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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

DEGUSTE

Quatro meses para o final do ano. O tempo encolhe à medida que ela vive. Tanto ainda por fazer e nem imagina quando poderá. Hoje resolveu acabar com as inimizades. Almoçou com um desafeto e o viu colocar folhas no lugar da carne. A alimentação de alguém deve dizer algo a mais. Não seria simples dieta, quem sabe a tentativa de tornar-se mais leve.

Pensando bem, a alimentação dela era bem pesada. Não tem dó do estômago, a não ser pelo fato de mastigar demais. Toma goles de suco entre as garfadas e não hesita na hora da sobremesa. A balança bem que lhe é tolerante, porém já passou das medidas há muito tempo.

Saiu andando pela rua a fim de fazer a digestão. Acompanhou-se do desafeto e viu o sinal abrir, fechar e abrir novamente. A conversa estava tão boa que não tinham pressa. Resolveram sentar à praça e por lá ficaram durante toda tarde.

O que aconteceu não se sabe naquele setembro, mas conta-se que depois desse dia, duas mãos continuam teimando em se unir ao pôr-do-sol.


Magna Santos

sábado, 13 de agosto de 2011

GUGUI

Perguntei a ele sobre poesia
Respondeu
Sobre metafísica
Outra resposta
Endereço de bares, cafés, happy hour...
Forneceu
Teorizou
Ah, gugui, tu sabes demais!

Mas Puxinanã é um perigo perguntar ao Gugui
Complicado demais
Pai dos analfabetos virtuais
Ancestrais da ignorância
Tu não sabes de tudo, Gugui

Outro dia, digitei um poema inteiro para atinar onde estaria
Ele mexeu, remexeu
Nada respondeu.
Desconfio que ainda averigua

Só queria dizer, assim, simplesmente, que encontrar amigos nem sempre é conseguido
Às vezes é complicado
A gente também mexe, remexe e nada responde

Reconhecê-los?
Às vezes trava e a memória da obediência arrisca:
Melhor apelar aos antigos

Ontem, Gugui acertou
O riso venceu
O abraço vicejou
A emoção aflorou
A dúvida morreu

Num pedaço da Argentina, conhecemos
Quanto as palavras valem a pena
(Que nem é tanta pena assim)
Um bebe para a coragem chegar
Uma a cria no divã
Outra, na cidade, rodopia um dia inteiro
Outros, meramente, chegam

E assim se desenhou nossa noite
E se pintou de três cores:
A preta foi iluminada com lanternas e velas
A vermelha consumida com bebidas astrais
A branca...
Ah, a branca...
A branca foram dos papéis
E do branco do olho de cada um.


Especialmente, para meus queridíssimos Geó, Dimas, Fabiana e Valda.
Para Lena, Ducaldo e Edjane por nos aturar a alegria incontida, graças a Deus.



Magna Santos

domingo, 27 de março de 2011

FILA DE ESPERA

Encontrei um escritor numa fila de espera. Estávamos lá para sorrir e aprender um pouco mais sobre interpretar. Ensaiei uma pessoa descontraída a conversar desinibida como se velha conhecida fosse. Convenci tantos e do escritor sobrou-me livros, todos em sua velha algibeira. Ele parecia adivinhar que eu gostava das letras. Eu que nada falara sobre elas, que disfarçara a timidez por entre lorotas de desenganados.

_ Um ingresso, pelo amor de Deus!

_ Já estamos há uma hora a esperar.
_ Olha a fila de idosos.
_ Olha a fila!

Quando a alegria se resume a olhar para os últimos da fila, é porque perdemos a noção do tempo ou simplesmente a noção.

O fato é que o espetáculo transferiu-se para a calçada. Multidões, reclamações, hesitações...água, chicletes, jujubas.

A fila aumentava e diminuía na medida da paciência e da esperança. E eu lá permaneci, o escritor e eu como se nada tivéssemos para fazer.

Os ingressos chegaram, mais pessoas também, a porta se abriu...foi quando a esperança cedeu lugar à certeza em plena entrada.


Magna Santos