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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

CARTA A DEUS

Não acredito que fizeste o mundo em 6 dias
Mas acredito ser uma bela história de ninar:
No final o mundo estava sempre bom
E isto é maravilhoso!
Equivale dizer que és um ótimo contador de histórias
Porque criaste todas elas

Só mesmo tu para imaginar
Só mesmo tu para entender todas as faces de um rosto

A última gota de orvalho me serviu de lágrima
Quando compreendi as asas nos pássaros

Não sei se sou bem aquilo que imaginaste
Nem tampouco o que quiseste quando me criaste
Mas sei que me permites ser como sou
E eu te agradeço
E me esforço para fazer do que sou, algo melhor
Confesso: é um trabalho bem difícil
E não saberei mesmo fazer em 6 dias
Quem sabe 6 séculos, milênios, talvez.

Ah, eu queria poder soluçar aos risos para te ter a cada segundo!

Por último, queria muito te agradecer pelos poetas
Por sempre, no final de 6 dias,
Eles me salvarem
Quando olho e vejo
Com meus olhos cegos

Que o mundo...
O mundo não está bom.



Magna Santos

quarta-feira, 28 de abril de 2010

PARAÍSO

Pois bem, chegava exausta do trabalho. Subi os andares, imaginando que qualidade de companhia seria com tanto cansaço e alguma tristeza. Toquei o 'blim-blom' meio desmotivada, carregando um pouco da semana nos ombros, do tempo curto, da cabeça cansada. Uma voz lá de dentro me surpreende com o oposto do que sentia:

_ Tia, tia! Já vai, tia - grita com muita ansiedade.

Abraços restauradores e apertados dos meus dois amores. Um corre para o quarto estudar as muitas matérias do ensino médio, a outra - que havia estudado a tarde inteira - permanece eufórica: mais sorrisos, pulos de alegria. Só umas três horas passaria com ela, mas, pela sua alegria, parecia ser o mês inteiro.

_ Tia, vamos nos divertir! Tia, vem cá, tia, olhe só aqueles livros. Vamos ler, tia, vamos ler. Vai ser muito legal!

É linda esta urgência de criança; longe da adulta, ela se move em função da alegria que vem da simplicidade, de aproveitar o belo, o engraçado, o inusitado, as descobertas. Ah, e esta urgência é contagiante! Não demorou para eu esquecer de tudo o que levava nos ombros. Na verdade, parece que uma mão invisível tirou tudo, como quem corta a cordinha de um balão que sobe veloz. Uma mão não, uma mãozinha e bem visível. Senti-me nos ares.

Como boa adulta, dei um tempo na urgência. Antes preparamos a mochila pro dia seguinte, pois "primeiro a obrigação", ao que ela completou: "é, aí vamos ficar livres". E ficamos mesmo.

A coleção de livros escolhida foi um show à parte: "A criação do mundo das palavras". Linda! E aí saímos lendo e vivendo, teatralizando, pois é impossível fazer algo com ela que seja simplesmente uma única coisa. Lia e ela interpretava e vice-versa. Ela dava uma de Deus, quando criou as coisas(substantivos), depois as qualidades(adjetivos), os movimentos(verbos) etc. Ríamos de cair no chão. Seus olhos brilhavam de encantamento e de alegria e eu fiquei no paraíso por exatas três horas.

Foi então que percebi que o meu mundo acabava de ser recriado e que eu podia descansar sim no sétimo dia, porque tudo que havíamos feito era muito bom.

Ela dormiu abraçada às bonecas e eu...aos sonhos dela.


Magna Santos