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quinta-feira, 19 de maio de 2011

APELO À CHUVA

Fui acostumada, quando criança, a te esperar com ansiedade, te festejar com alegria, sapateando nas poças que fazias no meu quintal. Corria atrás de bicas para aflição de uma mãe cuidadosa, que temia uma gripe na filha pequena.

Com tua chegada, meus tios sorriam, porque era certeza de colheita farta e mesa abastecida. Eras, portanto, bem-aventurança.

Hoje, longe do meu torrão e já crescida, fujo de ti. Vejo-te da janela e dentro permaneço, indiferente à variedade de biqueiras que ostentas nas casas vizinhas. Sem gripe, com saúde, restou-me algum medo por te ver alagando ruas, vilarejos, cidades inteiras. Inundas até as famílias que, junto com tua água, afogam a esperança e o sossego.

Preocupa-me tua presença como quem hospeda um amigo à beira de um colapso. És e não és bem-vinda. És e não és querida. Uma certa tensão impera no ar.

Porém as vozes alegres dos meus distantes dão-me notícia de que também os visitastes. Novamente: colheita garantida, suor respondido.

Então, daqui te aceno como quem te dá mesmo um tchau: vai embora para onde és bem vinda, vai para onde és sinônimo de bem-aventurança.


Magna Santos

segunda-feira, 12 de abril de 2010

CHUVAS


Chuva no mar
Na serra
No Rio.
Chuva em quase todos os lugares
Há quem culpe os mortos e desabrigados
Por estarem mortos e desabrigados
A sensibilidade cede lugar à defesa
Quando a culpa fala alto.

País de muitas terras para poucos donos
País de muitas esperas

Enquanto as culpas são disseminadas
Enquanto os dedos em riste são usados
São Pedro e São José se compadecem do sertanejo
Gotas muitas, abundantes
Molhando sementes cansadas de esperar no chão ardente...
Chove no cariri.

Chora, semente, de alegria.
Chora, meu povo sofredor
Chora do alto
De longe
Do asfalto
De tristeza
De saudade
De coragem

Chora
Porque chorando
Chove
Dentro de si.


Magna Santos

*A publicação da foto foi gentilmente autorizada pelo fotógrafo Pachelly Jamacaru, cujo blog é uma "chuva" de imagens poéticas. Obrigada, amigo.