucos que insistem em lembrar-te

Quando estão comigo
Respondo:
Não sei


O tempo passa, amigo
E apaga muitas marcas
O tempo passa, irmão
E nos permite novas estradas

As pegadas do caminho
Dão-me certeza:
Caminhei

Os rastros dos meus pés
Me convidam a novos andares

Teimo em ver o horizonte
Com olhos bons
Sem névoa
Sem manchas
Sem dores

...
Só paz.



Magna Santos

domingo, 12 de julho de 2009

PALAVRAS

As palavras não são minhas
Não são
As palavras são delas mesmas
Embora constrangidas
Por passarem por tantas mãos


As palavras secam
Quando não as pronuncio
As palavras reclamam
Quando não as acarinho


As palavras...
Sempre elas
A me acordarem

À noite para uma longa espera


Sim
As palavras têm insônia
Perambulam nas esquinas
Andam sozinhas nas ruas
Ou acompanhadas pensam
No final


No ponto final.



Magna Santos

quarta-feira, 8 de julho de 2009

RESQUÍCIOS DE VIAGEM E OUTRAS BOBAGENS

Há viagens que rendem. Esta rendeu. Salvo-conduto para andar em paz pelo resto do ano. Portanto, impagável.

No alto dos meus 39 anos, me vejo às vezes bem menina, embora noutras velha me pareço. Devo sofrer de um distúrbio ainda a ser catalogado. Se tiver sorte, entrarei pra história, quando conseguir decifrar meu próprio caso. Não, melhor passar a bola pra minha analista, talvez a oportunidade seja dela.

Nunca tive nenhum problema em relação ao passar do tempo, nenhum rasgo de vaidade ou sei lá o quê para esconder idade. O tempo passa e, para mim, isto sempre foi muito natural. Assim, vivi, estudei, por força do próprio trabalho, pesquisei, anos atrás, construindo hipótese confirmada, no final, sobre as temidas palavras que passeiam pelo caminho do envelhecimento. Associei à ideologia e Althusser me ajudou deveras nos meus pensamentos, além de Luria, o chato do Lacan e tantos camaradas que nos instigam a pensar melhor. Portanto, teoria não me faltava.

Porém, o que são teorias comparadas às vivências em família? Lá vai uma cena besta, banal, mas que me rendeu boas considerações: não sei mais o que estávamos a conversar, nem o que se passava na minha cabecinha chata para sair com esta pérola no meio dos meus iguais:

_ Eu achava que demorava tanto chegar os 40. Antigamente, pensava mesmo que uma pessoa de 40 anos tinha tanta idade! Hoje em dia os mais jovens não pensam assim.

Os olhos admirados da minha cunhada me interrogaram aos risos:
_ Como é? Antigamente? Não, minha filha, antigamente não, ainda hoje.

Surpreendentemente, a minha impressão era só minha. Ninguém concordou comigo. Mas será o Benedito? Meu sorriso amarelo não era pário pra risadagem que se formou, muito menos para inúmeros exemplos surgidos aos montes e de várias bocas ao mesmo tempo. Deus do céu, quase se formou um debate, tendo a mim como alvo, logicamente. Como não ía perder a diversão, teimei, reforcei o que nem eu mais acreditava só para ver a coisa pegar fogo. Eu gosto mesmo é do barulho.

A celeuma perdurou, mas amansou até no dia seguinte reacender em um ambiente onde os adolescentes dividiam o espaço conosco. Eles lá jogando o velho jogo de baralho chamado "burro" e nós cá, conversando miolo de pote. Um certo "nós cá" bem que tentou infiltrar-se no jogo, mas foi avisada pela outra: "te manda que tu és tia". Esta informação não podia dar noutra coisa, senão em mais risadas e teimas. Mas, por força das circunstâncias, renunciei a qualquer intuito de jogo. Enquanto conversava, retorcia a cabeça à mesma linha do ombro e observava com vigor a atividade "joguística".

_ Magna, tô avisando: tu tás doida para ficar com torcicolo. Olha pra cá, "tia".

E agora vocês podem perguntar onde isso tudo, afinal, foi parar. Em lugar algum, amigos. Bem, continuo com minhas teimas (pois gosto da graça), alguma teoria sem maior relevância (embora com mais uma palavra para computar: 'tia'. O torcicolo? Ah, já estou bem, obrigada, mas da pomada cataflam não restou quase nada.


Magna Santos

segunda-feira, 6 de julho de 2009

VOLTANDO

Vocês vêem coisas. Aqui não sou eu a escrever. Desconfio que não cheguei ainda. Ainda estou lá...onde não sei. Talvez me demore na porteira admirando o ipê que não floresceu. Quem sabe abraçada ao jasmim, plantado por mãos avós que não conheci. Devo estar numa rede contemplando o Araripe, buscando classificar suas cores tão singulares, tentando também imaginar as vidas naqueles pontinhos brancos que dizem serem casas distantes. Lá, por certo, não se precisa de geladeira nem de luz elétrica nem de gás. De que se precisa lá, meu Deus?

Lá, onde não sei, devo estar acompanhando uma criança alimentando pintos. Saudade também se sente das galinhas, mesmo que depois as coma e repita mais e mais e mais, como se iguaria e criatura fossem diferentes, como se aquela do prato fosse algo fabricado, bem distante da amiga do quintal.

Os sons ainda estão nos meus ouvidos. Acostumei-me aos plurais engolidos cheios de risadas e tudo mais. Reconhecer uma voz antiga, rir com outra aprendendo a falar. Rir também de tantas outras coisas...de perder o fôlego! Rir de si mesma, dos outros, da vida, das diferenças das gerações que nos acordam para o passar do tempo.

Ah, sensações!

Devo estar ainda cantando um "parabéns pra você" numa farra assim, digamos, bem "thriller", pois é necessário atualizar os acontecimentos.

Sim, é necessário atualizar-se. É essencial estar em dia com o coração para deixá-lo chorar de emoção ao ser convidada para madrinha de mais um amado pequeno com nome de avô. Quanta honra num convite, quanto isto representa!

É preciso estar aberta a conhecer gente nova, receber um presente cheio de poesia, trocar abraços e sorrir, mesmo sem jeito, com o convite para o compartilhamento de palavras. Outra honra.

Demoro-me demais nos cantos. Mas, creio, já peguei o ônibus, já tentei dormir no seu embalo, já me assustei com a chuva e o horário de retornar ao trabalho, quando aqui entrei nesta cidade de surpresas.

Cheguei, portanto, para outras viagens.


Magna Santos