domingo, 25 de janeiro de 2009

CLOUSEAUS*

Coleciono alguns cartões de afeto. São de aniversário e há exatamente 20 pelos quais nutro especial carinho. Ontem li o mais recente e fiquei a me questionar sobre algumas virtudes a mim direcionadas. Com o passar dos anos, ganha-se maior capacidade de se auto-enxergar, como também, parece, uma dose maior de generosidade, ao menos é o que sinto, quando leio os amigos a me dedicar tanto afeto.

Lembro de um primeiro aniversário que comemoramos: o bolo era um repolho, a mesa enfeitada com outras coisinhas difíceis de comer no momento, inclusive, uma broa integral que nos custava termos dentes para triturá-la. E o aniversariante? Feliz demais e com cara de bobo.

Hoje estamos mais famintos e preferimos uma boa comida - comestível - para acompanhar as nossas risadas. Aliás, bom humor sempre foi nosso tempero preferido e nunca nos faltou. Nesse tempo todo podemos dizer que foram pouquíssimas vezes que o riso não compareceu, pois a vida acaba também trazendo outros temperos inusitados de difícil degustação. Porém, na grande maioria, mesmo que estejamos com o coração dividido pela tristeza, saudade ou preocupação, o riso marca presença, como um convidado que sempre comparece.

E ontem o encontro foi em um local aprazível e silencioso, de início. Um cardápio enorme a nos impedir a visão da decoração, nos fazia deixá-lo sobre a mesa. Crepes e saladas eram as alternativas. Melhor deixá-los escolher, pois sempre me enrolo, quando tenho muitas opções...coisa de quem não teve tantas antigamente. Escolhas: saladas e crepes salgados e doce para a sobremesa, conforme disseram.

Um com roupa quase indiana, outra com muita atitude para usar uma calça xadrez e uma blusa com um bordado bem humorado. A outra com a leveza habitual, trazendo duas pérolas pequeninas, uma preta outra dourada que cintilam mais do que tudo. Um a falar da briga da mãe e da tia, como a contar um causo das antigas. Risadas e compartilhamento até do reveillon, quando fatos importantíssimos aconteceram. Estamos atrasados nos acontecimentos, já não temos mais tanto tempo como antigamente, quando por horas nos pendurávamos no telefone, atualizando os assuntos do dia.

Eu teria muitas histórias a contar sobre eles, mas assuntos da vida nem sempre conseguimos escrever, apenas viver, ou talvez eu não tenha escrito, por não ter uma caneta à mão, no exato instante: dos tantos trabalhos juntos; da primeira viagem e albergue dividido; dos tantos aniversários e rituais do cartão; das tentativas de brincar carnaval, apesar do medo de multidão de uma certa pessoa; das formaturas e de todos os vexames cometidos; da partida de uma amiga, que me custou visitar no momento derradeiro; do casamento em plena manhã com a noiva sofrendo de hipoglicemia, após as fotos; das dores de amor, suportadas a ferro, fogo e de mãos dadas; das partidas dos queridos; dos projetos compartilhados e atualizados; da chegada das crianças e de suas gargalhadas às nossas bobagens; do espaço cada vez menor dos cartões, por causa da demanda do carinho e de mais mãozinhas a escrever emoções; das brigas, graças a Deus, poucas, terminadas à força do afeto e da razão; das muitas gafes cometidas e de todas as distrações que nos marcou com o apelido de clouseaus.

Sim, há mais, bem mais. E mais haverá.


Magna Santos

*Referência ao personagem Inspetor Clouseau, eternizado por Peter Sellers, no clássico 'Pantera Cor-de-Rosa'

2 comentários:

Anônimo disse...

Magninha, mulher, tu és realmente uma tradutora e tanto de nossas "clousadas". E nada como um blog para não perder de vista o que te visita a alma e pede passagem (tb em prosa e verso).
Mais uma encantadora qualidade pra admirarmos e comemorarmos como quem tem o prazer de te ter como amiga e irmã de todas as horas.
"Tinho"

Edjane disse...

Mulherzinha, como é bom ver registrado o "vivido",as histórias e jeitos de ser desses eternos "clouseaus". Só tua sensibilidade para captar e traduzir de uma forma tão linda o que é tão difícil de ser dito, por ser tão intensamente sentido...Como é maravilhoso fazer parte dessa história! Um grande beijo, minha querida irmã e amiga!
Ed