quinta-feira, 17 de junho de 2010
BEM-TE-VI, JUNHO!
sexta-feira, 11 de junho de 2010
DE QUATRO EM QUATRO ANOS...*
_ Hein?!
Tentava emendar uma resposta, mas o resultado era sempre desastroso. Cultura nenhuma de futebol, interesse nenhum e sabedoria pior ainda. Não escapava das furadas, das demonstrações de que aquele mundo não lhe pertencia. E o que conversar, então, em época de Copa do Mundo? Arriscava:
_ Rapaz, encontrei o vinil do Fagner com aquelas músicas: Dois Querer, Vento Forte, lembra?
_ Hein?! Ah, tá. Sim, sim, lembro... Outro dia vi uma reportagem sobre ele. O cara é amarrado em futebol, adora uma bolinha. Só não estou lembrando agora a posição que ele joga...parece que é no ataque. Tu sabes?
Decidiu mudar o enredo, melhor, decidiu se adequar a ele. Comprou revistas de futebol, leu todas com o mesmo apetite que revisava os balancetes do prédio. Apesar da insegurança, sentia-se um pouco mais preparado.
_ Freitas, estou reunindo alguns amigos lá em casa amanhã para assistirmos ao jogo do Brasil. Quero a presença de vocês lá, ok?
_ Fechado, Alfredo! – disse com uma certa alegria, pois iria entrar de vez para o time dos torcedores.
Alfredo era seu vizinho de baixo, talvez o mais entusiasmado por futebol que já conhecera. Era o “Armário”, como muita gente o chamava, apelido ganho por causa do porte gigantesco, um verdadeiro contraste com ele: o “Magro”, como também era chamado pelos mais chegados.
Animou-se verdadeiramente, mas jurou não dar vexame. Observaria tudo, vibraria, até xingaria se fosse preciso. Chegou primeiro do que todo mundo, inclusive, do dono da casa. Alfredo atrasara no trabalho e só chegou no Hino Nacional; não quis nem trocar de roupa, ficou daquele jeito mesmo: calça e camisa sociais, com sua respectiva caneta no bolso, sapato social etc. Fazia parte da superstição não trocar de roupa, depois do time entrar em campo. Porém resignara-se, estava animadíssimo.
A esposa do Magro não acreditava no que via. “Quanta animação!” Não reparava que a animação do marido era guiada pelo anfitrião. Sentado ao lado de Armário, estava lá, esforçando-se ao máximo para tomar gosto pela bolinha. De soslaio, ele respondia a tudo, imitando o vizinho. Levantava-se com os punhos fechados, gritava, xingava o juiz, até reclamava do escanteio não marcado, um verdadeiro torcedor. Primeiro tempo, intervalo, segundo tempo e todos lá: sofrendo. “Ô Brasil pra maltratar!”, diagnosticava com muita sinceridade, afinal, ainda faltavam 45 minutos.
Por diversas vezes, o Magro teve sustos com os gritos dos mais entusiasmados e gritava também, já no reflexo.
Chegou o momento que todos esperavam e nos segundos finais do segundo tempo: GOOOOLLLL! Neste instante mágico, quando os corações dos torcedores unem-se à própria bola....todos pularam, mais que isto, abraçaram-se com efusão. Esposas com esposas, amigos com amigos, Armário com Magro...foi quando este escutou um “tec”. “Não pode ser, quebrei a caneta de Alfredo!” Ainda bem que o jogo estava no final, seria necessário ir, antes que o anfitrião notasse uma mancha azul se espalhando no bolso...o vexame seria grande. Alguns iam ficar para comentar os comentários, mas ele inventou uma desculpa qualquer e subiu.
Estava satisfeito com o próprio desempenho. Convencera a todos, tanto que já ficou marcado assistirem ao próximo jogo na casa de outro amigo. Mas agora pensando bem, inventaria um boa desculpa. Estava bom demais um jogo por Copa. Era muita emoção, muito susto. Tomou um banho rápido e resolveu deitar-se um pouquinho, estava muito indisposto, o corpo parecia gemer.
_ Ai ai! – gemeu ao deitar-se - AAIIIII! - gritou.
_ O que foi, amor?
_ Não sei. Ai ai! – mão no peito.
_ Meu Deus, será que é um enfarte?
_ Deus me livre! AAAAIIIIIIIIIIIIIII! – gritou ao tentar levantar-se - Me ajude, amor! Me leve pro hospital.
Rapidamente, ou no tempo que deu, chegaram à emergência mais próxima.
_ Onde dói?
_ Aqui doutor.
_ Aqui?
_ AAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!
_ Raio X.
O atendimento durou apenas o tempo de um intervalo. Em meia hora estavam em casa com o prognóstico e a desculpa que ele precisava: repouso. Motivo? Duas costelas quebradas.
domingo, 6 de junho de 2010
A BÊNÇÃO, RECIFE
Imagens de suas pontes correm o mundo. De Veneza Brasileira foi batizada, mas o que não se sabe é quantos caminhos existem em Recife. Aconchego dos poetas, que repousam nas suas praças, se embriagam com sua beleza, encostam-se nos baobás em plena tarde para acordarem por algum guarda desavisado, à procura de manter a ordem pública. Ah, bênçãos, bênçãos...bênçãos é também poder andar por ruas que carregam palavras benfazejas: amizade, harmonia, aurora, concórdia...bairros que nos desejam: boa viagem, boa vista.
Sim, Recife, teus problemas não são apenas teus. Infelizmente, tens muitas outras companheiras espalhadas neste país, capitais que carregam infelicidades, mas tuas virtudes são singulares e sentidas por quem te vive como os teus rios. A água passa, o tempo passa, mas sempre terá uma ponte para atravessar, para ligar, unir...és ponte, Recife!
Magna Santos
segunda-feira, 31 de maio de 2010
POR QUE, CEARÁ?
Por que tuas terras correm nas minhas veias igual a sangue?
Por que me emociono quando passo naquele limite que chamam de divisa, mesmo amando também teu vizinho?
Por que reconheço cada pedra e elas gostam de brincar na minha mão?
Por que tenho tantas saudades de gente que nem conheci, só por ouvir falar?
Por que teu céu tem tantas estrelas e a lua sempre incandescente?
Por que voltar também é bom?
Por que adormeci naquela rede mesmo com tanta coisa pra conversar?
Há quanto tempo o Araripe existe em ti?
Por que sinto saudade do banho de chuva, quando sapateava nas poças e buscava sempre a melhor bica para me molhar?
Por que teus filhos pequenos sempre têm olhos curiosos e sorrisos latentes, quando não escancarados?
Por que tuas crias todas não podem igualmente desfrutar do teu solo?
Magna Santos
segunda-feira, 24 de maio de 2010
SEM NOÇÃO
Palavras escritas de próprio punho e lidas com uma emoção disfarçada. Seus 14 anos engrossaram a voz, eu não abaixo mais os olhos para olhar os seus, mas ele ainda cabe no meu colo e sempre caberá, por mais que cresça.
Uma chacoalhada nos neurônios me fez assimilar direito o que ele dizia, dirigido a mim, mas também à avó: "vocês não têm noção do tamanho do meu amor por vocês...fazem tanto por mim e eu não faço nada...que continuem me ensinando o caminho certo". Encerrava sua declaração em pleno dia das mães. E ele ainda pensa que não faz nada.
Hoje, depois de alguns dias, o vejo animado me contando a última descoberta. Seus olhos têm o brilho particular da alegria. Vibro com este espaço que nos envolve, o qual foi construído ao longo dos anos à medida em que brincávamos de qualquer coisa, que o colocava para dormir, que o buscava na escola, que assistíamos a diferentes filmes, que a conversa rolava solta, enfim, cotidianos, graças a Deus, não desperdiçados. Gosto de saber que ele conta comigo, antes mesmo de me perguntar qualquer coisa; a pergunta é apenas necessária para o agendamento, mas o "saber que pode contar" já é certeza e isto é uma bênção para qualquer ser humano.
Assim, que venham os dias. Como ele disse, talvez eu não tenha mesmo noção e ele também não. Mas, no meu caso, é bom não tê-la para não me achar melhor do que sou e também para me surpreender, quando acordar de uma cochilada.
Magna Santos
domingo, 16 de maio de 2010
CRIAS
Gostam de vir à noite
Sorrateiras
Espicham-se na cama
Me acordam dos sonhos
Me embalando em outros bem melhores
Os meus rebentos
Não os conheço
Às vezes, os pressinto
Quase sempre os escrevo
Nascem à noite
De madrugada
Na escuridão
E sempre um clarão vem me visitar
Quando estou com eles
As minhas ramas
Nascem da intuição
E uma certeza me dá
Não as escrevo
Com apenas duas mãos
...
Se tivesse uma assinatura
Escrevendo vários
Seria eu
Se tivesse uma identidade
Mantendo todos
Seria a minha
Mas só tenho eu
De vaidosa
Só tem a mim...
A outra mão...
Incógnita
Silente
Discreta
Presente
Magna Santos
sexta-feira, 7 de maio de 2010
SEM DIQUES
Para minha amiga que, como boa aluada, anda virando lua cheia de tanta felicidade e vai comemorar o seu primeiro dia das mães no próximo domingo.
terça-feira, 4 de maio de 2010
HOJE
Desarrumei as gavetas, destrocei a cama
Esperei o sol nascer para lhe perguntar onde estava quando eu dormia
Hoje percebi que tenho 35 anos
36 ano que vem
Muita coisa pra fazer
Nenhum filho pra cuidar
Muitas crianças pra olhar...que não são minhas
Ao menos se ele se chamasse Pedro
Ao menos se ela se chamasse Clara
Ao menos se minha barriga mexesse
Ao menos hoje
Amanhã talvez não chegue como eu esperava
Ou chegará
Só saberei de hoje
Os idosos me esperam como a uma mãe
As crianças me aguardam como a uma tia
E eu vivo entre o esperar e o fazer
Só hoje
Pois é o tempo que tenho
O Ceará pode esperar por amanhã
Pernambuco não.
O jasmim plantado por minha vó me perfuma de lá
O gosto de pequi sobrevive mesmo nos tempos de seca
Calmo paraíso aquele que existe
Entre a minha rede e o meu coração.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
PARAÍSO
Foi então que percebi que o meu mundo acabava de ser recriado e que eu podia descansar sim no sétimo dia, porque tudo que havíamos feito era muito bom.
Ela dormiu abraçada às bonecas e eu...aos sonhos dela.
Magna Santos
segunda-feira, 19 de abril de 2010
TERRA A VISTA!
Nesta terra que agora vivo
Meus índios são sexta, segunda, terça, quarta e quinta-feira
Aí volto a bobina e começo tudo outra vez
Esqueci do sábado e do domingo
Na última vez que fui viajar
Arrisquei-me nas encostas da noite
E só voltei no clarão do dia
Salva pelo segunda-feira
Tenho respirado na minha ilha
Com pulmões astrais
O ar às vezes é denso demais
Pasmo
Engasgo
Passo mal
É então que me lembro do jasmim
E respiro normal outra vez
Jasmim perfumado
De mãos perfumadas, antigas...
Espalhou-se por minha terra inteira
Por isto te grito, Crusoé:
_ Terra a vista!
Magna Santos
Para Halano, que me favoreceu esta inspiração e tem uma teoria própria sobre os "feiras" da semana, cuja sabedoria tentei copiar aqui. Obrigada, meu irmão.