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terça-feira, 12 de julho de 2011

CÉU E TERRA

O céu desce à terra todos os dias
Coberto de asas
Esfumaça-se nas nuvens
Aconchega-se nas flores
E pousa entre colinas,
Mares
Terras

Sim, o céu desceu à terra
Um novo bebê nasceu
E outro
Após outro…
E outro ser subiu
Para descer depois que criar asas

O céu desce à terra
Por entre fios de telefones
Emails
Portas abertas
Sorrisos de amigos
Fraternos
Camaradas

Céu
Terra

Faces do sorriso de Deus.


Magna Santos

Inspirado na escrita do poeta Domingos Sávio do blog No Toitiço

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

NA GARUPA*


Quatro filhos, sete netos, um bisneto a caminho. Estes são os frutos de 74 anos de vida e muitas pedaladas para manter o sustento da família. No percurso para a cidade, vai lembrando de quantas vezes já o fez. Sabia de cada curva do caminho, cada pedregulho, ladeira, cercas que íam mudando à medida que ía avançando e ultrapassando as propriedades. Aprendeu logo cedo a distinguir a condição do proprietário pelas cercas dos terrenos. As de pau-a-pique falavam de um tempo antigo, da época de criança, mas ainda resistentes entre os mais pobres. O arame não tardou a aparecer e, mesmo liso ou farpado, exibia a necessidade de preservar as riquezas dos donos.

Olhos pequenos espiavam de longe os vastos terrenos que a vida não lhe dera. Também não podia reclamar, saúde não lhe faltava para plantar em terras alheias, sustentando a família inteira.


Os meninos foram crescendo e tomando rumo próprio, mas nenhum tinha sua disposição. Alguns, lastimando a sorte, arriscaram a travessia da estrada em busca de melhores dias, travessia há tempos feita por ele. Amarga experiência lhe trouxe de volta sem um tostão e muitas mazelas. Acabou perdendo o pouco que pensava ter, mas "valeu a experiência", era o que sempre dizia.


De todos os anos vividos, o melhor era aquele: Rosinha finalmente voltara pra casa. Seu xodó, seu tesouro! Talvez porque perdesse as contas de quantas vezes acompanhou a mulher nas rezas para salvar a filha que havia nascido "doentinha" - como todos diziam, talvez porque era a única "filha mulher" ou talvez mesmo porque vê-la fugir de casa com um sujeito sem rumo lhe partiu o coração de pai. Assim, depois de sua fuga, criou um rosário próprio, uma jura, uma promessa antecipada pela volta de Rosinha e em todos os aniversários da filha, ía à igreja agradecer a Deus pela filha e pedir pela sua volta.
Quantas vezes voltou tarde da noite, porque sentia-se meio desalentado, perdido, sem direção por saber que sua casa ainda estava sem ela...

Hoje não. Sobrava-lhe uma imensa gratidão e, como uma espécie de reverência, encostou a bicicleta ao pé da porta e sentou-se na garupa, na tentativa de dizer a Deus que agora sabe...agora sabe que nunca esteve sem direção. Agora sabe que sempre fora guiado.



Magna Santos


*A publicação da foto foi previamente autorizada pelo fotógrafo Pachelly Jamacaru, cujo talento já me forneceu muitas oportunidades de viajar pelas palavras e criar histórias como esta.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

CARTA A DEUS

Não acredito que fizeste o mundo em 6 dias
Mas acredito ser uma bela história de ninar:
No final o mundo estava sempre bom
E isto é maravilhoso!
Equivale dizer que és um ótimo contador de histórias
Porque criaste todas elas

Só mesmo tu para imaginar
Só mesmo tu para entender todas as faces de um rosto

A última gota de orvalho me serviu de lágrima
Quando compreendi as asas nos pássaros

Não sei se sou bem aquilo que imaginaste
Nem tampouco o que quiseste quando me criaste
Mas sei que me permites ser como sou
E eu te agradeço
E me esforço para fazer do que sou, algo melhor
Confesso: é um trabalho bem difícil
E não saberei mesmo fazer em 6 dias
Quem sabe 6 séculos, milênios, talvez.

Ah, eu queria poder soluçar aos risos para te ter a cada segundo!

Por último, queria muito te agradecer pelos poetas
Por sempre, no final de 6 dias,
Eles me salvarem
Quando olho e vejo
Com meus olhos cegos

Que o mundo...
O mundo não está bom.



Magna Santos

domingo, 6 de junho de 2010

A BÊNÇÃO, RECIFE

Imagens de suas pontes correm o mundo. De Veneza Brasileira foi batizada, mas o que não se sabe é quantos caminhos existem em Recife. Aconchego dos poetas, que repousam nas suas praças, se embriagam com sua beleza, encostam-se nos baobás em plena tarde para acordarem por algum guarda desavisado, à procura de manter a ordem pública.

Sim, Recife, tuas alas, tuas ruas que tantos já andaram, que pousaram os pés de Manuel Bandeira, de Antônio Maria, que agitam tantos outros no vai e vem do frevo, ou do "frevo" do cotidiano, do frenesi do teu trânsito que nos tira o sossego.

Perdemos as horas encontrando caminhos mais curtos e esquecemos da Avenida Caxangá, cortando bairros, da Avenida Norte, atravessando a sorte, rebatizada com um segundo nome para lembrar mais um cearense que te adotou. Lembramos apenas do Coque das páginas policiais, esquecendo que a história, há tempos, toma outro rumo nas mãos dos meninos que folheiam as páginas dos livros da Biblioteca Popular do Coque ou, simplesmente, afinam os ouvidos, escutanto histórias carinhosamente contadas por bocas abençoadas.

Sim, Recife, nos acostumamos com tua agonia e com tuas surpresas, constantemente nos fazendo olhar para o céu em plena segunda-feira. Bênçãos, Recife, para teus habitantes que são privilegiados com tuas árvores centenárias a fazerem túneis por tuas ruas. Bênçãos, Recife, tu jorras em forma de pontes, como a lembrar que não precisamos de muros. Bênçãos, Recife, nas encostas dos teus morros que desassossegados esperam o inverno e tuas chuvas calamitosas. Dignidade, Recife, para teus filhos pequeninos que estacionam nos sinais à espera do que eles nem sabem ainda, mas, certamente, suas mães - nas calçadas - têm certeza. Quanta dor, Recife, ao mirarmos olhos tão tristes, por já pedirem! Misericórdia, Recife, para que as balas se percam para sempre no espaço de ninguém, sem atingir ninguém, sem fazer sofrer mães, pais, famílias inteiras.

Ah, bênçãos, bênçãos...bênçãos é também poder andar por ruas que carregam palavras benfazejas: amizade, harmonia, aurora, concórdia...bairros que nos desejam: boa viagem, boa vista.

Sim, Recife, teus problemas não são apenas teus. Infelizmente, tens muitas outras companheiras espalhadas neste país, capitais que carregam infelicidades, mas tuas virtudes são singulares e sentidas por quem te vive como os teus rios. A água passa, o tempo passa, mas sempre terá uma ponte para atravessar, para ligar, unir...és ponte, Recife!

Magna Santos