segunda-feira, 13 de abril de 2009

QUANDO AS PALAVRAS SALVAM

Enquanto as crianças a esperam, tenta atinar para o que não sabe ainda. Faz dias que não se atreve a olhar para dentro de si com medo de ver o já revisado e não atualizado. Não espera mais aquele telefonema, não arruma mais as gavetas, tampouco se olha no espelho. Anda com medo de sonhar acordada. Já não espera mais nada.

Não ser mãe é assim: as crianças a esperam, não o contrário. Ampara a cabeça entre as mãos na tentativa de acolhê-la mais do que aos outros, quando então escuta uma voz pertinho: "tia". Não há mais tempo, precisa levantar-se.

Atende ao chamado por obrigação. Escolhe as peças pedagógicas, fantoches, máscaras e tudo mais. Ensaia uma coreografia engraçada e os pequenos se colocam próximos dela como se de fato fossem. Só que de fato são.

Segue a sina da contação. Demora a perceber a acolhida do sorriso. Ainda está distraída nas próprias colocações, afinal, o príncipe acaba de chegar e a bruxa ameaça acabar com a alegria.

_ Mas, tia, essa história não é assim.

_ Não? E como é?

_ Os anões expulsam a bruxa que cai no barranco.

_ E depois?

_ Depois colocam a princesa numa caixa de vidro

_ Por que?

_ Ora, tia, porque ela ainda estava viva para morrer!

_ "Ela ainda estava viva para morrer" - sussurra a última frase para si mesma - Ah...

Desta vez, não só a Branca de Neve foi salva.


Magna Santos

4 comentários:

Ana disse...

Os desejos assumidos chegam mais perto da realidade, mesmo quando não realizados.
Bjs,
Ana

Gaby Soncini disse...

Muito bom.

Grande beijo.

Luna Freire disse...

Lindo, Magna!!! Me serviu de mote inspirador. Dá uma passadinhalá em palavraspontes e confere.

Eduardo Trindade disse...

Quanta ternura e quanta sensibilidade numa história tão cotidiana! Gostei mesmo do jeito com que brincas com as palavras...
Abraços!