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quinta-feira, 19 de maio de 2011

APELO À CHUVA

Fui acostumada, quando criança, a te esperar com ansiedade, te festejar com alegria, sapateando nas poças que fazias no meu quintal. Corria atrás de bicas para aflição de uma mãe cuidadosa, que temia uma gripe na filha pequena.

Com tua chegada, meus tios sorriam, porque era certeza de colheita farta e mesa abastecida. Eras, portanto, bem-aventurança.

Hoje, longe do meu torrão e já crescida, fujo de ti. Vejo-te da janela e dentro permaneço, indiferente à variedade de biqueiras que ostentas nas casas vizinhas. Sem gripe, com saúde, restou-me algum medo por te ver alagando ruas, vilarejos, cidades inteiras. Inundas até as famílias que, junto com tua água, afogam a esperança e o sossego.

Preocupa-me tua presença como quem hospeda um amigo à beira de um colapso. És e não és bem-vinda. És e não és querida. Uma certa tensão impera no ar.

Porém as vozes alegres dos meus distantes dão-me notícia de que também os visitastes. Novamente: colheita garantida, suor respondido.

Então, daqui te aceno como quem te dá mesmo um tchau: vai embora para onde és bem vinda, vai para onde és sinônimo de bem-aventurança.


Magna Santos

terça-feira, 13 de julho de 2010

DESPERTA-DOR

As águas me levaram junto com as telhas, portas, janelas, paredes da minha casa. Nem parece que passei anos para construir o que tenho, tinha. Restou o despertador maluco a me avisar da hora veloz. Acabou tudo num instante, o instante do aperreio, do desespero, das crianças desamparadas, perdidas, dos velhos sem resistência para nadar, para subir nos lugares mais altos. Uma avalanche de água inundou nosso mundo. Falam que a tv mostrou tudo. Duvido. Não havia ninguém aqui, além de nós. Pensei em falar, mas novamente o despertador tocou na hora do choro, fazendo-me lembrar do muito por fazer. Por onde começar? Como?

Minha mulher já não tem o mesmo olhar de antes, minha filha descoberta chora, quando acorda em meio a cacos e adormece ainda procurando a boneca Soninha, levada pela enxurrada. À noite, a escuridão é pior, o frio também. Velas chegam nos caminhões. Escrevem-se neles 'rapidão cometa' para nos acalmar.

Entre lama e pedras, restos de tudo. Sobrou nosso olhar, nosso silêncio.


Vítimas se avolumam em abrigos improvisados. Pernambuco e Alagoas sofrem com a destruição nas últimas enchentes. Quem tem a oportunidade de passar pelas cidades sofridas, fala que os jornais não são capazes de transmitir a dor das pessoas. Olhos perdidos é o que mais se vê. Fica aqui os acessos à Defesa Civil de Pernambuco e mais sobre Alagoas. Neles há muita informação, inclusive, as contas bancárias para doações seguras, no caso dos que estão distantes.


Magna Santos

segunda-feira, 12 de abril de 2010

CHUVAS


Chuva no mar
Na serra
No Rio.
Chuva em quase todos os lugares
Há quem culpe os mortos e desabrigados
Por estarem mortos e desabrigados
A sensibilidade cede lugar à defesa
Quando a culpa fala alto.

País de muitas terras para poucos donos
País de muitas esperas

Enquanto as culpas são disseminadas
Enquanto os dedos em riste são usados
São Pedro e São José se compadecem do sertanejo
Gotas muitas, abundantes
Molhando sementes cansadas de esperar no chão ardente...
Chove no cariri.

Chora, semente, de alegria.
Chora, meu povo sofredor
Chora do alto
De longe
Do asfalto
De tristeza
De saudade
De coragem

Chora
Porque chorando
Chove
Dentro de si.


Magna Santos

*A publicação da foto foi gentilmente autorizada pelo fotógrafo Pachelly Jamacaru, cujo blog é uma "chuva" de imagens poéticas. Obrigada, amigo.