quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
HÁ
Há quem se estresse
Quem alivie a própria consciência...
Há quem se limpe
Se suje
Há quem mate
Quem compre
Há quem pare
Pragueje
Há quem se arrependa
Aprenda
Há quem espere
Hesite
Há quem resista
Odeie...
E há sempre Ele...
Sempre haverá
Ensinando a não mais se esperar pelo Natal
para
Serenar
Limpar
Sujar
Criar
Seguir
Sussurrar
Agir
Ensinar
Fazer
Decidir
Obedecer
AMAR.
Feliz Natal! Que Jesus abençoe a todos!
Magna Santos
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
PASSOS
Pegadas ficaram em mim
Nada de apenas chorar
Queria-te vivo, seguindo-me os passos
Aconselhei-me com o vento
Que redemoinhou, respondendo
Levantou casas
Peito
Bolas
Foi-se embora chupeta
Carrinho
Canção
Foi-se embora
Carinho
Confeito
Algodão
Foi-se embora, pai
Restou-me tua esperança de caminhar...
Embora descalço
Embora cansado
Embora, pai
Peço-te a permissão
De calçar-me
Nos teus passos
É tudo o que tenho:
Teu querer
Meu querer
Nossos laços
E quando um dia
De novo
Te encontrar
Levarei crisântemos colhidos
No monte alto
...
Para onde subirei
Calçando teus sapatos
Para Dimas Lins
Magna Santos
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
NA BANGUELA*
_ Magninha, tu podes ir ver o Lenine no dia do meu aniversário? Quero os meus amigos comigo.
_ Claro.
Fomos lá: uma penca de amigos e o restante dos milhares sentados em suas poltronas à espera da atração da noite. O congestionamento rendeu mais de meia hora de atraso, porém as luzes foram apagadas e o palco ganhou outro charme, outra cor. Difícil explicar o que se passa no coração, quando constatamos aquele ganho inusitado, aquele estalo que diz: "meu Deus, é isso! Estou no lugar certo com as pessoas certas".
O sorriso de minha amiga valia dez shows e fiquei pensando que algumas pessoas realmente nasceram para serem pontes, fontes de união, de paz, de alegria. Isto dá uma esperança danada que renova, que trata, dá um chute de bico nas reclamações.
"Quem vai virar o jogo
E transformar a perda
Em nossa recompensa"
O pernambucano arrepiou a cearense:
"Tá relampiano
Cadê neném?
Tá vendendo drops
No sinal pra alguém"
Das faltas que me sobravam, das cobranças que me atordoavam, uma necessidade ele lembrava, quem sabe, uma sugestão:
"Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara..."
É mesmo, Lenine, muito rara. Por isto, aproveito para comunicar: eu vou é na banguela, amigos.
Magna Santos
*descer a ladeira sem engate de marcha nem força, só no embalo do vento, da descida.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
SÓ FLOR

Um dia onde as gotas de chuva pudessem inundar o quintal e ela nem percebesse a juriti procurando o ninho encharcado.
Um dia onde as contas voltassem pro remetente e este se encarregasse de quitá-las, pois o destinatário estaria num destino impensante.
Um dia onde dormisse horas a fio e quando acordasse nem lembraria de existir, simplesmente, seria.
Um dia onde as pessoas não precisassem de conselhos nem lhe procurassem para respostas.
Um dia onde vomitasse todas as dores e não lhes retornassem ao apetite.
Um dia onde escorregar no erro fosse normal...sem culpa, sem dor.
Onde as lições fossem bem-vindas e os fracassos, festejados como marcas da tentativa.
Um dia onde os sorrisos fossem fora do comum...feito bobos, loucos, pouco convencionais.
"Ah, razão que aprisiona os sentidos!"
Um só dia...
Um dia: onde, porque o quando não tem lugar para quem não pensa.
Um dia sem regras gramaticas nem ortográficas para não se obrigar a ter ideias sem acento...
Sim, um dia sem idéias.
Só flor, fruto e cor.
Magna Santos
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
À DERIVA
terça-feira, 2 de novembro de 2010
ROSAS VERMELHAS
Eles também se alegram pela luta encarnada
Restauro-me na alegria da vida
Reinventada nas ruas
Pés pulam felizes ante a festa de cores
Sim, somos adeptos da alegria
Irmã da esperança
Companheira da doçura
Entre soluços de alívio
O número dos indecisos
Dos convencidos
Do pessimismo
Vêem o jornal nacional
Nada há a dizer
Só respeito
Compreensão
E pensar mais um poema de Quintana:
'Esperança'
A todos os que acreditaram
Fica a decisão tomada
E não renunciada
O trabalho assumido...
A todos os que fizeram a cena
Uma questão a lembrar:
Somos parte da história
Daqui a séculos seremos indicados:
"Os "loucos" continuaram no poder
Festejaram bolinhas de papel
Como crianças
Pintaram de vermelho as ruas
Efeminaram a alvorada
Ostentaram rosas ao invés de punhos fechados"
Sim, fomos nós
E quem mais?
Viva o povo brasileiro!
Magna Santos
domingo, 24 de outubro de 2010
SARAU NA BIBLIOTECA POPULAR DO COQUE
A fachada da biblioteca é só cores e figuras felizes de um azul que não está longe do céu. À entrada, as poesias batem nos nossos narizes, dependuradas pelo telhado como se fossem as próprias goteiras congeladas, só que, dessa vez, sortiam de beleza o espaço todo criado pelas crianças. Muitas queriam mostrar a sua:
_ Ler esta!
_ Aquela é dela.
_ Acho linda esta.
E assim fomos respirando, respirando...
Sem fôlego, fui suspendida do chão por uma pequenina vivaz. Outro chegou por trás para ajudar a amiga. Ambos tentavam me levantar, como se, de fato, eu já não estivesse nos ares. Alegria, em forma de pulos, era necessário para também mostrar as fotos aos visitantes:
_ Olha eu ali!
_ Onde?
_ Ali, ó!
Sim, ela estava ali e ali e ali. E eu não sabia em que lugar ficar, visto que queria estar em todos.
Chegando a hora do sarau, vimos meninos se apertarem para ouvir o que os adultos nem sempre estão dispostos, mas que uma caixa de som bem que encurta o espaço, quando se quer.
Em plena rua, Zé de Guedes nos presenteou várias vezes com seus poemas visuais, sonoros e contundentes. Fez sucesso com sua simpatia, seu "urubu-rei", contagiando todos nós e sendo também surpreendido pelo acolhimento espontâneo e festivo dos pequenos. Fabiana Coelho - a menina-ponte - com seus arquivos poéticos, declamou outros tantos e os meninos...ah, os meninos...
_ Tia, tia, me dá uma poesia, tia!
Como não se emocionar com tamanho pedido? Como não pensar que o mundo, onde crianças pedem poesia só pode crescer e crescer bem? Que explodam todas as teorias pessimistas, todas as visões preconceituosas, todas as manchetes estigmatizantes. Betânia, que persevera naquela biblioteca com o coração mole e os pulsos firmes, nos informou das crianças como quem falava dos próprios filhos. Sim, filhos às vezes dão aperreio, às vezes preocupam, mas acreditá-los é fundamental. E ela acredita.
Tive a honra de "declamar" ("Fabiana, eu não sei declamar") um dos poemas com um menino esperto, de olhos atentos, de mãos apressadas e de voz inquieta. Tales e eu abraçados permanecemos enquanto perguntávamos o que era poesia aos demais. E agora vai uma resposta possível:
Poesia é ver Drummond e outros mestres repousarem em estantes da periferia
É encontrar pessoas, cuja crença num mundo melhor faz parte da prática
Poesia é sentar na calçada, escutando canções, histórias, poemas e tantas risadas
É receber um abraço e uma declaração de uma menina recém conhecida: "eu gosto de você"
Poesia é ser alçada por uma criança de 3 anos em plena biblioteca.
Sim, Ester, eu também gosto de você e meus pés ainda estão fora do chão.
Para Fabiana Coelho, Betânia e todos os meninos do Coque.
Magna Santos
domingo, 17 de outubro de 2010
CORES
Fiz deles travesseiros
Empoeirados
Escutei uma cantiga de ninar que não existia
Delírio, talvez
Acordei à tardinha
...
Ilusão
Não tenho nada mais a dizer
A não ser sobre as cores do sol poente
Novas considerações
Algumas dolorosas
Penosas
Outras viçosas...
Todas reais
Antes a realidade
Que o céu pintado a mão
Prefiro as tempestades
À bonança comprada
A peso de ouro
Prefiro a chuva fria
Ao abrigo que acorrenta.
Magna Santos
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
VAI PASSAR
Sei não...das outras vezes que arrombou minha porta, fez um estrago daqueles. Pintado de azul e amarelo, com um grande bico e a fome maior ainda, manteve-se aqui por exatos oito anos, entregando tudo o que eu tinha aos transeuntes. Vi aos poucos minha casa esvaziada. Perdi o viço e, desde esse tempo, tomei horror a ele, eu que já temor o tinha. Lutei, com todas as forças das minhas mãos pequeninas, para expulsá-lo de dentro, mas inútil. Ele entrou e tomou gosto pelo meu cantinho.
Agora está querendo voltar, após oito anos tentando me recuperar. Decerto, minha casa ainda não está como quero, falta muita coisa...mas, logo agora? Logo agora, quando minhas mãos já sabem plantar coisas melhores, já ensaiam algumas notas musicais. Logo agora que minha casa permanece mais serena, que meus vizinhos me respeitam mais. Logo agora que pensava em enfeitar o jardim... Logo agora?
Mamãe continua me dizendo: "vai passar, filha, vai passar". E aí me lembro, em flashes, de uma lenda antiga, contada na hora de dormir. Falava que, certo dia, o rei lançou um desafio: quem seria capaz de criar uma frase apropriada para ler na hora da tristeza, como também no instante da alegria? Muitos foram as tentativas de todos os plebeus, contudo a única que calou o rei foi exatamente esta: vai passar.
Assim, seja qual for o resultado dessas minhas noites aterrorizantes, seja qual for a força do monstro com suas unhas perseverantes, terei como escudo, de fato, o ninar de minha velha mãe: "vai passar". Por ora, asseguro: minhas pequenas mãos continuam tateando o trinco da porta e fechando e fechando e fechando...
Magna Santos
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
NERD
Quando se passa muito tempo no computador, a cabeça cansa, os neurônios não sossegam. Ou sossegam demais?
Quando se passa muito tempo no computador, perde-se aquela companhia, aquele programa ou aquele papo com a mãe, que sozinha assiste aos últimos capítulos da novela. Que novela?
Quando se passa muito tempo no computador, corre-se o risco de pegar vírus. Sim, a corisa chega, a moleza também. Uma gripe simples, mas chata.
Quando se passa muito tempo no computador, toda palavra é lida com um peso fora do comum, uma atenção ligeiramente digna de uma lei, uma esperança exageradamente tenaz.
Sim, quando se passa muito tempo no computador, esquece-se daquele criado-mudo que deita o livro já há alguns dias.
Quando passa muito tempo, a comida azeda, o leite corta, o rango esfria. O amor esquece. A saudade chega. A noite vem. O dia custa chegar.
Magna Santos