Magna Santos
quarta-feira, 28 de julho de 2010
DOCKSIDE
Nem todo adolescente tem chiliques, rebeldias, exigências materiais. Os sonhos são comuns, desejos, anseios, perguntas mil. E eu, na época, apenas queria um dockside. Não era bem "apenas". Desejava muitas coisas, mas me via constantemente estacionando os olhos nos pés de uma das amigas e ficava lá imaginando como deveria ser confortável. O desconto do colégio, conseguido graças ao bom desempenho escolar, era fundamental para me deixar naquela escola, como também para me colocar os pés no chão, sem dockside mesmo, estava ótimo! O meu sapato era maravilhoso para correr até o ponto do ônibus. Pra que outro?
Pois bem, nesta altura da vida, sem ter que responder a tantos "pra quês", ontem adquiri o meu dockside. O vendedor riu com certo desdém, quando confessei ser meu sonho de adolescente. Eu nem sabia que ainda existia. O sonho não, o dockside. E como sonho só vale se for colorido, calcei algo assim vermelho e rosa e saí por aí. As sapatilhas usadas guardei na mesma embalagem do meu sonho e os coloquei nos pés. Foi quando percebi que quando calçamos mesmo os nossos sonhos, andamos seguramente mais confortáveis e, sem dúvida, é inevitável pular de alegria.
Magna Santos
Magna Santos
quarta-feira, 21 de julho de 2010
O LOUCO EMPOEIRADO
Costumava ler Gibran* como quem lê gibi, por diversão, até o dia em que parou no Louco. Viu-se nas ruas como o personagem a gritar e encontrar o sol sob os olhares perplexos da multidão. Viu-se como em uma miragem. Assustou-se! Jamais poderia dar-se ao inusitado, era contido demais, previsível demais. Nunca mais leu um livro sequer do poeta, nem O Profeta foi capaz de seduzi-lo. Nada.
Detestava surpresas e naquele dia, algo o angustiava. Os colegas de trabalho haviam prometido comemoração no seu aniversário. Logo ele que não era chegado a festas?! Deus do céu, nunca teve tanta vontade de faltar ao trabalho como naquele dia. Maldito aniversário que chegou. Poderia ter demorado um pouco mais. Pelo menos até se ambientar melhor no trabalho ao ponto de recusar qualquer convite sem perigo de ser classificado como esnobe. Agora estava sem saída. Teria de aceitar toda graça, qualquer cumprimento e festividade. Este era o preço por ter apenas 28 anos, estar numa terra estranha e vir ocupar a vaga cobiçada de alguém bem quisto.
O elevador demorava horrores, finalmente chegando para umas dez pessoas entrarem. Último andar não é brincadeira, demora outra eternidade. Passa pelo corredor numa rapidez invejável a qualquer esportista. Chega finalmente à sala, senta, suspira, fecha os olhos, antes de abri-los assustados com a primeira batida na porta. Outro suspiro, era apenas a servente que havia atrasado a limpeza diária. "Esse dia demorará a passar", pensa. Cuidou logo de pensar uma desculpa para o almoço. E para noite? Não terá como escapar, todos já sabem que ele vai direto para casa, não conhece ninguém ainda na cidade. Ele, que costumava ter uma resposta pronta nos momentos mais delicados da empresa, enrolava-se numa situação tão simples. É um homem precoce para trabalho, ascendendo muito cedo e rápido, graças a sua competência, dinamismo e senso de oportunidade, mas era devagar demais para o restante. Todos sabem de muita coisa sobre ele, desde que sua avó, em uma das viagens, resolveu aparecer de surpresa na empresa e conhecer, por conta própria, todos os seus colegas. Que vexame! Todos riram gostosamente com as histórias da velhinha moderna, enquanto ele disfarçava um sorriso amarelo com mil motivos para a avó se ausentar rapidamente.
Enquanto se perdia nas lembranças, o tempo passava. Já estava acostumado a fazer mil coisas ao mesmo tempo, sempre foi assim. Sua mãe não entendia como ele conseguia e o motivo disto, afinal, tudo sempre foi tão calmo, tão parado na sua casa. O tempo era abundante, mas o menino desde cedo estava lá, querendo ser centenas de gentes, revirando outros tantos para fazer do dia um dia produtivo.
Enfim, as horas foram passando, as pessoas entrando e saindo para resolver também mil problemas, expor outras tantas situações. Era um dia realmente daqueles. O almoço foi reduzido a um cafezinho e sem companhia. Aliás, que companhia? Nenhuma recordação, nenhum sussuro sobre a data, nada. Nenhum telefonema, nenhum email. Absolutamente nada. Cadê a comemoração prometida? Cadê os parabéns pra você? Cadê o dia? Acabou. O céu se pintou daquele rosa peculiar ao pôr do sol, mas, olhos fixos, observava apenas a pilha de papéis sobre a mesa. Voltou sozinho para casa, sem gritos, sem sussuros, sem velas, sem.
E o Louco empoeirado, esquecido na antiga estante.
Detestava surpresas e naquele dia, algo o angustiava. Os colegas de trabalho haviam prometido comemoração no seu aniversário. Logo ele que não era chegado a festas?! Deus do céu, nunca teve tanta vontade de faltar ao trabalho como naquele dia. Maldito aniversário que chegou. Poderia ter demorado um pouco mais. Pelo menos até se ambientar melhor no trabalho ao ponto de recusar qualquer convite sem perigo de ser classificado como esnobe. Agora estava sem saída. Teria de aceitar toda graça, qualquer cumprimento e festividade. Este era o preço por ter apenas 28 anos, estar numa terra estranha e vir ocupar a vaga cobiçada de alguém bem quisto.
O elevador demorava horrores, finalmente chegando para umas dez pessoas entrarem. Último andar não é brincadeira, demora outra eternidade. Passa pelo corredor numa rapidez invejável a qualquer esportista. Chega finalmente à sala, senta, suspira, fecha os olhos, antes de abri-los assustados com a primeira batida na porta. Outro suspiro, era apenas a servente que havia atrasado a limpeza diária. "Esse dia demorará a passar", pensa. Cuidou logo de pensar uma desculpa para o almoço. E para noite? Não terá como escapar, todos já sabem que ele vai direto para casa, não conhece ninguém ainda na cidade. Ele, que costumava ter uma resposta pronta nos momentos mais delicados da empresa, enrolava-se numa situação tão simples. É um homem precoce para trabalho, ascendendo muito cedo e rápido, graças a sua competência, dinamismo e senso de oportunidade, mas era devagar demais para o restante. Todos sabem de muita coisa sobre ele, desde que sua avó, em uma das viagens, resolveu aparecer de surpresa na empresa e conhecer, por conta própria, todos os seus colegas. Que vexame! Todos riram gostosamente com as histórias da velhinha moderna, enquanto ele disfarçava um sorriso amarelo com mil motivos para a avó se ausentar rapidamente.
Enquanto se perdia nas lembranças, o tempo passava. Já estava acostumado a fazer mil coisas ao mesmo tempo, sempre foi assim. Sua mãe não entendia como ele conseguia e o motivo disto, afinal, tudo sempre foi tão calmo, tão parado na sua casa. O tempo era abundante, mas o menino desde cedo estava lá, querendo ser centenas de gentes, revirando outros tantos para fazer do dia um dia produtivo.
Enfim, as horas foram passando, as pessoas entrando e saindo para resolver também mil problemas, expor outras tantas situações. Era um dia realmente daqueles. O almoço foi reduzido a um cafezinho e sem companhia. Aliás, que companhia? Nenhuma recordação, nenhum sussuro sobre a data, nada. Nenhum telefonema, nenhum email. Absolutamente nada. Cadê a comemoração prometida? Cadê os parabéns pra você? Cadê o dia? Acabou. O céu se pintou daquele rosa peculiar ao pôr do sol, mas, olhos fixos, observava apenas a pilha de papéis sobre a mesa. Voltou sozinho para casa, sem gritos, sem sussuros, sem velas, sem.
E o Louco empoeirado, esquecido na antiga estante.
Magna Santos
*Gibran foi veículo de muitas preciosidades. Parece ter vivido o que escreveu ou, seria o contrário, escreveu o que viveu. O fato é que por causa do seu compromisso, chegou a se prejudicar para não ser incoerente, conforme livro de sua amiga Bárbara Young(Gibran, esse homem do Líbano). Fica aqui um link para quem ainda não o conhece e tem curiosidade.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
PESADELO
Silêncio
Eles dormem
Todos dormem
A escuridão lá fora...
Rodas em movimento
Postes se acendem
Mostrando o caminho
Esquinas e mais esquinas
Vazias de gente
O pesadelo espreita aqueles que roncam
Assustam-se com eles
Eles se assustam
Silêncio!
Preciso de sono
Ou de um carro
Para chegar a algum lugar
Para me deter em algum canto
Magna Santos
Eles dormem
Todos dormem
A escuridão lá fora...
Rodas em movimento
Postes se acendem
Mostrando o caminho
Esquinas e mais esquinas
Vazias de gente
Assustam-se com eles
Eles se assustam
Esquecidos
Ficam no sono
Como se não sonhassem
Como se desaparecessem
Ao dormirem
Preciso de sono
Ou de um carro
Para chegar a algum lugar
Para me deter em algum canto
Magna Santos
terça-feira, 13 de julho de 2010
DESPERTA-DOR
As águas me levaram junto com as telhas, portas, janelas, paredes da minha casa. Nem parece que passei anos para construir o que tenho, tinha. Restou o despertador maluco a me avisar da hora veloz. Acabou tudo num instante, o instante do aperreio, do desespero, das crianças desamparadas, perdidas, dos velhos sem resistência para nadar, para subir nos lugares mais altos. Uma avalanche de água inundou nosso mundo. Falam que a tv mostrou tudo. Duvido. Não havia ninguém aqui, além de nós. Pensei em falar, mas novamente o despertador tocou na hora do choro, fazendo-me lembrar do muito por fazer. Por onde começar? Como?
Minha mulher já não tem o mesmo olhar de antes, minha filha descoberta chora, quando acorda em meio a cacos e adormece ainda procurando a boneca Soninha, levada pela enxurrada. À noite, a escuridão é pior, o frio também. Velas chegam nos caminhões. Escrevem-se neles 'rapidão cometa' para nos acalmar.
Entre lama e pedras, restos de tudo. Sobrou nosso olhar, nosso silêncio.
Vítimas se avolumam em abrigos improvisados. Pernambuco e Alagoas sofrem com a destruição nas últimas enchentes. Quem tem a oportunidade de passar pelas cidades sofridas, fala que os jornais não são capazes de transmitir a dor das pessoas. Olhos perdidos é o que mais se vê. Fica aqui os acessos à Defesa Civil de Pernambuco e mais sobre Alagoas. Neles há muita informação, inclusive, as contas bancárias para doações seguras, no caso dos que estão distantes.
Magna Santos
Minha mulher já não tem o mesmo olhar de antes, minha filha descoberta chora, quando acorda em meio a cacos e adormece ainda procurando a boneca Soninha, levada pela enxurrada. À noite, a escuridão é pior, o frio também. Velas chegam nos caminhões. Escrevem-se neles 'rapidão cometa' para nos acalmar.
Entre lama e pedras, restos de tudo. Sobrou nosso olhar, nosso silêncio.
Vítimas se avolumam em abrigos improvisados. Pernambuco e Alagoas sofrem com a destruição nas últimas enchentes. Quem tem a oportunidade de passar pelas cidades sofridas, fala que os jornais não são capazes de transmitir a dor das pessoas. Olhos perdidos é o que mais se vê. Fica aqui os acessos à Defesa Civil de Pernambuco e mais sobre Alagoas. Neles há muita informação, inclusive, as contas bancárias para doações seguras, no caso dos que estão distantes.
Magna Santos
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quinta-feira, 8 de julho de 2010
LUDOVICO
Esqueceram a cacimba no lugarMudaram as cercas
Cavaram a estrada de sulcos compridos
Estreitaram
Colocaram tijolos na casa de taipa
O olho d'água chorou
Distribuíram meninos em casas distintas
Quebraram a porteira
Plantaram flamboyant
O jasmim continua lá
A cozinha abriu-se em outra porta
Fecharam a janela
Aumentaram o alpendre
Nasceram mais meninos
A luz chegou
O candeeiro apagou
As estrelas diminuíram
As velhas rezadeiras também
O jasmim continua lá
Alguns pés já não marcam o terreiro
Outros tantos já nasceram
Outros seguiram
Cresceram
Cavaram a estrada de sulcos compridos
Estreitaram
Colocaram tijolos na casa de taipa
O olho d'água chorou
Distribuíram meninos em casas distintas
Quebraram a porteira
Plantaram flamboyant
O jasmim continua lá
A cozinha abriu-se em outra porta
Fecharam a janela
Aumentaram o alpendre
Nasceram mais meninos
A luz chegou
O candeeiro apagou
As estrelas diminuíram
As velhas rezadeiras também
O jasmim continua lá
Alguns pés já não marcam o terreiro
Outros tantos já nasceram
Outros seguiram
Cresceram
E o jasmim continua lá
Continua como continua
As ripas da casa
Como continua a mesma pisada
De quem não vive sem um aperto de mão
Um abraço
Um aceno
Um choro entalado na garganta na hora da despedida.
Magna Santos
segunda-feira, 5 de julho de 2010
MUDA DE UM PÉ DE SERRA
Após retornar de viagem, mais uma muda me chegou, primeiro lida ao telefone, para depois me vir às mãos. A voz quase entalou ao escutá-la, mas era também aniversário do autor e urgia eu terminar os parabéns para depois pensar no choro. Mais uma vez, arrisco-me a publicá-la sem autorização, pois tenho aprendido que emoção boa deve ser compartilhada. Aqui está, então, um dos acontecimentos que muita felicidade me deu nos útimos dias: a comemoração dos setenta anos de minha mãe, cuja oportunidade reforçou a gratidão pelo meu avô(meu avohai) - velho lunduzento muito amado, pela minha avó - mão amorosa, cuja semente cheira a jasmim - enfim, por todos os seus rebentos.
A emoção foi tamanha que me calou os dedos, daí tomar emprestado os do meu irmão (dizem que é primo) para explicar meu silêncio. Como ele já me disse que Sementeiras é também minha sala de visita, tomo esta liberdade. Obrigada, cumpade. Talvez, nos próximos dias, eu publique algumas linhas que saíram a pulso sobre o Ludovico - meu pé de serra mais caro.
PRESENTE DE ANIVERSÁRIO
Festa de aniversario era confraternização, era uma celebração pelos frutos de uma semente saída da violência da Aurora, desbravou a Amazônia e os seus seringais, desceu rio abaixo numa canoa e descansou num chalé às margens do rio salgado, terminando por se firmar no solo fértil da antiga ilha dos macacos, que em homenagem a um aristocrata passou a ser Ludovico.
Festa, reunião de gente que se gosta, mesmo que às vezes esqueça disso, junta com coisas como o velho jasmim-laranja - irmão também - e aqueles bancos antigos de momentos tristes e alegres, cúmplices das nossas conversas. E o alpendre velho como sempre nos abrigando, nos abraçando com as suas lembranças de todos e de tudo. Não tínhamos alguns que poderiam responder “presente”, mas acho que sorriam chorando, assim como os seus.
Eita, meu querido, meu amado velho lunduzento, nem o conheci fisicamente, mas sinto a sua herança dentro do meu peito, o amor pelos nossos. E o apreço pela sua retidão moral, indiscutível caráter, afeito ao trabalho e ao cuidado com a família. Nunca o vi com os braços cruzados para trás, temperando a garganta com a fronte franzida, nos dias de destempero, mas até tal sabor provei sem conhecê-lo, pois o trago comigo.
Os seus rebentos já passaram dos sessenta, setenta e outros dos oitenta, mas continuam sendo o Ciço Camaleâo, o Oi de Cobra Morta, a Oi de Pitomba Lambida, a Galinha Carijó, o Quebra queixo, a Maria Pimenta, o Venta de Bezerro Novo, o Zé Coquin, o Malota, todos, embora distantes, por vezes, ao aproximarem-se demonstram todo amor que sempre os uniu, principalmente nas dificuldades. São todos crianças crescidas cercadas por suas proles.
Não tenho palavras para expressar a alegria de fazer parte desta saga, mas despertado pela iniciativa de dois brilhantes irmãos de berço e coração, sendo primos de sangue, sei da necessidade de celebrarmos sempre a nossa história, a nossa união, o nosso amor por nós mesmos. E deixarmos a carcaça da ignorância, as farpas dos conflitos e o egocentrismo de lado. É tempo de oxigenar as relações desses rebentos, para que possam envelhecer com o mesmo sentimento que cresceram.
Festa, reunião de gente que se gosta, mesmo que às vezes esqueça disso, junta com coisas como o velho jasmim-laranja - irmão também - e aqueles bancos antigos de momentos tristes e alegres, cúmplices das nossas conversas. E o alpendre velho como sempre nos abrigando, nos abraçando com as suas lembranças de todos e de tudo. Não tínhamos alguns que poderiam responder “presente”, mas acho que sorriam chorando, assim como os seus.
Eita, meu querido, meu amado velho lunduzento, nem o conheci fisicamente, mas sinto a sua herança dentro do meu peito, o amor pelos nossos. E o apreço pela sua retidão moral, indiscutível caráter, afeito ao trabalho e ao cuidado com a família. Nunca o vi com os braços cruzados para trás, temperando a garganta com a fronte franzida, nos dias de destempero, mas até tal sabor provei sem conhecê-lo, pois o trago comigo.
Os seus rebentos já passaram dos sessenta, setenta e outros dos oitenta, mas continuam sendo o Ciço Camaleâo, o Oi de Cobra Morta, a Oi de Pitomba Lambida, a Galinha Carijó, o Quebra queixo, a Maria Pimenta, o Venta de Bezerro Novo, o Zé Coquin, o Malota, todos, embora distantes, por vezes, ao aproximarem-se demonstram todo amor que sempre os uniu, principalmente nas dificuldades. São todos crianças crescidas cercadas por suas proles.
Não tenho palavras para expressar a alegria de fazer parte desta saga, mas despertado pela iniciativa de dois brilhantes irmãos de berço e coração, sendo primos de sangue, sei da necessidade de celebrarmos sempre a nossa história, a nossa união, o nosso amor por nós mesmos. E deixarmos a carcaça da ignorância, as farpas dos conflitos e o egocentrismo de lado. É tempo de oxigenar as relações desses rebentos, para que possam envelhecer com o mesmo sentimento que cresceram.
Halano
quinta-feira, 17 de junho de 2010
BEM-TE-VI, JUNHO!
Levanto os olhos e vejo o bem-te-vi solto no céu; brinca com o vento, que roça suas asas. Paira, plana e solta o gogó; com a chuva, busca abrigo. De longe, ainda escuto sua canção, outro lhe responde, depois outro e outro. Tenho uma atração por este canto e eles conversam numa intimidade que contagia...quase respondo, mas são seis horas da manhã, melhor não, os vizinhos não entenderiam. O céu rapidamente é pintado de cinza e a chuva cai esfriando o tempo. A canção continua.
Junho junho...das chuvas, do tempo molhado. De Santo Antônio, São João, São Pedro. Do pé na estrada, da mala lotada de alegria, de saudade, de vontade de estar junto, de homenagear quem merece, de escolher a roupa do batizado, de água na cabeça, de afeto renovado, de rede no alpendre, de manhã cedinho com o cacarejo das galinhas, o gado no curral, os passos no terreiro, o frio cortante que desce do Araripe para nos encolher. Junho dos tios, dos meninos de vovô, do velho de ontem que vive nas palavras dos filhos, netos, bisnetos e tataranetos.
Ah, junho! Bem-te-vi, junho!
Uma sonha em alimentar os pintos, outro em rever os primos, uma em deitar na rede e conversar até a boca secar e assim vamos vivendo até chegar. Não dispensarei acender a fogueira com ele, pena é não me esperar, tenho chegado atrasada demais nos últimos anos. Darei as voltas para queimar as mazelas do semestre e aquecer a esperança pro próximo. São João abençoará. Olharei para o pé de jasmim, lembrando de quem esteve lá. Ouvirei as mesmas histórias e as gargalhadas vão soar como da primeira vez, como ressoarão de um jeito antigo, escutando as novas lorotas. Me assombrarei com o crescimento dos meninos, com o braço quebrado de um, com a esperteza do outro, com o sorriso de sete meses de quem terá o cocoruto banhado em meus braços.
Sim, lembrarei de todos os apelidos, não esquecerei de nenhum. Os meninos de vovô chorarão por causa deles mesmos, chorararemos juntos, igual cascata. Já não posso pensar em mais nada. Trabalhar tem sido difícil, escrever, uma repetição e como sou repetitiva, meu Deus!
Enfim, nem sei de mim, dos próximos dias, das linhas que Sementeiras contará. Só sei que se as postagens atrasarem, paciência, estarei em dia com minha felicidade. Quando voltar, quem sabe, contarei. Nem sei...
Se não escrever até lá, bom São João! Que o corajoso João Batista abençoe a todos!
Magna Santos
sexta-feira, 11 de junho de 2010
DE QUATRO EM QUATRO ANOS...*
_ E aí, Freitas? Arrisca o placar de hoje?
_ Hein?!
Tentava emendar uma resposta, mas o resultado era sempre desastroso. Cultura nenhuma de futebol, interesse nenhum e sabedoria pior ainda. Não escapava das furadas, das demonstrações de que aquele mundo não lhe pertencia. E o que conversar, então, em época de Copa do Mundo? Arriscava:
_ Rapaz, encontrei o vinil do Fagner com aquelas músicas: Dois Querer, Vento Forte, lembra?
_ Hein?! Ah, tá. Sim, sim, lembro... Outro dia vi uma reportagem sobre ele. O cara é amarrado em futebol, adora uma bolinha. Só não estou lembrando agora a posição que ele joga...parece que é no ataque. Tu sabes?
_ Hein?!
Tentava emendar uma resposta, mas o resultado era sempre desastroso. Cultura nenhuma de futebol, interesse nenhum e sabedoria pior ainda. Não escapava das furadas, das demonstrações de que aquele mundo não lhe pertencia. E o que conversar, então, em época de Copa do Mundo? Arriscava:
_ Rapaz, encontrei o vinil do Fagner com aquelas músicas: Dois Querer, Vento Forte, lembra?
_ Hein?! Ah, tá. Sim, sim, lembro... Outro dia vi uma reportagem sobre ele. O cara é amarrado em futebol, adora uma bolinha. Só não estou lembrando agora a posição que ele joga...parece que é no ataque. Tu sabes?
“Deus do céu, que tormento!” – pensava. “Como vou fazer agora em plena copa do mundo?”
Decidiu mudar o enredo, melhor, decidiu se adequar a ele. Comprou revistas de futebol, leu todas com o mesmo apetite que revisava os balancetes do prédio. Apesar da insegurança, sentia-se um pouco mais preparado.
_ Freitas, estou reunindo alguns amigos lá em casa amanhã para assistirmos ao jogo do Brasil. Quero a presença de vocês lá, ok?
_ Fechado, Alfredo! – disse com uma certa alegria, pois iria entrar de vez para o time dos torcedores.
Alfredo era seu vizinho de baixo, talvez o mais entusiasmado por futebol que já conhecera. Era o “Armário”, como muita gente o chamava, apelido ganho por causa do porte gigantesco, um verdadeiro contraste com ele: o “Magro”, como também era chamado pelos mais chegados.
Animou-se verdadeiramente, mas jurou não dar vexame. Observaria tudo, vibraria, até xingaria se fosse preciso. Chegou primeiro do que todo mundo, inclusive, do dono da casa. Alfredo atrasara no trabalho e só chegou no Hino Nacional; não quis nem trocar de roupa, ficou daquele jeito mesmo: calça e camisa sociais, com sua respectiva caneta no bolso, sapato social etc. Fazia parte da superstição não trocar de roupa, depois do time entrar em campo. Porém resignara-se, estava animadíssimo.
A esposa do Magro não acreditava no que via. “Quanta animação!” Não reparava que a animação do marido era guiada pelo anfitrião. Sentado ao lado de Armário, estava lá, esforçando-se ao máximo para tomar gosto pela bolinha. De soslaio, ele respondia a tudo, imitando o vizinho. Levantava-se com os punhos fechados, gritava, xingava o juiz, até reclamava do escanteio não marcado, um verdadeiro torcedor. Primeiro tempo, intervalo, segundo tempo e todos lá: sofrendo. “Ô Brasil pra maltratar!”, diagnosticava com muita sinceridade, afinal, ainda faltavam 45 minutos.
Por diversas vezes, o Magro teve sustos com os gritos dos mais entusiasmados e gritava também, já no reflexo.
Chegou o momento que todos esperavam e nos segundos finais do segundo tempo: GOOOOLLLL! Neste instante mágico, quando os corações dos torcedores unem-se à própria bola....todos pularam, mais que isto, abraçaram-se com efusão. Esposas com esposas, amigos com amigos, Armário com Magro...foi quando este escutou um “tec”. “Não pode ser, quebrei a caneta de Alfredo!” Ainda bem que o jogo estava no final, seria necessário ir, antes que o anfitrião notasse uma mancha azul se espalhando no bolso...o vexame seria grande. Alguns iam ficar para comentar os comentários, mas ele inventou uma desculpa qualquer e subiu.
Estava satisfeito com o próprio desempenho. Convencera a todos, tanto que já ficou marcado assistirem ao próximo jogo na casa de outro amigo. Mas agora pensando bem, inventaria um boa desculpa. Estava bom demais um jogo por Copa. Era muita emoção, muito susto. Tomou um banho rápido e resolveu deitar-se um pouquinho, estava muito indisposto, o corpo parecia gemer.
_ Ai ai! – gemeu ao deitar-se - AAIIIII! - gritou.
_ O que foi, amor?
_ Não sei. Ai ai! – mão no peito.
_ Meu Deus, será que é um enfarte?
_ Deus me livre! AAAAIIIIIIIIIIIIIII! – gritou ao tentar levantar-se - Me ajude, amor! Me leve pro hospital.
Rapidamente, ou no tempo que deu, chegaram à emergência mais próxima.
_ Onde dói?
_ Aqui doutor.
_ Aqui?
_ AAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!
_ Raio X.
O atendimento durou apenas o tempo de um intervalo. Em meia hora estavam em casa com o prognóstico e a desculpa que ele precisava: repouso. Motivo? Duas costelas quebradas.
Decidiu mudar o enredo, melhor, decidiu se adequar a ele. Comprou revistas de futebol, leu todas com o mesmo apetite que revisava os balancetes do prédio. Apesar da insegurança, sentia-se um pouco mais preparado.
_ Freitas, estou reunindo alguns amigos lá em casa amanhã para assistirmos ao jogo do Brasil. Quero a presença de vocês lá, ok?
_ Fechado, Alfredo! – disse com uma certa alegria, pois iria entrar de vez para o time dos torcedores.
Alfredo era seu vizinho de baixo, talvez o mais entusiasmado por futebol que já conhecera. Era o “Armário”, como muita gente o chamava, apelido ganho por causa do porte gigantesco, um verdadeiro contraste com ele: o “Magro”, como também era chamado pelos mais chegados.
Animou-se verdadeiramente, mas jurou não dar vexame. Observaria tudo, vibraria, até xingaria se fosse preciso. Chegou primeiro do que todo mundo, inclusive, do dono da casa. Alfredo atrasara no trabalho e só chegou no Hino Nacional; não quis nem trocar de roupa, ficou daquele jeito mesmo: calça e camisa sociais, com sua respectiva caneta no bolso, sapato social etc. Fazia parte da superstição não trocar de roupa, depois do time entrar em campo. Porém resignara-se, estava animadíssimo.
A esposa do Magro não acreditava no que via. “Quanta animação!” Não reparava que a animação do marido era guiada pelo anfitrião. Sentado ao lado de Armário, estava lá, esforçando-se ao máximo para tomar gosto pela bolinha. De soslaio, ele respondia a tudo, imitando o vizinho. Levantava-se com os punhos fechados, gritava, xingava o juiz, até reclamava do escanteio não marcado, um verdadeiro torcedor. Primeiro tempo, intervalo, segundo tempo e todos lá: sofrendo. “Ô Brasil pra maltratar!”, diagnosticava com muita sinceridade, afinal, ainda faltavam 45 minutos.
Por diversas vezes, o Magro teve sustos com os gritos dos mais entusiasmados e gritava também, já no reflexo.
Chegou o momento que todos esperavam e nos segundos finais do segundo tempo: GOOOOLLLL! Neste instante mágico, quando os corações dos torcedores unem-se à própria bola....todos pularam, mais que isto, abraçaram-se com efusão. Esposas com esposas, amigos com amigos, Armário com Magro...foi quando este escutou um “tec”. “Não pode ser, quebrei a caneta de Alfredo!” Ainda bem que o jogo estava no final, seria necessário ir, antes que o anfitrião notasse uma mancha azul se espalhando no bolso...o vexame seria grande. Alguns iam ficar para comentar os comentários, mas ele inventou uma desculpa qualquer e subiu.
Estava satisfeito com o próprio desempenho. Convencera a todos, tanto que já ficou marcado assistirem ao próximo jogo na casa de outro amigo. Mas agora pensando bem, inventaria um boa desculpa. Estava bom demais um jogo por Copa. Era muita emoção, muito susto. Tomou um banho rápido e resolveu deitar-se um pouquinho, estava muito indisposto, o corpo parecia gemer.
_ Ai ai! – gemeu ao deitar-se - AAIIIII! - gritou.
_ O que foi, amor?
_ Não sei. Ai ai! – mão no peito.
_ Meu Deus, será que é um enfarte?
_ Deus me livre! AAAAIIIIIIIIIIIIIII! – gritou ao tentar levantar-se - Me ajude, amor! Me leve pro hospital.
Rapidamente, ou no tempo que deu, chegaram à emergência mais próxima.
_ Onde dói?
_ Aqui doutor.
_ Aqui?
_ AAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!
_ Raio X.
O atendimento durou apenas o tempo de um intervalo. Em meia hora estavam em casa com o prognóstico e a desculpa que ele precisava: repouso. Motivo? Duas costelas quebradas.
Este vai para todas as pessoas que não gostam de futebol, como meu amigo "Magro" e pras que gostam também, como Dimas Lins - tão tricolor que criou o blog Torcedor Coral, antes mesmo do Estradar. Ou seja, dois legítimos representantes do que faz uma bola na vida do sujeito.
Magna Santos
*Qualquer semelhança com esta história, não é mera coincidência. Ela é baseada em fatos reais, com exceção dos nomes dos personagens, onde dei uma tapeadinha.
domingo, 6 de junho de 2010
A BÊNÇÃO, RECIFE
Imagens de suas pontes correm o mundo. De Veneza Brasileira foi batizada, mas o que não se sabe é quantos caminhos existem em Recife. Aconchego dos poetas, que repousam nas suas praças, se embriagam com sua beleza, encostam-se nos baobás em plena tarde para acordarem por algum guarda desavisado, à procura de manter a ordem pública. Sim, Recife, tuas alas, tuas ruas que tantos já andaram, que pousaram os pés de Manuel Bandeira, de Antônio Maria, que agitam tantos outros no vai e vem do frevo, ou do "frevo" do cotidiano, do frenesi do teu trânsito que nos tira o sossego.
Perdemos as horas encontrando caminhos mais curtos e esquecemos da Avenida Caxangá, cortando bairros, da Avenida Norte, atravessando a sorte, rebatizada com um segundo nome para lembrar mais um cearense que te adotou. Lembramos apenas do Coque das páginas policiais, esquecendo que a história, há tempos, toma outro rumo nas mãos dos meninos que folheiam as páginas dos livros da Biblioteca Popular do Coque ou, simplesmente, afinam os ouvidos, escutanto histórias carinhosamente contadas por bocas abençoadas.
Sim, Recife, nos acostumamos com tua agonia e com tuas surpresas, constantemente nos fazendo olhar para o céu em plena segunda-feira. Bênçãos, Recife, para teus habitantes que são privilegiados com tuas árvores centenárias a fazerem túneis por tuas ruas. Bênçãos, Recife, tu jorras em forma de pontes, como a lembrar que não precisamos de muros. Bênçãos, Recife, nas encostas dos teus morros que desassossegados esperam o inverno e tuas chuvas calamitosas. Dignidade, Recife, para teus filhos pequeninos que estacionam nos sinais à espera do que eles nem sabem ainda, mas, certamente, suas mães - nas calçadas - têm certeza. Quanta dor, Recife, ao mirarmos olhos tão tristes, por já pedirem! Misericórdia, Recife, para que as balas se percam para sempre no espaço de ninguém, sem atingir ninguém, sem fazer sofrer mães, pais, famílias inteiras.
Ah, bênçãos, bênçãos...bênçãos é também poder andar por ruas que carregam palavras benfazejas: amizade, harmonia, aurora, concórdia...bairros que nos desejam: boa viagem, boa vista.
Sim, Recife, teus problemas não são apenas teus. Infelizmente, tens muitas outras companheiras espalhadas neste país, capitais que carregam infelicidades, mas tuas virtudes são singulares e sentidas por quem te vive como os teus rios. A água passa, o tempo passa, mas sempre terá uma ponte para atravessar, para ligar, unir...és ponte, Recife!
Magna Santos
segunda-feira, 31 de maio de 2010
POR QUE, CEARÁ?
Por que sempre me vejo menina nos teus braços, quando tantos anos já me correram? Por que sinto tantas saudades mesmo contigo?
Por que tuas terras correm nas minhas veias igual a sangue?
Por que me emociono quando passo naquele limite que chamam de divisa, mesmo amando também teu vizinho?
Por que reconheço cada pedra e elas gostam de brincar na minha mão?
Por que tenho tantas saudades de gente que nem conheci, só por ouvir falar?
Por que teu céu tem tantas estrelas e a lua sempre incandescente?
Por que voltar também é bom?
Por que adormeci naquela rede mesmo com tanta coisa pra conversar?
Há quanto tempo o Araripe existe em ti?
Por que sinto saudade do banho de chuva, quando sapateava nas poças e buscava sempre a melhor bica para me molhar?
Por que teus filhos pequenos sempre têm olhos curiosos e sorrisos latentes, quando não escancarados?
Por que tuas crias todas não podem igualmente desfrutar do teu solo?
Magna Santos
Por que tuas terras correm nas minhas veias igual a sangue?
Por que me emociono quando passo naquele limite que chamam de divisa, mesmo amando também teu vizinho?
Por que reconheço cada pedra e elas gostam de brincar na minha mão?
Por que tenho tantas saudades de gente que nem conheci, só por ouvir falar?
Por que teu céu tem tantas estrelas e a lua sempre incandescente?
Por que voltar também é bom?
Por que adormeci naquela rede mesmo com tanta coisa pra conversar?
Há quanto tempo o Araripe existe em ti?
Por que sinto saudade do banho de chuva, quando sapateava nas poças e buscava sempre a melhor bica para me molhar?
Por que teus filhos pequenos sempre têm olhos curiosos e sorrisos latentes, quando não escancarados?
Por que tuas crias todas não podem igualmente desfrutar do teu solo?
Magna Santos
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