quinta-feira, 8 de julho de 2010

LUDOVICO

Esqueceram a cacimba no lugar
Mudaram as cercas
Cavaram a estrada de sulcos compridos
Estreitaram
Colocaram tijolos na casa de taipa
O olho d'água chorou
Distribuíram meninos em casas distintas
Quebraram a porteira
Plantaram flamboyant

O jasmim continua lá

A cozinha abriu-se em outra porta
Fecharam a janela
Aumentaram o alpendre
Nasceram mais meninos
A luz chegou
O candeeiro apagou
As estrelas diminuíram
As velhas rezadeiras também

O jasmim continua lá

Alguns pés já não marcam o terreiro
Outros tantos já nasceram
Outros seguiram
Cresceram

E o jasmim continua lá

Continua como continua
As ripas da casa
Como continua a mesma pisada
De quem não vive sem um aperto de mão
Um abraço
Um aceno
Um choro entalado na garganta na hora da despedida.


Magna Santos

segunda-feira, 5 de julho de 2010

MUDA DE UM PÉ DE SERRA

Após retornar de viagem, mais uma muda me chegou, primeiro lida ao telefone, para depois me vir às mãos. A voz quase entalou ao escutá-la, mas era também aniversário do autor e urgia eu terminar os parabéns para depois pensar no choro. Mais uma vez, arrisco-me a publicá-la sem autorização, pois tenho aprendido que emoção boa deve ser compartilhada. Aqui está, então, um dos acontecimentos que muita felicidade me deu nos útimos dias: a comemoração dos setenta anos de minha mãe, cuja oportunidade reforçou a gratidão pelo meu avô(meu avohai) - velho lunduzento muito amado, pela minha avó - mão amorosa, cuja semente cheira a jasmim - enfim, por todos os seus rebentos.

A emoção foi tamanha que me calou os dedos, daí tomar emprestado os do meu irmão (dizem que é primo) para explicar meu silêncio. Como ele já me disse que Sementeiras é também minha sala de visita, tomo esta liberdade. Obrigada, cumpade. Talvez, nos próximos dias, eu publique algumas linhas que saíram a pulso sobre o Ludovico - meu pé de serra mais caro.


PRESENTE DE ANIVERSÁRIO

Festa de aniversario era confraternização, era uma celebração pelos frutos de uma semente saída da violência da Aurora, desbravou a Amazônia e os seus seringais, desceu rio abaixo numa canoa e descansou num chalé às margens do rio salgado, terminando por se firmar no solo fértil da antiga ilha dos macacos, que em homenagem a um aristocrata passou a ser Ludovico.

Festa, reunião de gente que se gosta, mesmo que às vezes esqueça disso, junta com coisas como o velho jasmim-laranja - irmão também - e aqueles bancos antigos de momentos tristes e alegres, cúmplices das nossas conversas. E o alpendre velho como sempre nos abrigando, nos abraçando com as suas lembranças de todos e de tudo. Não tínhamos alguns que poderiam responder “presente”, mas acho que sorriam chorando, assim como os seus.

Eita, meu querido, meu amado velho lunduzento, nem o conheci fisicamente, mas sinto a sua herança dentro do meu peito, o amor pelos nossos. E o apreço pela sua retidão moral, indiscutível caráter, afeito ao trabalho e ao cuidado com a família. Nunca o vi com os braços cruzados para trás, temperando a garganta com a fronte franzida, nos dias de destempero, mas até tal sabor provei sem conhecê-lo, pois o trago comigo.

Os seus rebentos já passaram dos sessenta, setenta e outros dos oitenta, mas continuam sendo o Ciço Camaleâo, o Oi de Cobra Morta, a Oi de Pitomba Lambida, a Galinha Carijó, o Quebra queixo, a Maria Pimenta, o Venta de Bezerro Novo, o Zé Coquin, o Malota, todos, embora distantes, por vezes, ao aproximarem-se demonstram todo amor que sempre os uniu, principalmente nas dificuldades. São todos crianças crescidas cercadas por suas proles.

Não tenho palavras para expressar a alegria de fazer parte desta saga, mas despertado pela iniciativa de dois brilhantes irmãos de berço e coração, sendo primos de sangue, sei da necessidade de celebrarmos sempre a nossa história, a nossa união, o nosso amor por nós mesmos. E deixarmos a carcaça da ignorância, as farpas dos conflitos e o egocentrismo de lado. É tempo de oxigenar as relações desses rebentos, para que possam envelhecer com o mesmo sentimento que cresceram.


Halano

quinta-feira, 17 de junho de 2010

BEM-TE-VI, JUNHO!

Levanto os olhos e vejo o bem-te-vi solto no céu; brinca com o vento, que roça suas asas. Paira, plana e solta o gogó; com a chuva, busca abrigo. De longe, ainda escuto sua canção, outro lhe responde, depois outro e outro. Tenho uma atração por este canto e eles conversam numa intimidade que contagia...quase respondo, mas são seis horas da manhã, melhor não, os vizinhos não entenderiam. O céu rapidamente é pintado de cinza e a chuva cai esfriando o tempo. A canção continua.

Junho junho...das chuvas, do tempo molhado. De Santo Antônio, São João, São Pedro. Do pé na estrada, da mala lotada de alegria, de saudade, de vontade de estar junto, de homenagear quem merece, de escolher a roupa do batizado, de água na cabeça, de afeto renovado, de rede no alpendre, de manhã cedinho com o cacarejo das galinhas, o gado no curral, os passos no terreiro, o frio cortante que desce do Araripe para nos encolher. Junho dos tios, dos meninos de vovô, do velho de ontem que vive nas palavras dos filhos, netos, bisnetos e tataranetos.

Ah, junho! Bem-te-vi, junho!

Uma sonha em alimentar os pintos, outro em rever os primos, uma em deitar na rede e conversar até a boca secar e assim vamos vivendo até chegar. Não dispensarei acender a fogueira com ele, pena é não me esperar, tenho chegado atrasada demais nos últimos anos. Darei as voltas para queimar as mazelas do semestre e aquecer a esperança pro próximo. São João abençoará. Olharei para o pé de jasmim, lembrando de quem esteve lá. Ouvirei as mesmas histórias e as gargalhadas vão soar como da primeira vez, como ressoarão de um jeito antigo, escutando as novas lorotas. Me assombrarei com o crescimento dos meninos, com o braço quebrado de um, com a esperteza do outro, com o sorriso de sete meses de quem terá o cocoruto banhado em meus braços.

Sim, lembrarei de todos os apelidos, não esquecerei de nenhum. Os meninos de vovô chorarão por causa deles mesmos, chorararemos juntos, igual cascata. Já não posso pensar em mais nada. Trabalhar tem sido difícil, escrever, uma repetição e como sou repetitiva, meu Deus!

Enfim, nem sei de mim, dos próximos dias, das linhas que Sementeiras contará. Só sei que se as postagens atrasarem, paciência, estarei em dia com minha felicidade. Quando voltar, quem sabe, contarei. Nem sei...

Se não escrever até lá, bom São João! Que o corajoso João Batista abençoe a todos!


Magna Santos

sexta-feira, 11 de junho de 2010

DE QUATRO EM QUATRO ANOS...*

_ E aí, Freitas? Arrisca o placar de hoje?
_ Hein?!

Tentava emendar uma resposta, mas o resultado era sempre desastroso. Cultura nenhuma de futebol, interesse nenhum e sabedoria pior ainda. Não escapava das furadas, das demonstrações de que aquele mundo não lhe pertencia. E o que conversar, então, em época de Copa do Mundo? Arriscava:

_ Rapaz, encontrei o vinil do Fagner com aquelas músicas: Dois Querer, Vento Forte, lembra?
_ Hein?! Ah, tá. Sim, sim, lembro... Outro dia vi uma reportagem sobre ele. O cara é amarrado em futebol, adora uma bolinha. Só não estou lembrando agora a posição que ele joga...parece que é no ataque. Tu sabes?

“Deus do céu, que tormento!” – pensava. “Como vou fazer agora em plena copa do mundo?”

Decidiu mudar o enredo, melhor, decidiu se adequar a ele. Comprou revistas de futebol, leu todas com o mesmo apetite que revisava os balancetes do prédio. Apesar da insegurança, sentia-se um pouco mais preparado.

_ Freitas, estou reunindo alguns amigos lá em casa amanhã para assistirmos ao jogo do Brasil. Quero a presença de vocês lá, ok?
_ Fechado, Alfredo! – disse com uma certa alegria, pois iria entrar de vez para o time dos torcedores.

Alfredo era seu vizinho de baixo, talvez o mais entusiasmado por futebol que já conhecera. Era o “Armário”, como muita gente o chamava, apelido ganho por causa do porte gigantesco, um verdadeiro contraste com ele: o “Magro”, como também era chamado pelos mais chegados.

Animou-se verdadeiramente, mas jurou não dar vexame. Observaria tudo, vibraria, até xingaria se fosse preciso. Chegou primeiro do que todo mundo, inclusive, do dono da casa. Alfredo atrasara no trabalho e só chegou no Hino Nacional; não quis nem trocar de roupa, ficou daquele jeito mesmo: calça e camisa sociais, com sua respectiva caneta no bolso, sapato social etc. Fazia parte da superstição não trocar de roupa, depois do time entrar em campo. Porém resignara-se, estava animadíssimo.

A esposa do Magro não acreditava no que via. “Quanta animação!” Não reparava que a animação do marido era guiada pelo anfitrião. Sentado ao lado de Armário, estava lá, esforçando-se ao máximo para tomar gosto pela bolinha. De soslaio, ele respondia a tudo, imitando o vizinho. Levantava-se com os punhos fechados, gritava, xingava o juiz, até reclamava do escanteio não marcado, um verdadeiro torcedor. Primeiro tempo, intervalo, segundo tempo e todos lá: sofrendo. “Ô Brasil pra maltratar!”, diagnosticava com muita sinceridade, afinal, ainda faltavam 45 minutos.

Por diversas vezes, o Magro teve sustos com os gritos dos mais entusiasmados e gritava também, já no reflexo.

Chegou o momento que todos esperavam e nos segundos finais do segundo tempo: GOOOOLLLL! Neste instante mágico, quando os corações dos torcedores unem-se à própria bola....todos pularam, mais que isto, abraçaram-se com efusão. Esposas com esposas, amigos com amigos, Armário com Magro...foi quando este escutou um “tec”. “Não pode ser, quebrei a caneta de Alfredo!” Ainda bem que o jogo estava no final, seria necessário ir, antes que o anfitrião notasse uma mancha azul se espalhando no bolso...o vexame seria grande. Alguns iam ficar para comentar os comentários, mas ele inventou uma desculpa qualquer e subiu.

Estava satisfeito com o próprio desempenho. Convencera a todos, tanto que já ficou marcado assistirem ao próximo jogo na casa de outro amigo. Mas agora pensando bem, inventaria um boa desculpa. Estava bom demais um jogo por Copa. Era muita emoção, muito susto. Tomou um banho rápido e resolveu deitar-se um pouquinho, estava muito indisposto, o corpo parecia gemer.

_ Ai ai! – gemeu ao deitar-se - AAIIIII! - gritou.
_ O que foi, amor?
_ Não sei. Ai ai! – mão no peito.
_ Meu Deus, será que é um enfarte?
_ Deus me livre! AAAAIIIIIIIIIIIIIII! – gritou ao tentar levantar-se - Me ajude, amor! Me leve pro hospital.

Rapidamente, ou no tempo que deu, chegaram à emergência mais próxima.
_ Onde dói?
_ Aqui doutor.
_ Aqui?
_ AAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!
_ Raio X.

O atendimento durou apenas o tempo de um intervalo. Em meia hora estavam em casa com o prognóstico e a desculpa que ele precisava: repouso. Motivo? Duas costelas quebradas.

Este vai para todas as pessoas que não gostam de futebol, como meu amigo "Magro" e pras que gostam também, como Dimas Lins - tão tricolor que criou o blog Torcedor Coral, antes mesmo do Estradar. Ou seja, dois legítimos representantes do que faz uma bola na vida do sujeito.

Magna Santos

*Qualquer semelhança com esta história, não é mera coincidência. Ela é baseada em fatos reais, com exceção dos nomes dos personagens, onde dei uma tapeadinha.

domingo, 6 de junho de 2010

A BÊNÇÃO, RECIFE

Imagens de suas pontes correm o mundo. De Veneza Brasileira foi batizada, mas o que não se sabe é quantos caminhos existem em Recife. Aconchego dos poetas, que repousam nas suas praças, se embriagam com sua beleza, encostam-se nos baobás em plena tarde para acordarem por algum guarda desavisado, à procura de manter a ordem pública.

Sim, Recife, tuas alas, tuas ruas que tantos já andaram, que pousaram os pés de Manuel Bandeira, de Antônio Maria, que agitam tantos outros no vai e vem do frevo, ou do "frevo" do cotidiano, do frenesi do teu trânsito que nos tira o sossego.

Perdemos as horas encontrando caminhos mais curtos e esquecemos da Avenida Caxangá, cortando bairros, da Avenida Norte, atravessando a sorte, rebatizada com um segundo nome para lembrar mais um cearense que te adotou. Lembramos apenas do Coque das páginas policiais, esquecendo que a história, há tempos, toma outro rumo nas mãos dos meninos que folheiam as páginas dos livros da Biblioteca Popular do Coque ou, simplesmente, afinam os ouvidos, escutanto histórias carinhosamente contadas por bocas abençoadas.

Sim, Recife, nos acostumamos com tua agonia e com tuas surpresas, constantemente nos fazendo olhar para o céu em plena segunda-feira. Bênçãos, Recife, para teus habitantes que são privilegiados com tuas árvores centenárias a fazerem túneis por tuas ruas. Bênçãos, Recife, tu jorras em forma de pontes, como a lembrar que não precisamos de muros. Bênçãos, Recife, nas encostas dos teus morros que desassossegados esperam o inverno e tuas chuvas calamitosas. Dignidade, Recife, para teus filhos pequeninos que estacionam nos sinais à espera do que eles nem sabem ainda, mas, certamente, suas mães - nas calçadas - têm certeza. Quanta dor, Recife, ao mirarmos olhos tão tristes, por já pedirem! Misericórdia, Recife, para que as balas se percam para sempre no espaço de ninguém, sem atingir ninguém, sem fazer sofrer mães, pais, famílias inteiras.

Ah, bênçãos, bênçãos...bênçãos é também poder andar por ruas que carregam palavras benfazejas: amizade, harmonia, aurora, concórdia...bairros que nos desejam: boa viagem, boa vista.

Sim, Recife, teus problemas não são apenas teus. Infelizmente, tens muitas outras companheiras espalhadas neste país, capitais que carregam infelicidades, mas tuas virtudes são singulares e sentidas por quem te vive como os teus rios. A água passa, o tempo passa, mas sempre terá uma ponte para atravessar, para ligar, unir...és ponte, Recife!

Magna Santos

segunda-feira, 31 de maio de 2010

POR QUE, CEARÁ?

Por que sempre me vejo menina nos teus braços, quando tantos anos já me correram? Por que sinto tantas saudades mesmo contigo?

Por que tuas terras correm nas minhas veias igual a sangue?

Por que me emociono quando passo naquele limite que chamam de divisa, mesmo amando também teu vizinho?

Por que reconheço cada pedra e elas gostam de brincar na minha mão?

Por que tenho tantas saudades de gente que nem conheci, só por ouvir falar?

Por que teu céu tem tantas estrelas e a lua sempre incandescente?

Por que voltar também é bom?

Por que adormeci naquela rede mesmo com tanta coisa pra conversar?

Há quanto tempo o Araripe existe em ti?

Por que sinto saudade do banho de chuva, quando sapateava nas poças e buscava sempre a melhor bica para me molhar?

Por que teus filhos pequenos sempre têm olhos curiosos e sorrisos latentes, quando não escancarados?


Por que tuas crias todas não podem igualmente desfrutar do teu solo?


Magna Santos

segunda-feira, 24 de maio de 2010

SEM NOÇÃO

Chegou numa manhã, quando eu ainda cochilava. Chamou-me de preguiçosa e emendou com outras tantas palavras que meus ouvidos sonolentos registravam a conta gotas: "você não tem noção...não sabe do seu tamanho...eu não faço nada".

Palavras escritas de próprio punho e lidas com uma emoção disfarçada. Seus 14 anos engrossaram a voz, eu não abaixo mais os olhos para olhar os seus, mas ele ainda cabe no meu colo e sempre caberá, por mais que cresça.

Uma chacoalhada nos neurônios me fez assimilar direito o que ele dizia, dirigido a mim, mas também à avó: "vocês não têm noção do tamanho do meu amor por vocês...fazem tanto por mim e eu não faço nada...que continuem me ensinando o caminho certo". Encerrava sua declaração em pleno dia das mães. E ele ainda pensa que não faz nada.

Hoje, depois de alguns dias, o vejo animado me contando a última descoberta. Seus olhos têm o brilho particular da alegria. Vibro com este espaço que nos envolve, o qual foi construído ao longo dos anos à medida em que brincávamos de qualquer coisa, que o colocava para dormir, que o buscava na escola, que assistíamos a diferentes filmes, que a conversa rolava solta, enfim, cotidianos, graças a Deus, não desperdiçados. Gosto de saber que ele conta comigo, antes mesmo de me perguntar qualquer coisa; a pergunta é apenas necessária para o agendamento, mas o "saber que pode contar" já é certeza e isto é uma bênção para qualquer ser humano.

Assim, que venham os dias. Como ele disse, talvez eu não tenha mesmo noção e ele também não. Mas, no meu caso, é bom não tê-la para não me achar melhor do que sou e também para me surpreender, quando acordar de uma cochilada.


Magna Santos

domingo, 16 de maio de 2010

CRIAS

As minhas crias
Gostam de vir à noite

Sorrateiras
Espicham-se na cama
Me acordam dos sonhos
Me embalando em outros bem melhores

Os meus rebentos
Não os conheço
Às vezes, os pressinto
Quase sempre os escrevo

Nascem à noite
De madrugada
Na escuridão
E sempre um clarão vem me visitar
Quando estou com eles

As minhas ramas
Nascem da intuição
E uma certeza me dá
Não as escrevo
Com apenas duas mãos

...

Se tivesse uma assinatura
Escrevendo vários
Seria eu
Se tivesse uma identidade
Mantendo todos
Seria a minha

Mas só tenho eu
De vaidosa
Só tem a mim...

A outra mão...
Incógnita
Silente
Discreta
Presente


Magna Santos

sexta-feira, 7 de maio de 2010

SEM DIQUES

Quando somos crianças, uma enxurrada de coisas novas nos chegam às mãos, ao nariz, aos olhos, ouvidos, tudo. Conhecer o mundo é algo que assombra, que encanta, exclama, embeleza e também interroga. O coração não dá nome aos sentimentos. Temos que aprendê-los todos. Alegria é quando dá vontade de pular, tristeza, quando dá vontade de chorar encolhida, vontade é algo que nos coça o coração, amor é quando não cabemos em nós, saudade é "quando o amor fica". E por aí vai.

Hoje tive um dia assim...gostaria de um adulto para me orientar o coração. Ele está aos pulos, chorando, sem caber em si e também está em outro lugar que não no meu peito. Foram viajar e levaram-no junto. Empacotaram-no com uma rapidez que nem deu tempo de chorar. Fiquei olhando aquilo ainda na esperança de que mudassem de ideia. Nada. Não deu tempo de dizer o que queria, de chorar na despedida. Nada. Subi no elevador feito criança amuada, quando não lhe atendem os sentimentos. As lágrimas desciam teimosas e ainda agora saem dos olhos, quando lembro. Ao mesmo tempo, uma gratidão invade o coração que não consegue se decidir no que sentir. Ora alegre, ora saudoso, ora tudo.

A voz no telefone me conforta:
_ Magninha, infeliz daquele que não tem saudade!
_ Mas precisa ser tão urgente? Acabaram de ir...

E a voz continua tranquila, sem pressa, sem susto, sem angústia. Algumas palavras a mais e uma linda notícia me enche de esperança e felicidade, concluindo tudo o que sentia, sem desconfiar. Estou diante da plenitude e sua voz. Sim, é isto mesmo: plenitude.

_ Mas não precisa chorar. Vai chorar é, Magninha?

Então, lembro de que as lágrimas são feitas de mar. E não posso ficar sem expô-las, sem derramá-las. Não tenho diques. Não posso represá-las. Elas se derramam abundantes de felicidade. E talvez agora eu possa responder àquela voz com mais clareza:

Eu não choro porque preciso, choro porque não caibo.
Choro porque chorando
Me derramo
Choro porque a vida é muito boa
Os amigos são muito bons
Deus é Pai

Choro porque a esperança logra sempre o que anuncia
A intuição, o que insinua

Choro porque os corações são pontes
Que se esticam na medida da distância
Choro porque o relógio pode ser cruel em alguns momentos
Mas ele sempre passa
Passa sempre o tempo
Passam três meses, quatro, seis
Com cheiro de menino ou menina?
Choro
Porque nove meses é um tempo bom
Para se ver um filho.

Para meus amados que me deixaram mal acostumada nestes dias.
Para minha amiga que, como boa aluada, anda virando lua cheia de tanta felicidade e vai comemorar o seu primeiro dia das mães no próximo domingo.

Magna Santos

terça-feira, 4 de maio de 2010

HOJE

Hoje amanheci fresca como a chuva da minha infância
Desarrumei as gavetas, destrocei a cama
Esperei o sol nascer para lhe perguntar onde estava quando eu dormia

Hoje percebi que tenho 35 anos
36 ano que vem
Muita coisa pra fazer
Nenhum filho pra cuidar
Muitas crianças pra olhar...que não são minhas
Ao menos se ele se chamasse Pedro
Ao menos se ela se chamasse Clara
Ao menos se minha barriga mexesse
Ao menos hoje

Amanhã talvez não chegue como eu esperava
Ou chegará
Só saberei de hoje

Os idosos me esperam como a uma mãe
As crianças me aguardam como a uma tia
E eu vivo entre o esperar e o fazer
Só hoje
Pois é o tempo que tenho

O Ceará pode esperar por amanhã
Pernambuco não.
O jasmim plantado por minha vó me perfuma de lá
O gosto de pequi sobrevive mesmo nos tempos de seca

Calmo paraíso aquele que existe
Entre a minha rede e o meu coração.


Escrito em 2005.
Magna Santos