Sementeiras nunca republicou nenhum escrito, mas hoje, quando completa dois anos de existência, em vez de coisas novas, gostaria de compartilhar um poema antigo que os leitores mais recentes talvez não tenham tido oportunidade de lê-lo e ao qual dedico especial carinho. Mantive a forma original, apesar do perfeccionismo me dar muita vontade de modificá-la. Na verdade, meu coração, depois que o escolheu, sofreu por outros que lhe são por demais preciosos, como é o caso de Super-herói de botas e tantos que falam dos meus amores mais caros, outros que retratam encontro com gente "desconhecida" numa Sala de espera ou as muitas palavras que saíram quase num suspiro ao ver as fotos do generoso Pachelly Jamacaru, como foi em A menina e o espelho da serra, lembrando-me também Quando as palavras salvam. Contudo Doce Teté teimou em permanecer e aqui fica, porque não tenho mais energia para resistir.
Teté foi uma pessoa que cuidou um pouco da minha infância, a quem se poderia nomear de babá, mas não, eu a chamava simplesmente de Teté e ainda a chamo, apesar da distância e da minha ausência desleixada. Agradeço a Deus por tudo e a vocês o meu muitíssimo obrigada por todas as sementes, por toda a plantação partilhada até aqui. Muito em breve teremos escrito novo. Que Deus continue abençoando a todos!
Lembro do cheiro pela casa
Impregnando as paredes de taipa
O chão de barro batido
Parecia vestido de rica cerâmica
O café me chegava tão doce
Como eram doces os sentimentos teus
E eu dizia satisfeita:
“É o melhor café que alguém já me deu”.
Café
Que pendia no pé da porta da tua casa
Café
Pilava pilava...
Preto como tu
Para uma branca como eu.
Acho que tenho a alma preta, Teté
Acho que ela foi pintada por ti
Enquanto eu tomava café
Enquanto tomavas conta de mim
(E mamãe nem percebeu
Foste esperta: nem ela nem eu).
Hoje tenho a negritude
Que nem o candeeiro conseguia espantar
Tenho a escuridão
Que graças a tua mão eu conseguia acalmar
Negritude, Teté
Que um dia, sem sucesso, a lepra te quis roubar
Negritude sadia
Quente, leve, destemida
Assim como teu café
Forte, doce...do pé.
Deste ficou o sabor
Guardado na minha lembrança
E de ti, a minha crença
Que tenho com emoção
De que a tua negritude
Está passada e registrada
Pintada no meu coração.
Magna Santos
*Escrito em 10 de novembro de 2003.
