domingo, 13 de março de 2011

O DEVORADOR DE POESIA

Sua mãe nutria ouvidos
Mãos
Sentidos
Coração...

Seu pai caminhava
Junto a ele
...

Ver os poetas
Rever alguns
Dos muitos livros
Degustados na boa praça
Na simplicidade da vida

Pirulitou o primeiro
Há tempos
Desembalou em confeitos
Há muito

Nutrição enriquecida:
Pessoa
Quintana
Gullar
Patativa
Drummond
Tantos outros...
Pareciam guiá-lo
No apetite
E na vida

Hoje não sofre gastrite
Nem estomatite
Muito menos indigestão
Devora-os todos
Mas sempre os oferece
Belos
Profundos
Benfazejos
Como todos eles são
Os poetas

Aprendeu a comer com os olhos
A oferecê-los com dedos
E boca

Ao seu redor
Sempre um banquete
Ao seu lado
Sempre um garfo
Uma faca
Afiada
Como toda poesia é.


Para o generoso amigo Arsênio Meira Júnior.

Magna Santos

sexta-feira, 11 de março de 2011

CINZAS

As cinzas se espalharam pela via
Entre coros e desvarios
Ficou a retidão da passarela
Agora rua

Passos curtos voltam a trafegar
Largos
Estreitos
Apressados
Sonolentos
Tantos
Mais

Voltou a realidade
Voltou a praça
A banda a passar
Sem fantasias
Só alegorias
A imaginar


Magna Santos

quarta-feira, 9 de março de 2011

LACRIMEJANDO

Os cílios longos sempre me livraram de conjuntivites. Nunca soube o que era isso, mas eis que um vírus desbravador, igual aos antigos bandeirantes, me dá o ar da graça e também a oportunidade dos olhos avermelhados, inchados e lacrimejantes. Aliás, do olho, por ora está só no esquerdo, graças a Deus.

Acordar com o olho em lágrimas me lembrou quando eu chorava por apenas um...mas isto é outra história. Bom mesmo foi ver, estes dias, borboletas aos montes, rever gente querida e pensar que há muitas folias que não podemos imaginar, mas sustentar com nossas mentes ferozes e vorazes por bons sonhos.

Acordei com um olho doente, é certo, porém o outro continua são. O que me faz pensar que, enquanto tenho aos pares, acumulo vantagens. Assim, melhor cuidar de colocá-los pra dormir nesta noite que acelera as horas. Daqui a pouquinho uma menina completará uma data também par: 12 anos e nada pagará participar da sua alegria e animação por estar crescendo em busca dos sonhos germinados também aos pares, numa progressão geométrica espetacular.

Os dias, amigos, têm se fartado de mim. As letras têm adormecido sorrateiras nos meus dedos, mas a vida, embora não escrita, tem se deixado viver e me empurrado pra ela, mesmo que às vezes eu tente fazê-la dormir...não tem jeito, ela sempre dá um jeitinho de me acordar, mesmo que com o olho vermelho.


Magna Santos

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

NA GARUPA*


Quatro filhos, sete netos, um bisneto a caminho. Estes são os frutos de 74 anos de vida e muitas pedaladas para manter o sustento da família. No percurso para a cidade, vai lembrando de quantas vezes já o fez. Sabia de cada curva do caminho, cada pedregulho, ladeira, cercas que íam mudando à medida que ía avançando e ultrapassando as propriedades. Aprendeu logo cedo a distinguir a condição do proprietário pelas cercas dos terrenos. As de pau-a-pique falavam de um tempo antigo, da época de criança, mas ainda resistentes entre os mais pobres. O arame não tardou a aparecer e, mesmo liso ou farpado, exibia a necessidade de preservar as riquezas dos donos.

Olhos pequenos espiavam de longe os vastos terrenos que a vida não lhe dera. Também não podia reclamar, saúde não lhe faltava para plantar em terras alheias, sustentando a família inteira.


Os meninos foram crescendo e tomando rumo próprio, mas nenhum tinha sua disposição. Alguns, lastimando a sorte, arriscaram a travessia da estrada em busca de melhores dias, travessia há tempos feita por ele. Amarga experiência lhe trouxe de volta sem um tostão e muitas mazelas. Acabou perdendo o pouco que pensava ter, mas "valeu a experiência", era o que sempre dizia.


De todos os anos vividos, o melhor era aquele: Rosinha finalmente voltara pra casa. Seu xodó, seu tesouro! Talvez porque perdesse as contas de quantas vezes acompanhou a mulher nas rezas para salvar a filha que havia nascido "doentinha" - como todos diziam, talvez porque era a única "filha mulher" ou talvez mesmo porque vê-la fugir de casa com um sujeito sem rumo lhe partiu o coração de pai. Assim, depois de sua fuga, criou um rosário próprio, uma jura, uma promessa antecipada pela volta de Rosinha e em todos os aniversários da filha, ía à igreja agradecer a Deus pela filha e pedir pela sua volta.
Quantas vezes voltou tarde da noite, porque sentia-se meio desalentado, perdido, sem direção por saber que sua casa ainda estava sem ela...

Hoje não. Sobrava-lhe uma imensa gratidão e, como uma espécie de reverência, encostou a bicicleta ao pé da porta e sentou-se na garupa, na tentativa de dizer a Deus que agora sabe...agora sabe que nunca esteve sem direção. Agora sabe que sempre fora guiado.



Magna Santos


*A publicação da foto foi previamente autorizada pelo fotógrafo Pachelly Jamacaru, cujo talento já me forneceu muitas oportunidades de viajar pelas palavras e criar histórias como esta.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

MARGARIDAS*

"Somos origem, filhos dessa terra. Então ninguém pode me perguntar: até que ano você morou aqui? Somos filhos dessa terra! Eu não vou perdoar nunca os branco por ter colocado, partido nosso coração, nosso território, porque quando nós tava isolado na mata, se nós morria era de velhice, quando não era mordida de cobra. Hoje nosso pajé, nós não temos mais. Se tivesse nosso pajé, taria hoje, agora, no momento dizendo pra mim: teu filho tá em tal canto. E como nós não temo, nós tamo passando por uma dificuldade" (Margarida Tenharim).

Com nome de flor, a índia desabafa a dor de mãe, antes do filho ser reencontrado momentos depois. Naquele instante a dor é dela, espelhando, na realidade, a dor de um povo. A aldeia procura aflita pelo moço com problemas mentais, perdido na mata. Filho que parece ser de todos. É assim que o índio parece sentir. Lá, naquela aldeia, ninguém 'ajuda' ninguém neste sentido cultural que nos faz colocar o problema "do outro" fora de nós e ganhamos o título de solidários, quando por ventura nos mobilizamos para participar da solução. Não, lá o problema é mesmo de todos e a solução também.

Assim, mesmo com os óculos imperdoáveis do homem branco, pude ver que, quando a dor é dividida(compartilhada), o afeto é multiplicado e a esperança também.

E minhas interrogações continuam a teimar insistentes, após ouvir Margarida:
Quantos séculos precisaremos para atingirmos a maior idade?
Para andarmos com nossos próprios pés?
Pensarmos com nossas cabeças?
E sentirmos
Sim
Sentirmos
Com o coração do outro?

Perdão, Margarida.


Magna Santos
* escrito a partir de reportagem de André Tal da Tv Record sobre a Transamazônica, com destaque nos efeitos na vida dos índios Tenharins (ver matéria). Também ler a ótima crônica de Inácio França no Caótico, através da qual tive conhecimento do assunto.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O CRAVO E A ROSA

O cansaço chegou no final do dia. Temo não escurecer à noite. Preciso de sono para esquecer dos problemas e dos infortúnios. Vejo a menina passar com gosto de ontem. Espera-se a mesma conta chegar, com o dinheiro gasto no bolso do paletó. Desde que o ganhei não tenho mais sossego. Apenas fui trocando de modelo ao longo dos anos, mas todos tem o mesmo cheiro e peso do primeiro: responsabilidade, pressa, suor.

Acordo 5 da manhã com jeito de quem está ao meio dia. Saio apressado em busca de algo que ainda não sei. Corro a 80 por hora e em meia estou no escritório. Devagar demais para o desassossego. Deito papéis de jornais em pilhas cada vez maiores. As notícias precisam ser separadas por ordem de importância, mas a página fúnebre me diz de alguém que rodopiou nos meus sonhos e deixei estacionada na frente de um altar de nuvem.


De repente a vejo entrar novamente, subir ao altar, sorrir e chorar ao me ver partir. Mudei de cidade, de emprego, esqueci endereços, o relógio correu, retornei à cidade, mas nada resolveu a lágrima que ficou encravada no meu olhar naquele dia. Minha filha mais velha chama-se Ana e minha mulher nem desconfia porque a chamo de Anita. Péssima forma de redenção. Agora só me resta um soluço no peito e uma página gélida entre os dedos.

O cravo não servirá mais para perdir perdão como antes, quando me atrevia a envolvê-lo com a letra da velha música infantil, como referência a apelidos que recusávamos, embora brincássemos com eles na intimidade. Sempre funcionava: ela me olhava com ternura, beijava o cravo, sorria e, às vezes, cantava na melodia da antiga canção: "a rosa não vai mais chorar".


Despertei, no final do dia, em pé sobre seu túmulo...por séculos me demorei ali e acordei de mim. Agora lá estava...com as mãos preenchidas de cravos.


Magna Santos

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

CARTA A DEUS

Não acredito que fizeste o mundo em 6 dias
Mas acredito ser uma bela história de ninar:
No final o mundo estava sempre bom
E isto é maravilhoso!
Equivale dizer que és um ótimo contador de histórias
Porque criaste todas elas

Só mesmo tu para imaginar
Só mesmo tu para entender todas as faces de um rosto

A última gota de orvalho me serviu de lágrima
Quando compreendi as asas nos pássaros

Não sei se sou bem aquilo que imaginaste
Nem tampouco o que quiseste quando me criaste
Mas sei que me permites ser como sou
E eu te agradeço
E me esforço para fazer do que sou, algo melhor
Confesso: é um trabalho bem difícil
E não saberei mesmo fazer em 6 dias
Quem sabe 6 séculos, milênios, talvez.

Ah, eu queria poder soluçar aos risos para te ter a cada segundo!

Por último, queria muito te agradecer pelos poetas
Por sempre, no final de 6 dias,
Eles me salvarem
Quando olho e vejo
Com meus olhos cegos

Que o mundo...
O mundo não está bom.



Magna Santos

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

FUTURO

Futuro é acordar
De manhãzinha
E ver as sombras

Mudando de lugar ao longo do dia


Magna Santos

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

TIJOLO POR TIJOLO

Costumamos receber emails de mensagens, emails assombrados, emails até evasivos, como somos, quando não queremos falar. Recebemos emails todo santo dia de gente à procura de um desconhecido, desaparecido, doente talvez. Recebemos emails, porque as caixas de correio, faz tempo, só servem para cobranças.

Agora, emails para dizer que está feliz, que saiu com o pai, andou a cavalo, estendeu seus olhos no horizonte e viu que a vida é boa...

Que saiu para almoçar com a família e gostou da comida e da surpresa que sentiu nas pessoas...

Email contando os planos sobre o plantio, sobre as compras na cidade e as paredes da casa nova que começa a erguer-se...


_ Em fevereiro - revela - provavelmente a casa estará coberta.

Eu de cá entendendo que muito mais está a se cobrir, a se erguer...tijolo por tijolo, telha por telha.


Como sobra, terás a paisagem do alto de tua casa, brincarás com os meninos à tardinha e pela manhã. Dormirás na rede com ela e acordarás com o menor te fazendo cócegas nos pés. Depois disso, teu maior já te esperará para contar a última descoberta, respondendo sem pestanejar de que cor sãos os olhos teus.


_ Teu afilhado não pára, está andando tudo tudo.
_ Eu sei, cumpade, eu sei - não sei como, mas sei.

E sei também que muito email desse irei receber. Emails e telefonemas, mesmo que te chamem no meio da conversa para atender o filho do morador que acabou de furar o pé no arame farpado.

Sim, doutor, eu também sei que este caminho não tem volta e mais tarde, ou mais cedo, sempre nos encontraremos, quando então descobriremos que nunca estivemos separados.


Magna Santos

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

NÓS

Soube notícias de um mundo temerário: notas de um mundo velho, passageiro, redentor, notas de um futuro que já chegou. Uma senhora é segura por uma corda, enquanto é mordida por um cachorro...latidos engolidos por uma enxurrada. Soluços estáticos ao televisor e o replay de uma cena aglomera olhos ansiosos. Notícias de um velho mundo...

Tremi ao saber e ver uma menina de quatro anos dizer com sabedoria: "o rio levou minha chupeta...levou tudo!". Chupeta que no meu interior leva o nome de "consolo". Substituindo a palavra, o sentido traz o ponto certo ao drama.

E o nó na garganta me levou a sentir-me também água, melhor, gota. Foi quando olhei o cajueiro e seus nós também me mostraram outra serventia, transformando-se em marcas nos galhos, apropriadas a um armador natural, sem o range-range que acompanha costumeiramente o balanço em qualquer alpendre.

Recordei ainda uma conversa de irmãos sobre lembranças de uma infância marcada por poucos encontros e fortes despedidas. Mais nós.

Cogitações, constatações...e a botânica parece associar a variação do número de nós ao crescimento de uma planta, não sei bem. Mas bem sei que muitas vezes somos feito elas - as plantas. Nosso desafio é transformar os nós em laços no momento certo.
...
Ou, quem sabe, aproveitar a riqueza da palavra e transformar o substantivo em pronome.


Magna Santos