segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

SUPER-HERÓI DE BOTAS

Ontem o menino me mostrou um maço grande de canos de alumínio a serem mexidos e remexidos para virarem um varal. Não é suficiente o já pronto, o improvisado, o arranjado. Feliz ele se sente mesmo é em projetar, bolar, meter a mão na massa, do modo mais simples das pessoas de bem, que vêem nas próprias mãos fábricas inusitadas para suprirem necessidades pequenas ou grandes. Em vão as tentativas para demovê-lo da idéia, não há argumentos suficientes para lhe tirar este trabalho, que, desconfio, será um prazer. Quanto tenho aprendido com ele! Quanto ainda minhas mãos hesitam, vacilam...

As suas, ao contrário das minhas, desde cedo trabalharam, mas também brincaram, traquinaram. Bicicleta, cavalo, bola, latas, pedras, armadilhas, baladeira, carrinho de lata, bola de gude, desde cedo a atividade era grande. Mãos e pés ensaiavam o dinamismo constante que seria sua vida. E não parou mais. Canivete para as valentias, logo podadas pela mãe; treinos de um super-herói, que depois descobriu onde estavam as verdadeiras armas. Alguns ajustes para não perder o roteiro, o prumo, para também fortalecer o que, mais tarde, deveria estar mais forte. Assim, o colete para coluna e as botas ortopédicas lhe ajudaram a se manter firme, a pisar melhor.

Menino bom, que cedo inventou de pedir ao avião que passava: "avião, me manda um irmão!". Foi contrariado com a chegada de uma irmã, aprendendo que nem tudo vem conforme se pede. Também aprendeu a dor da despedida logo cedo, o que o fez engolir carboreto no lugar de bombons, fato incompreensível para a menina do avião que adorava uns confeitos, uns doces. Mesmo com tanta incompreensão, ele cedia aos pedidos dela e, de vez em quando, amarrava toalha no pescoço para voar melhor em busca de alguém em apuros. Era a dupla dinâmica a voar pela casa, pulando de cama, sofá, cadeira, salvando o mundo inteiro.

É, este é você. Não, você é muito mais do que isso. Teus pés caminham firmes esse tempo todo, embora o cansaço às vezes te visite. Sabes que não estás sozinho e isso é muito bom. Aos poucos tenho aprendido os valores que há tempos já compreendes. Desconfio que a menina do avião começa a aterissar. Espero caminhar ao teu lado qualquer dia desses e poder te ajudar nessa estrada. Por ora, apenas te ofereço o que posso te dar: o meu amor. Ainda te vejo com toalha nos ombros e hoje carregando consigo tantas preciosidades para meu coração.

Voa, voa alto!

Quando o varal estiver pronto, aproveita para estender a paz, a alegria e a esperança. Estaremos ao teu lado para apreciar a paisagem.

Que Deus te abençoe e te proteja sempre!


Magna Santos

6 comentários:

francisco disse...

parabens Magna,adorei.Deus te abençoi Tichico

Marina disse...

Nossa, Magna! Emocionei-me aqui. Lembrei-me do super-herói da minha infância. Um que hoje me faz rir como ninguém e que ainda é meu herói.

Como sempre, lindo texto.

Abraço!

Marina disse...

Uma pequena homenagem no Do Fundo do Mar. Beijos!

Lídia Márcia Lima de disse...

Magninha! Esse é ele e parece que já o conheço desde antes e há muito, muito tempo atrás. Você consegue escrever de um jeito que não deixa dúvidas. A gente parece que vai lá naquele momento exato daquilo que você escreve, vive, entende e volta. Continue firme. Beijos.

Anônimo disse...

Cara Comadre. Nem diga que sou suspeito. Na verdade estou em suspiros e digasse de passagem, suspiros de homem. Melhor dizer temperar a garganta. Volto a dizer e a lhe parabenizar, não só pela forma como escreve, mas como ver o mundo. Nessas linhas percebemos a sua alegria em ter vivido tudo, e tão simples e ao mesmo tempo para outros tão complexos. Para enfim não ser muito puxa saco, minha cara Comadre, digo que as suas palavras são como ..., digo..., é..., Vou ficar calado, mudo e ler novamente, além de agradecer a deus pelos irmãos que temos!

Magna Santos disse...

Meu irmão, leio suas palavras com os ouvidos...são sonoras.
E nessas horas, eu não sei se rio ou se choro.
Que Deus te abençoe.
Abraço.
Magna