Mais uma vez, as palavras viajam.
Preferem o silêncio, o aconchego dos ares que as levem para bem longe.
Difícil ter a palavra certa na hora adequada.
Difícil também responder em silêncio a quem julga necessitar de discursos, explicações.
Nem sempre sei o que dizer...nem o que não dizer.
Nem sempre sei ficar em silêncio, mas simpatizo com os momentos, quando as palavras saem pelos olhos.
Quando a dor é grande, pretende-se remédios milagrosos.
Olhos perdidos me chegam, denunciando que há muito vagueiam.
Só me enxergam, quando me fitam para não errarem o alvo.
Viro mira.
Finjo uma morte que sorri ao ver que os olhos perceberam.
E é bom morrer assim.
Chega o fim e ele às vezes é custoso.
Faltou o bombeiro, a polícia, o caminhão...
Tanta coisa...
Arrisco risos para quem me devolve irritação.
Na próxima, ele verá que sobrevivi e poderá perdoar-se e me perdoar as faltas e o desejo incontido de ampará-lo.
Sim, os medos continuam.
Os desejos também.
Magna Santos
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segunda-feira, 18 de abril de 2011
sexta-feira, 8 de abril de 2011
RECICLADO
Piedade, meu Deus!
Eu não sabia do fim
O asfalto na cara é o que me resta
Deste mundo sofrido
Pessoas me perguntam
Sem que eu atine
Respostas
Algo aconteceu...
Só uma buzina
Uma luz
São minhas lembranças
Piedade, piedade!
Já não escuto nada
O asfalto na cara esfria
Meu corpo inteiro
Piedade, Criador!
Cada garrafa, papelão, papel
Vale o tempo perdido
Agora reciclado
Piedade, meu Deus!
Onde ela está agora?
...
E eu?
...
Onde estou?
Magna Santos
Eu não sabia do fim
O asfalto na cara é o que me resta
Deste mundo sofrido
Pessoas me perguntam
Sem que eu atine
Respostas
Algo aconteceu...
Só uma buzina
Uma luz
São minhas lembranças
Piedade, piedade!
Já não escuto nada
O asfalto na cara esfria
Meu corpo inteiro
Piedade, Criador!
Cada garrafa, papelão, papel
Vale o tempo perdido
Agora reciclado
Piedade, meu Deus!
Onde ela está agora?
...
E eu?
...
Onde estou?
Magna Santos
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
VAI PASSAR
O medo agora tem cor, cheiro e endereço. Deixou de ser algo inodoro, invisível. O monstro subiu do porão e começa a arranhar a porta, querendo entrar. Conheço o seu jeito não é de hoje e mamãe teima em me dizer: "vai passar, filha, vai passar". Será?
Sei não...das outras vezes que arrombou minha porta, fez um estrago daqueles. Pintado de azul e amarelo, com um grande bico e a fome maior ainda, manteve-se aqui por exatos oito anos, entregando tudo o que eu tinha aos transeuntes. Vi aos poucos minha casa esvaziada. Perdi o viço e, desde esse tempo, tomei horror a ele, eu que já temor o tinha. Lutei, com todas as forças das minhas mãos pequeninas, para expulsá-lo de dentro, mas inútil. Ele entrou e tomou gosto pelo meu cantinho.
Agora está querendo voltar, após oito anos tentando me recuperar. Decerto, minha casa ainda não está como quero, falta muita coisa...mas, logo agora? Logo agora, quando minhas mãos já sabem plantar coisas melhores, já ensaiam algumas notas musicais. Logo agora que minha casa permanece mais serena, que meus vizinhos me respeitam mais. Logo agora que pensava em enfeitar o jardim... Logo agora?
Mamãe continua me dizendo: "vai passar, filha, vai passar". E aí me lembro, em flashes, de uma lenda antiga, contada na hora de dormir. Falava que, certo dia, o rei lançou um desafio: quem seria capaz de criar uma frase apropriada para ler na hora da tristeza, como também no instante da alegria? Muitos foram as tentativas de todos os plebeus, contudo a única que calou o rei foi exatamente esta: vai passar.
Assim, seja qual for o resultado dessas minhas noites aterrorizantes, seja qual for a força do monstro com suas unhas perseverantes, terei como escudo, de fato, o ninar de minha velha mãe: "vai passar". Por ora, asseguro: minhas pequenas mãos continuam tateando o trinco da porta e fechando e fechando e fechando...
Sei não...das outras vezes que arrombou minha porta, fez um estrago daqueles. Pintado de azul e amarelo, com um grande bico e a fome maior ainda, manteve-se aqui por exatos oito anos, entregando tudo o que eu tinha aos transeuntes. Vi aos poucos minha casa esvaziada. Perdi o viço e, desde esse tempo, tomei horror a ele, eu que já temor o tinha. Lutei, com todas as forças das minhas mãos pequeninas, para expulsá-lo de dentro, mas inútil. Ele entrou e tomou gosto pelo meu cantinho.
Agora está querendo voltar, após oito anos tentando me recuperar. Decerto, minha casa ainda não está como quero, falta muita coisa...mas, logo agora? Logo agora, quando minhas mãos já sabem plantar coisas melhores, já ensaiam algumas notas musicais. Logo agora que minha casa permanece mais serena, que meus vizinhos me respeitam mais. Logo agora que pensava em enfeitar o jardim... Logo agora?
Mamãe continua me dizendo: "vai passar, filha, vai passar". E aí me lembro, em flashes, de uma lenda antiga, contada na hora de dormir. Falava que, certo dia, o rei lançou um desafio: quem seria capaz de criar uma frase apropriada para ler na hora da tristeza, como também no instante da alegria? Muitos foram as tentativas de todos os plebeus, contudo a única que calou o rei foi exatamente esta: vai passar.
Assim, seja qual for o resultado dessas minhas noites aterrorizantes, seja qual for a força do monstro com suas unhas perseverantes, terei como escudo, de fato, o ninar de minha velha mãe: "vai passar". Por ora, asseguro: minhas pequenas mãos continuam tateando o trinco da porta e fechando e fechando e fechando...
Magna Santos
domingo, 26 de setembro de 2010
PEQUENOS RECORTES DO MEDO
"Boi boi boi
Boi da cara preta
Pega esta menina que tem medo de careta"
_ Deixa eu dormir com vocês, mãe
_ Não, filha, vá para o seu quarto
_ Mas é escuro...
_ Por que papai está demorando?
Preciso aprender matemática.
E se a turma não me aceitar?
E se ele não me quiser?
Não posso perder este emprego.
E se o nosso amor não der certo?
_ Vindo com saúde, tanto faz menino ou menina.
_ "Boi boi boi...pega este menino que tem medo..."
E essa febre que não baixa...
_ Cuidado, filho, você vai cair!
Meu Deus, ele vai sofrer.
Eu não quero ficar sozinha.
Não quero morrer.
_ Meu Deus, quanta eternidade!
Magna Santos
Boi da cara preta
Pega esta menina que tem medo de careta"
_ Deixa eu dormir com vocês, mãe
_ Não, filha, vá para o seu quarto
_ Mas é escuro...
_ Por que papai está demorando?
Preciso aprender matemática.
E se a turma não me aceitar?
E se ele não me quiser?
Não posso perder este emprego.
E se o nosso amor não der certo?
_ Vindo com saúde, tanto faz menino ou menina.
_ "Boi boi boi...pega este menino que tem medo..."
E essa febre que não baixa...
_ Cuidado, filho, você vai cair!
Meu Deus, ele vai sofrer.
Eu não quero ficar sozinha.
Não quero morrer.
_ Meu Deus, quanta eternidade!
Magna Santos
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