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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

MILAGRE

O espetáculo começava todo santo dia, porém algo especial marcou presença naquele raiar de sol. O circo estava com as portas abertas - sua tenda aberta - sem restrições. A cidade foi toda convidada: "venham todos, venham todos! O espetáculo precisa começar!". Repetidamente, uma voz infantil proclamava estas palavras em um lento carro de som. Era de um encantamento e felicidade que em cada rua, vilarejo, ponte, igreja, beco, o som era acompanhado de soluções:

Uns praticavam sorrisos
Visualizavam gratidões.
Mendigos nutriam-se de esperança
Policiais, de paz.
Empresários-lentidão.
Encarcerados-alegria.
Bombeiros-tranquilidade.
Meninos-de-rua-afeto.
Piratas-tesouros-espontâneos.
Mães/pais-conclusões...

O mantra persistente ecoava: "venham todos, todos venham!".

E foi assim que, no final do dia, estavam realmente todos. Juntos. Presentes. Unidos.

E uma lágrima desceu serena pela face do dono do circo. Finalmente, ele realizava à noite, o que havia lido ao nascer do sol:

"O milagre

Dias maravilhosos em que os jornais vêm cheios de poesia
e do lábio do amigo brotam palavras de eterno encanto
Dias mágicos em que os burgueses espiam,
através das vidraças dos escritórios,
a graça gratuita das nuvens". (Mário Quintana)

Magna Santos

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

ESTRELA-GUIA

Vi um menino aprendendo a andar, pisoteando no ar em busca de equilíbrio. O pai lhe falava: "isto, filho, isto! Venha, meu menino, vamos". Mãos pequenas seguravam uma imensidão de alegria. Estava seguro. Na verdade, ali nem sabia o que era insegurança. Não aprendera ainda esta palavra, nem conhecera esta sensação, a não ser na hora do parto. Desde que sua mãe lhe segurou, pronto, o mundo havia voltado, se aquietado, posto fim aquilo tudo que ele não sabia nomear, mas que o expulsava de um lugar tão quentinho...

Estava ali agora, noutro lugar quente, seguro: as mãos do seu pai.

O gramado lhe convidava a correr, mas não podia ainda. Dois passos e buft. Às vezes, até achava engraçado quando caía, mas os olhos maternos aumentavam tanto de tamanho que ele intuía ser algo perigoso. E o pai: "levanta, filho, vem cá!". Então ía cheio de vontade.


O sol lhe aquecia a pequena cabeça. As mãos lhe seguiam também os passos e os pés lhe pareciam tão preciosos que, vez ou outra, tinha a vontade de retomá-los na boca. "Pare com isso, meu filho!".

Brincadeiras na tarde inteira - ele e o pai - fizeram o relógio correr e o mesmo sol deitou-se para dormir, colorindo diferente o céu, antes tão azul. Que mundo grande este! Enorme! Terra de gigantes!

E o pai a lhe rodear os passos, aproveitou para lhe mostrar a primeira estrela. E ele, menino, a enxergar duas estrelas bem grandes...nos olhos do pai.


Magna Santos

quarta-feira, 28 de abril de 2010

PARAÍSO

Pois bem, chegava exausta do trabalho. Subi os andares, imaginando que qualidade de companhia seria com tanto cansaço e alguma tristeza. Toquei o 'blim-blom' meio desmotivada, carregando um pouco da semana nos ombros, do tempo curto, da cabeça cansada. Uma voz lá de dentro me surpreende com o oposto do que sentia:

_ Tia, tia! Já vai, tia - grita com muita ansiedade.

Abraços restauradores e apertados dos meus dois amores. Um corre para o quarto estudar as muitas matérias do ensino médio, a outra - que havia estudado a tarde inteira - permanece eufórica: mais sorrisos, pulos de alegria. Só umas três horas passaria com ela, mas, pela sua alegria, parecia ser o mês inteiro.

_ Tia, vamos nos divertir! Tia, vem cá, tia, olhe só aqueles livros. Vamos ler, tia, vamos ler. Vai ser muito legal!

É linda esta urgência de criança; longe da adulta, ela se move em função da alegria que vem da simplicidade, de aproveitar o belo, o engraçado, o inusitado, as descobertas. Ah, e esta urgência é contagiante! Não demorou para eu esquecer de tudo o que levava nos ombros. Na verdade, parece que uma mão invisível tirou tudo, como quem corta a cordinha de um balão que sobe veloz. Uma mão não, uma mãozinha e bem visível. Senti-me nos ares.

Como boa adulta, dei um tempo na urgência. Antes preparamos a mochila pro dia seguinte, pois "primeiro a obrigação", ao que ela completou: "é, aí vamos ficar livres". E ficamos mesmo.

A coleção de livros escolhida foi um show à parte: "A criação do mundo das palavras". Linda! E aí saímos lendo e vivendo, teatralizando, pois é impossível fazer algo com ela que seja simplesmente uma única coisa. Lia e ela interpretava e vice-versa. Ela dava uma de Deus, quando criou as coisas(substantivos), depois as qualidades(adjetivos), os movimentos(verbos) etc. Ríamos de cair no chão. Seus olhos brilhavam de encantamento e de alegria e eu fiquei no paraíso por exatas três horas.

Foi então que percebi que o meu mundo acabava de ser recriado e que eu podia descansar sim no sétimo dia, porque tudo que havíamos feito era muito bom.

Ela dormiu abraçada às bonecas e eu...aos sonhos dela.


Magna Santos