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terça-feira, 15 de março de 2011

PAI?

Pai, corre, vem ver que legal, parece de verdade. Parece a última brincadeira que fizemos lá na areazinha de trás. Vem, pai, vem ver. Estou até lembrando de como montamos a cidade, colocamos os barquinhos, os carros, até aquela lancha que você gosta. Arrumamos os prédios, enfeitamos árvores e brincamos o dia inteiro de cidade. Lembra, pai?

Você trouxe os aviõezinhos que o primo Teco não queria mais. Fizemos até um aeroporto. Eita, como foi bom, não foi, pai? Fizemos tudo com ruas, avenidas, sinais. Deu um trabalhão danado, não foi, pai? E o senhor dizia: "Você vai ver o resultado, filho. Poderemos criar e bolar qualquer coisa!"

E foi mesmo, pai, bolamos o dia todo. Até mamãe ficou zangada, porque dei trabalho pra tomar banho e almoçar. E o senhor dizia a ela: "estamos brincando de ser grandes, querida".

Pai? Pai? O que foi, pai?

Você não acha que parece quando terminamos a brincadeira, jogando aqueles dois baldes cheios de água em cima? Não lembra que saiu arrastando tudo?

É, mamãe chamou o senhor de louco, mas a gente estava apenas se divertindo e depois limpamos tudo, não foi, pai?

Pai?
O que foi, pai?
Por que o senhor está assim?
Por que está chorando?
Quer que eu desligue a tv?
Isso aí não é de verdade, pai.

...
É?


Que Deus abençoe e fortaleça todos os nossos irmãos japoneses.

Magna Santos

terça-feira, 13 de julho de 2010

DESPERTA-DOR

As águas me levaram junto com as telhas, portas, janelas, paredes da minha casa. Nem parece que passei anos para construir o que tenho, tinha. Restou o despertador maluco a me avisar da hora veloz. Acabou tudo num instante, o instante do aperreio, do desespero, das crianças desamparadas, perdidas, dos velhos sem resistência para nadar, para subir nos lugares mais altos. Uma avalanche de água inundou nosso mundo. Falam que a tv mostrou tudo. Duvido. Não havia ninguém aqui, além de nós. Pensei em falar, mas novamente o despertador tocou na hora do choro, fazendo-me lembrar do muito por fazer. Por onde começar? Como?

Minha mulher já não tem o mesmo olhar de antes, minha filha descoberta chora, quando acorda em meio a cacos e adormece ainda procurando a boneca Soninha, levada pela enxurrada. À noite, a escuridão é pior, o frio também. Velas chegam nos caminhões. Escrevem-se neles 'rapidão cometa' para nos acalmar.

Entre lama e pedras, restos de tudo. Sobrou nosso olhar, nosso silêncio.


Vítimas se avolumam em abrigos improvisados. Pernambuco e Alagoas sofrem com a destruição nas últimas enchentes. Quem tem a oportunidade de passar pelas cidades sofridas, fala que os jornais não são capazes de transmitir a dor das pessoas. Olhos perdidos é o que mais se vê. Fica aqui os acessos à Defesa Civil de Pernambuco e mais sobre Alagoas. Neles há muita informação, inclusive, as contas bancárias para doações seguras, no caso dos que estão distantes.


Magna Santos