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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

REPUBLICAÇÃO DE ANIVERSÁRIO

É incrível como o tempo, este eterno conselheiro e juiz, tem corrido. Já se foram três anos de Sementeiras e nem ao menos atinei para o que isto significa. Tenho apenas desconfianças, devido a qualidade das palavras que colhi através dos comentários, dos contatos e encontros com tanta gente linda que tenho conhecido, através e a partir do Sementeiras. Por favor, sintam-se todos homenageados com a republicação desta crônica, a qual escrevi em 2008 me banhando em lágrimas, justo na hora do almoço; um verdadeiro vexame, eu diria, pois tive que me recompor rapidinho para poder trabalhar. As palavras nem sempre escolhem hora nem lugar para saírem dos dedos. E estas foram um abraço no meu único irmão - de sangue - com o qual tenho aprendido, desde que nasci...por tudo o que a gente já viveu nesta vida e, certamente, ainda vamos viver.
A todos vocês o meu muitíssimo obrigada por tudo.

Sem mais delongas, fiquem com Deus e com o:

SUPER-HERÓI DE BOTAS
Ontem o menino me mostrou um maço grande de canos de alumínio a serem mexidos e remexidos para virarem um varal. Não é suficiente o já pronto, o improvisado, o arranjado. Feliz ele se sente mesmo é em projetar, bolar, meter a mão na massa, do modo mais simples das pessoas de bem, que vêem nas próprias mãos fábricas inusitadas para suprirem necessidades pequenas ou grandes. Em vão as tentativas para demovê-lo da idéia, não há argumentos suficientes para lhe tirar este trabalho, que, desconfio, será um prazer. Quanto tenho aprendido com ele! Quanto ainda minhas mãos hesitam, vacilam...

As suas, ao contrário das minhas, desde cedo trabalharam, mas também brincaram, traquinaram. Bicicleta, cavalo, bola, latas, pedras, armadilhas, baladeira, carrinho de lata, bola de gude, desde cedo a atividade era grande. Mãos e pés ensaiavam o dinamismo constante que seria sua vida. E não parou mais. Canivete para as valentias, logo podadas pela mãe; treinos de um super-herói, que depois descobriu onde estavam as verdadeiras armas. Alguns ajustes para não perder o roteiro, o prumo, para também fortalecer o que, mais tarde, deveria estar mais forte. Assim, o colete para coluna e as botas ortopédicas lhe ajudaram a se manter firme, a pisar melhor.

Menino bom, que cedo inventou de pedir ao avião que passava: "avião, me manda um irmão!". Foi contrariado com a chegada de uma irmã, aprendendo que nem tudo vem conforme se pede. Também aprendeu a dor da despedida logo cedo, o que o fez engolir carboreto no lugar de bombons, fato incompreensível para a menina do avião que adorava uns confeitos, uns doces. Mesmo com tanta incompreensão, ele cedia aos pedidos dela e, de vez em quando, amarrava toalha no pescoço para voar melhor em busca de alguém em apuros. Era a dupla dinâmica a voar pela casa, pulando de cama, sofá, cadeira, salvando o mundo inteiro.

É, este é você. Não, você é muito mais do que isso. Teus pés caminham firmes esse tempo todo, embora o cansaço às vezes te visite. Sabes que não estás sozinho e isso é muito bom. Aos poucos tenho aprendido os valores que há tempos já compreendes. Desconfio que a menina do avião começa a aterissar. Espero caminhar ao teu lado qualquer dia desses e poder te ajudar nessa estrada. Por ora, apenas te ofereço o que posso te dar: o meu amor. Ainda te vejo com toalha nos ombros e hoje carregando consigo tantas preciosidades para meu coração.

Voa, voa alto!

Quando o varal estiver pronto, aproveita para estender a paz, a alegria e a esperança. Estaremos ao teu lado para apreciar a paisagem.

Que Deus te abençoe e te proteja sempre!


Magna Santos

sábado, 13 de agosto de 2011

GUGUI

Perguntei a ele sobre poesia
Respondeu
Sobre metafísica
Outra resposta
Endereço de bares, cafés, happy hour...
Forneceu
Teorizou
Ah, gugui, tu sabes demais!

Mas Puxinanã é um perigo perguntar ao Gugui
Complicado demais
Pai dos analfabetos virtuais
Ancestrais da ignorância
Tu não sabes de tudo, Gugui

Outro dia, digitei um poema inteiro para atinar onde estaria
Ele mexeu, remexeu
Nada respondeu.
Desconfio que ainda averigua

Só queria dizer, assim, simplesmente, que encontrar amigos nem sempre é conseguido
Às vezes é complicado
A gente também mexe, remexe e nada responde

Reconhecê-los?
Às vezes trava e a memória da obediência arrisca:
Melhor apelar aos antigos

Ontem, Gugui acertou
O riso venceu
O abraço vicejou
A emoção aflorou
A dúvida morreu

Num pedaço da Argentina, conhecemos
Quanto as palavras valem a pena
(Que nem é tanta pena assim)
Um bebe para a coragem chegar
Uma a cria no divã
Outra, na cidade, rodopia um dia inteiro
Outros, meramente, chegam

E assim se desenhou nossa noite
E se pintou de três cores:
A preta foi iluminada com lanternas e velas
A vermelha consumida com bebidas astrais
A branca...
Ah, a branca...
A branca foram dos papéis
E do branco do olho de cada um.


Especialmente, para meus queridíssimos Geó, Dimas, Fabiana e Valda.
Para Lena, Ducaldo e Edjane por nos aturar a alegria incontida, graças a Deus.



Magna Santos

terça-feira, 2 de agosto de 2011

PEQUENA ALEGRIA

Quarta fila do Teatro Guararapes. Primeira a querer saber sobre o show, segundo funcionário da bilheteria. Mal contive a alegria. Quarta fila. Gil estará lá, sem chance para o "ou não" costumeiro. Estará sim e eu também, se Deus quiser. Eu e minha turma. Geraldo Maia abrirá o espetáculo. Primo do meu amigo Domingos, também digno e ótimo de se escutar.

_ Magninha, Geraldo Maia abrirá o show! Vai ser perfeito.
_ Geraldo Maia?
_ Sim, ele é ótimo.
_ Sei quem é Geraldo. Ele estava dando uma palhinha na feijoada do Domingos, que te falei.
_ Não acredito!
_ Foi. Não se avexe não. Dia 13 você escutará os dois: Geraldo Maia e Gilberto Gil.

Depois do dockside, foi aberta a temporada para os pequenos sonhos. Desconfio que não somos apenas o que fazemos, mas também o que ouvimos, o que queremos ouvir. Foi a música, mais do que os livros, que me embalou desde pequena. Não aprendi um instrumento sequer, como já contei aqui, porém, desde pequena, ela vive sustentando todos os momentos. Saudade, medos, preconceitos, conceitos, Deus, festa, alegria, tristeza, raiva...sou capaz de cantarolar algo sobre cada coisa. Gil com sua Refazenda, despedindo-se de Drão, 'falando com Deus', 'matando a sede' num Domingo no Parque, são algumas das músicas, situações vividas. E, quando as coisas velhas teimavam em aprisionar, apesar do meu Lamento Sertanejo, a Novidade vinha me dizer o quanto valia a pena e eu voltava a Andar com Fé.

Ah, meus amigos, perdoem essa pieguice incontrolável. Sou mesmo uma criança com doce nas mãos ou uma apaixonada vendo o Luar. É só minha alegria. No dia 13 faremos uma Procissão para aquele desorganizado estacionamento do Centro de Convenções, com a velha ansiedade sobre o tempo que se escorre, porém, lembrarei do Tempo Rei e tudo ficará em Paz.


Fiquem com um pouco de Galeano (presente lindo de Boca que costuma frequentar este espaço). Talvez ele consiga dizer o que não pude aqui:

A função da arte/1

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que
descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas
altas, esperando.

Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia,
depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a
imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.

E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao
pai: — Me ajuda a olhar!
Eduardo Galeano


Magna Santos

quinta-feira, 14 de abril de 2011

SEM BÚSSOLA

Depois de um dia deparando-me com a dor alheia, sobrou-me pouca coisa ou quase nada para ofertar a quem quer que seja. Escapo para os amigos, antigos amores, só solidão. Escapo para o ocaso, só compaixão.

Escapo entre dores e amores.

Chego aqui e esta terra úmida tem tanto de mim...


Deito e descanso.

Ao menos Oswaldo me dirá algo amanhã. Ao menos ele poderá me falar que "a vida é bola de gás, segura a corda com a mão". E caso eu não consiga entender, ele completará:


"A estrada sempre tem luz
o amor tem sempre razão
quando a alegria conduz
não importa qual direção"

Por isto, vou esquecer da bússola e vou, vou me deixar ir.


Magna Santos

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

NA BANGUELA*

Acostumei-me a responder com raiva às minhas tristezas. Parada num abismo ou numa encruzilhada, deparo-me com incômodas faltas próprias, falhas compartilhadas e cobranças diversas. O cansaço se espalha invasor, tomando territórios, antes destinados ao sonho, ao devaneio criativo. A vontade de escrever não resiste ao peso nos ombros e nos olhos. Necessário trincar os dentes, não apenas para aguentar o tranco, mas para ter forças. A ATM já reclama, meu coração reclama, minha mente também. Assim, melhor parar de queixumes e olhar de frente o abismo...conversar com ele. Foi então que ouvi ao meu lado (quando os ombros pesam, teimamos em só olhar para baixo...ilusão):

_ Magninha, tu podes ir ver o Lenine no dia do meu aniversário? Quero os meus amigos comigo.

_ Claro.

Fomos lá: uma penca de amigos e o restante dos milhares sentados em suas poltronas à espera da atração da noite. O congestionamento rendeu mais de meia hora de atraso, porém as luzes foram apagadas e o palco ganhou outro charme, outra cor. Difícil explicar o que se passa no coração, quando constatamos aquele ganho inusitado, aquele estalo que diz: "meu Deus, é isso! Estou no lugar certo com as pessoas certas".

O sorriso de minha amiga valia dez shows e fiquei pensando que algumas pessoas realmente nasceram para serem pontes, fontes de união, de paz, de alegria. Isto dá uma esperança danada que renova, que trata, dá um chute de bico nas reclamações.

"Quem vai virar o jogo
E transformar a perda
Em nossa recompensa"

O pernambucano arrepiou a cearense:

"Tá relampiano
Cadê neném?
Tá vendendo drops
No sinal pra alguém"

Das faltas que me sobravam, das cobranças que me atordoavam, uma necessidade ele lembrava, quem sabe, uma sugestão:

"Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara..."

É mesmo, Lenine, muito rara. Por isto, aproveito para comunicar: eu vou é na banguela, amigos.


Magna Santos

*descer a ladeira sem engate de marcha nem força, só no embalo do vento, da descida.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

À DERIVA

Depois de alguns dias sem postar em Sementeiras, olho para esta terra e vou lendo os comentários que me nutrem com aquela sensação esquisita de que minhas palavras chegaram a alguém, por algum motivo. Às vezes queremos nos perpetuar de algum modo. Nascemos com uma espécie de sina para o desejo da imortalidade, vai ver que é a herança da real, vai ver que é o medo da morte, quem sabe. Enfim, deixemos de mas mas mas. Lembrei-me agora do que me perguntou o meu cumpade este final de semana, enquanto eu conversava com o seu compadre sobre assuntos, digamos, da existência humana: "vocês beberam o que mesmo, hein?". Isto, às 7:00h da manhã. Tenha dó! Antes que eu pudesse responder, fui salva pelo meu parceiro: "você pegou a conversa pela metade". Ufa!

Assim, antes também que me perguntem a mesma coisa, é bom aqui esclarecer que este não pretende esclarecer nada especificamente. Bom seria eu ter o talento de Samarone Lima para falar de tudo displicentemente e terminar de modo charmoso, dizendo que não falou de nada, que está meio disperso e ainda escutar dos seus leitores: "você me fez feliz". Ah vidinha mais ou menos!

E por falar em querer, eu queria mesmo era ter a capacidade de me duplicar para atender aos chamados do coração. Como não responder a uma criança que me chama: "tia, você vai para minha formatura? E para o aniversário do meu irmão?". E pergunta à mãe, esperançoso: "mãe e se tia Magna for de surpresa, pode?". Ai, meu Deus, eu queria ter poderes, porque não é todo dia que isto acontece. Lembro que na minha formatura do "abc", eu estava tão nervosa, quanto os meus cabelos que se soltaram, por não se conterem em uma presilha pequena. Toda assanhada, estiquei meu dedo para que meu tio - avô daquele pequeno - pudesse me apadrinhar. Há momentos realmente raros.

Raridade é também ver um médico comprar um terreno apenas para salvar uma centenária timbaúba, ameaçada por um inescrupuloso, capaz de derrubar dezenas de suas irmãs. Um terreno com um único pé de timbaúba: esta é a prova do bem querer.

E uma mulher ainda grita no GPS: "recalculando a rota" e fico a me perguntar quantas vezes recalculei a minha. Por isto, amigos, antes que eu escute aquela pergunta novamente, devo dizer: hora de almoço, estou apenas tomando um cafezinho e tentando recalcular os meus dias, plantando algumas palavras nesta terra pequenina. Perdoem-me pela dispersão, como diria Samarone.

Fico aqui, no início desta tarde, à espera que um pequeno possa me tirar da lua, enquanto me lembra Gullar:
"Uma parte de mim
Pesa, pondera
Outra parte
Delira"

Magna Santos

domingo, 24 de outubro de 2010

SARAU NA BIBLIOTECA POPULAR DO COQUE

Conheci a menina-ponte no último dia 22. Ela chegou acompanhada de amigos e mostrou o caminho, onde iríamos encontrar poesia, gente e sorrisos. À entrada da rua, foi saudada como só as crianças o fariam. "Tia, tia, tia!" Abraços e mais abraços dá pra conter a euforia e contagiar os reles acompanhantes que, de tão aéreos, não conseguiam atinar para a profundidade da rua. Namorados se abraçavam na calçada, outros conversavam, mas a calçada ali resgatava o significado perdido em muitos lugares: encontro.

A fachada da biblioteca é só cores e figuras felizes de um azul que não está longe do céu. À entrada, as poesias batem nos nossos narizes, dependuradas pelo telhado como se fossem as próprias goteiras congeladas, só que, dessa vez, sortiam de beleza o espaço todo criado pelas crianças. Muitas queriam mostrar a sua:

_ Ler esta!
_ Aquela é dela.
_ Acho linda esta.

E assim fomos respirando, respirando...
Sem fôlego, fui suspendida do chão por uma pequenina vivaz. Outro chegou por trás para ajudar a amiga. Ambos tentavam me levantar, como se, de fato, eu já não estivesse nos ares. Alegria, em forma de pulos, era necessário para também mostrar as fotos aos visitantes:

_ Olha eu ali!
_ Onde?
_ Ali, ó!

Sim, ela estava ali e ali e ali. E eu não sabia em que lugar ficar, visto que queria estar em todos.

Chegando a hora do sarau, vimos meninos se apertarem para ouvir o que os adultos nem sempre estão dispostos, mas que uma caixa de som bem que encurta o espaço, quando se quer.

Em plena rua, Zé de Guedes nos presenteou várias vezes com seus poemas visuais, sonoros e contundentes. Fez sucesso com sua simpatia, seu "urubu-rei", contagiando todos nós e sendo também surpreendido pelo acolhimento espontâneo e festivo dos pequenos. Fabiana Coelho - a menina-ponte - com seus arquivos poéticos, declamou outros tantos e os meninos...ah, os meninos...

_ Tia, tia, me dá uma poesia, tia!

Como não se emocionar com tamanho pedido? Como não pensar que o mundo, onde crianças pedem poesia só pode crescer e crescer bem? Que explodam todas as teorias pessimistas, todas as visões preconceituosas, todas as manchetes estigmatizantes. Betânia, que persevera naquela biblioteca com o coração mole e os pulsos firmes, nos informou das crianças como quem falava dos próprios filhos. Sim, filhos às vezes dão aperreio, às vezes preocupam, mas acreditá-los é fundamental. E ela acredita.

Tive a honra de "declamar" ("Fabiana, eu não sei declamar") um dos poemas com um menino esperto, de olhos atentos, de mãos apressadas e de voz inquieta. Tales e eu abraçados permanecemos enquanto perguntávamos o que era poesia aos demais. E agora vai uma resposta possível:

Poesia é ver Drummond e outros mestres repousarem em estantes da periferia
É encontrar pessoas, cuja crença num mundo melhor faz parte da prática
Poesia é sentar na calçada, escutando canções, histórias, poemas e tantas risadas
É receber um abraço e uma declaração de uma menina recém conhecida: "eu gosto de você"
Poesia é ser alçada por uma criança de 3 anos em plena biblioteca.

Sim, Ester, eu também gosto de você e meus pés ainda estão fora do chão.

Para Fabiana Coelho, Betânia e todos os meninos do Coque.


Magna Santos