quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

DEZEMBRO E FÉRIAS

Não sei que febre tem dezembro, só sei que todo ele tem um gosto de fim e de começo, de cansaço e de descanso. Reencontros podem ser seu forte, assim como os encontros, as despedidas, as falas desconsertadas pelo que não se conseguiu durante todo o ano. Consciências pesadas também dão o mote. Na hora do balanço, às vezes se enruga a testa e vê que poderia ter sido bem melhor. Aí vem o lugar das promessas, das juras e, consequentemente, dos planos.

Fecho o ano, graças a Deus, muito bem, mas não estou livre do ônus de viver um mês intenso, por ser curto para tanta coisa. Fora o tempo que encurta, os compromissos que aumentam, os encontros que acrescentam, o cansaço que não dá trégua, sobra mesmo é uma baita vontade de relaxar, tomar banho de mar, jogar o corpo numa rede e não pensar em nada, porque cabeça de cearense é grande, mas é só uma. Assim, sem tempo nem juízo para dizer mais nada além disso, novamente venho aqui em mais um dezembro para agradecer a todos a atenção, o carinho e tantas palavras bonitas que vocês me ofertaram por todo este ano. Realmente Sementeiras só me tem feito bem, pelo bem que tenho recebido generosamente de cada um aqui. Tenho aprendido muito. Obrigada! Que Deus abençoe a todos.

Estou arrumando a mala para entrar de férias. Deus é Pai e Ele fez o mar, o cajueiro, a areia, o céu, a lua, as estrelas, o vento, o sol...como boa filha, pretendo aproveitar todas estas coisas. Balanço do que foi 2009? O único balanço será o da rede que levo comigo. Voltarei, provavelmente, ainda em janeiro.

No próximo dia 06 saibam: estarei apagando as velinhas com muita alegria, recebendo todas as ligações possíveis do meu povo todo. Agradecendo mais uma vez por mais um ano, pela entrada nos "enta" que dizem ser pavorosa, mas creio ser tudo balela ou exagero de quem não é amigo do tempo; como ele é meu parceiro literalmente de todas as horas, vou passando junto com ele, cantarolando igual passarinho. Para mim é sempre uma enorme alegria meu aniversário e uma grande honra nascer no dia de Reis Magos; Belchior, Gaspar e Baltazar foram destemidos, perseverantes e sábios...uma verdadeira inspiração para minha alma inquieta. Um dia certamente irei conseguir dar as boas vindas a Jesus com tanta determinação como eles fizeram.

Enfim, voltarei, se Deus quiser, mais velha e mais feliz. Aguardem.

Que Deus abençoe todos vocês e seus familiares com muita paz, luz, saúde, amor e fé por todo 2010!

Um grande abraço!


Magna Santos

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

UMA HISTÓRIA DE NATAL

Tenho me emocionado com algumas mensagens recebidas, sobretudo, as que falam de Jesus; para mim, único e verdadeiro revolucionário, o modificador de vidas, a coragem e sabedoria por excelência. Embora o comércio queira inverter o sentido, creio que o Natal já é um grande presente. Soube outro dia que uma socióloga atéia(não lembro o nome) falou em uma palestra que, embora não acreditasse, não tinha como negar que, se a sociedade praticasse o que disse e fez Jesus, não existiriam os problemas sociais que enfrentamos (ou construímos). Lembrando disto e da mensagem do Cristo, conto uma história que me emocionou demais nos últimos dias. Recentemente, uma grande amiga, após algumas tentativas frustradas, passou em uma seleção para mestrado. Fiquei orgulhosa dela não pela vitória, mas pela forma como ela prestou todas as etapas de seleção, pela sua dignidade, busca, pela renúncia do egoísmo, o qual, infelizmente, ainda nos rendemos muitas vezes. Vitória e fracasso são passageiros, mas a forma como se vive cada uma dessas experiências, não. Enfim, é uma historinha real de uma menina verdadeira. Ela ainda não sabe, mas é protagonista de uma história de Natal:

Era uma vez uma menina que queria ser índia. Ela adorava o céu, as estrelas, o mar, ela amava a natureza e tudo o que há. Em torno dos indiozinhos, ela foi crescendo, olhava-os com encanto e uma certa curiosidade. Nasceu um pouco distante da realidade indígena: povo branco tem que crescer, tornar-se gente, colher frutos para depois plantar. Povo branco tem que sustentar-se em fortes pernas para debruçar-se apenas em uma cama para dormir. Povo branco nasce sabendo do seu destino, longe do sol, da chuva e do encanto dos mares. Assim ela escutava.

Pois bem, esta menina, para cumprir seu destino, teve que se ausentar da sua terra, amada pelos indiozinhos. Cresceu. Por um bom tempo esqueceu do encanto. Desencantou-se. Sofreu. Gozou. Em pleno Natal, povoou o seu mundo de belas meninas, falantes, comoventes, atentas e humanas. Sim, a menina era amiga do Natal e do Menino de luz. Em busca do seu destino, a menina branca esmurrou muros, derrubou paredes, construiu pontes. Precipitou-se em abismos, escalou torres e de lá viu que era muito pequena mesmo. Entendeu.

Tentou por várias vezes a vitória dos brancos. Fracassou. Sentiu-se frustrada, mas aceitou. Mais que isto, compreendeu. Havia quem estranhasse a aceitação, porém a menina branca, embora distante dos índios, lembrava da tribo: deveria plantar primeiro para depois colher; a fortaleza não estava nas pernas, mas nas mãos generosas para dar e humildes para receber; o destino não se espera, se constrói com mãos e coração unidos; a chuva é importante para lavar o espírito ressecado pela arrogância; o sol...ah, o sol é a luz que irradia tudo, assim como Deus. Sim, Deus, o Pai Criador, Único. Os indiozinhos, no fundo, sabiam que era único.

Os calos das lutas haviam lhe ensinado muita coisa, uma delas a de que era apenas instrumento. A menina crescia, trabalhava, buscava, estudava e tentava se encaixar no mundo dos brancos, preservando o mundo seu. Olhou para o seus pés e viu raízes e resolveu aproximar-se do sonho infantil, enfrentando uma luta de paz num mundo de guerra. Havia 13 postos de trabalho para muitas outras mãos brancas. Ela olhou todas elas com amor e, tendo como farol o Único, orou:
"todos são Teus filhos e eu não posso Te pedir que me escolhas em detrimento dos demais, além do fato de que todos se dedicaram e plantaram para colher. Escolhe dentre todos os projetos aqui representados por nós participantes, os 13 que irão Te servir, que verdadeiramente poderão contribuir com a educação e a sociedade. Eu não tenho como Te afirmar que o meu projeto é um deles porque eu não conheço nem os outros projetos, nem o amanhã, mas faz de acordo com a Tua santa vontade, em nome de Jesus, amém"*.

Neste momento, o sol veio morar em suas mãos e em seu coração. E, dentre os 13, Ele lhe deu o primeiro posto de trabalho, porque "os últimos serão os primeiros". Mais uma vez era Natal, mais uma vez a estrela de Belém cintilava no caminho.

Que Deus te abençoe, Lidinha. Que Deus te conserve a humildade e a vontade de servi-Lo sempre. Obrigada pela lição natalina.

A todos um Natal de Luz estendido por todo 2010!


Magna Santos

*Esta oração foi feita por ela antes da seleção.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

PASSARINHO

Como deve ser um coração de passarinho?
Igual as asas?
Como deve ser sua vida por entre nuvens...?

Libertário, quero te ter comigo
Já que não posso ser como tu

Mas, como sonhar é o possível
Me faz passarinho
Me deixa voar
Por entre as campinas
Do dia e da noite
Do luar

No céu estrelado
Quero flutuar

Como queria ter asas, meu Deus!
E ver o solo bem longe de mim
Como queria ter peito
Pra cantar todas as canções que soubesse
E as que ainda pudesse inventar

Bico de pena
Bico de aço
Bico de tucano
De gavião
Bico de bem-te-vi
Que já nasceu abençoado
Beija-flor, estou aqui
Leva-me contigo

Chorar eu preciso
Por tudo o que não consegui ser
Por tudo o que ainda vem
E por tudo o que nunca chegou.

Coração de passarinho
Não fica no solo acorrentado
Não fica espremido
Nem amedrontado

Coração de passarinho...
Voa também.

Escrito em outubro de 2005.
Magna Santos

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

MALA DESTROÇADA

Meu coração está qual mala destroçada
Após uma longa viagem
De fantasia
De desejo
De sonhos...
Acho que andei na terra do nunca
Querendo crescer, no entanto
Nada de Peter Pan a me esvoaçar pelos ares
Não precisei
Bastava a mim
E a ti
No sonho que acalentava
Bastava meu coração
E as asas que ele me deu
Difícil não flutuar
Sentindo as cores no ar
Difícil não viver
Não pulsar
Não amar
Não sorrir
Acho que esqueci alguma coisa
Creio que perdi algumas asas
Creio
E isto me faz turista por terras alheias
Não visitei coisa alguma se deveras não fiquei
Qual bêbado desequilibrado em noite estrelada
Assim fui eu, talvez
Só sobrou eu e minha mala
A me testemunhar que esqueci de algo
Volto sozinha
Após dias viajando
Levitando.
Voltei.
Quase voltei
Parte de mim ainda está lá
Ainda não quer voltar
Mas voltará.

Escrito em setembro de 2005.


Magna Santos

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O TESOURO (2ª Parte - Final)

José voltou mais cedo para casa. A fome e a vontade de chegar o encontraram antes da hora. Nem atinou para a ausência dos meninos, lembrava apenas de cada palavra do pai, de cada gesto, de cada atitude. Aquele papel amarelado de alguma forma tinha mexido com ele. Não tinha dúvidas, era a caligrafia do pai, os antigos papéis onde seu velho ensaiava mapas, certamente, aquele era mais um dentre os muitos mapas que ele explorou, quando criança. Uma saudade danada lhe apertava o peito, parecia que tinha ficado algo para se dizer...e tinha mesmo. Sua ida a São Paulo, há 18 anos atrás, havia contrariado demais seu pai, o qual nunca mais pôde rever.

"_Meu filho, broto retirado do seu chão, morre solitário. Repare o mandacaru, é seco, mas dá flor". Foi o que o pai lhe disse na despedida.

Lutou por alguns anos e, de última hora, largou tudo e voltou, após receber um telegrama, comunicando o falecimento do seu velho. Lembrou-se do que pensou na viagem de retorno: nunca mais conversas na madrugada, nunca mais ouviria histórias assombradas, nunca mais visitas ao umbuzeiro. Nunca mais. Era mais do que uma constatação da verdade, era uma condenação, uma promessa para si mesmo: nunca mais com ninguém.

Os dias se passaram, os anos correram, dando-lhe mulher, filhos e o mesmo teto para morar; não tinha mais coragem também de arredar o pé daquele terreno, por mais duro que lhe fosse a vida. Às vezes ficava pensativo e a mulher já o entendia, era hora de tirar os meninos de perto, porque o marido estava longe. Nestas horas, ele voltava a ser criança e se via brincando com o pai. Apesar de acostumado a lida rude, seu pai era sábio o suficiente para brincar com os filhos, inventar mil e uma brincadeiras. Com José, adorava criar uma caça ao tesouro, porque gostava de observar a vivacidade e a alegria do filho; ir ao umbuzeiro, então, era como ir ao paraíso, melhor, era como ir a um templo, onde tudo era sagrado, tudo que se dissesse, que se fizesse.

Destes momentos de lembranças, José acabava acordando com um dos meninos a lhe perguntar por algo e via então que ele ali era o pai. E agora, enquanto sonhava, algo parecia faltar: as crianças. Onde estavam? Neste exato instante, surgiram os dois em disparada na porteira. Pareciam exaustos. Ainda quis reclamar, chamar a atenção, mas não conseguiu, estava claro o medo dos dois e o cansaço excessivo, talvez até pelo medo. Resolveu então perguntar o que aconteceu:

_ Não me escondam nada. Quero saber onde foram.

João, sem palavras dizer, depositou-lhe nas mãos a caixinha e o mapa sujo de suor e de terra. José reconheceria o embrulho do seu pai em qualquer lugar que estivesse...sempre as mesmas voltas no barbante, sempre o mesmo nó cego. Tremeu. Pensava que havia descoberto todos os tesouros e aquele estava lá, nas suas mãos. Ficou meio hipnotisado até ser despertado por Netinho:

_ Abre, pai, abre!

E José sacudiu a terra da caixa e pegou o canivete para libertá-la do sofrido barbante. Abriu. Os olhos dos meninos brilhavam, os dele, marejavam. Era a última foto tirada com o pai, ambos sorrindo abraçados, dias antes da sua viagem. No verso, a dedicatória em letras quase apagadas: "Tesouro se guarda no coração. Eu estava errado, meu filho, broto vive bem onde for bem cultivado. Do seu velho e amigo pai". Entre lágrimas entendeu e uma paz, há tempos desaparecida, finalmente retornou. Fitou os dois pequenos ansiosos por alguma reação sua...pegou-lhes as mãos com gratidão e, após um demorado abraço, suspirou profundamente.

Daquele dia em diante, ele jamais falaria 'nunca mais'.


Magna Santos

domingo, 22 de novembro de 2009

O TESOURO (1ª Parte)

_ Vamos, João, vamos!
_ Já disse que só vou quando acabar de fazer o que pai me mandou.
_ Mas, João...
_ Depois pai briga comigo, e aí?
_ Mas, João...
_ Tá bom, tá bom.

Pegaram a baladeira, a pá, o mapa e saíram ao encontro do desconhecido. Foram de mapa em punhos, pois o tesouro teria que ser encontrado até o meio-dia, hora em que o pai chegaria em casa e descobriria a trela. Iguais cinderelos às avessas, foram com coragem e determinação. Fazia dias, encontraram aquele mapa nos guardados do pai:

_Pai, o que é isto? O pai empalideceu, avermelhou os olhos, quando fitou aquele papel amarelado pelo tempo e disse:
_Besteira.
_Besteira, pai? Mas tá aqui dizendo que é um mapa de tesouro!
_Besteira, menino - sentenciou e saiu, evitando explicações, sem perceber o brilho nos olhos dos filhos. Homem feito, precisava fugir daquela lembrança.

Agora os dois pequenos estavam ali, dispostos a descobrir o que o pai não ousou observar. Abriram a porteira, passaram pela cerca de arame do sítio vizinho, atravessaram a seca plantação de Chico de Dida, chegaram na cacimba de dona Filó, que de longe acenou. Mais cercas, mais arames, uma corrida do mangangá, que não brinca em serviço. Desembocaram no açude teimoso, onde deveriam dar uma volta enorme até a famosa pedra furada. Os irmãos morriam de medo do lugar, pois a fama era de ser um antigo cemitério de índios. O pai contava que, à noite, as almas vinham reclamar rezas e cantorias para quem andasse pelo lugar sem parar. Ele mesmo - o pai - já havia passado por maus bocados, quando criança. Costumava ir com seu pai ao umbuzeiro, sendo a pedra furada passagem obrigatória; na única vez que foi sozinho, arrependeu-se amargamente e nunca mais tentou. Assim, por precaução, eles parariam e rezariam um Pai Nosso por todos dali. De lá, segundo o mapa, estariam em condições de ver o antigo umbuzeiro.

O sol subia à medida em que caminhavam. João lembrou-se do pai:
_ Ligeiro, Netinho, ligeiro!
E Netinho se esforçava para acompanhar o irmão.

Chegaram finalmente ao umbuzeiro. Já haviam ido lá, claro, mas sozinhos...tudo parecia diferente. Agora começavam a entender porque sempre diziam que os umbuzeiros eram sagrados, eles pareciam ter raízes embaixo e em cima de tão bonitos. E por falar em raízes, lembraram-se do mapa. Olharam-no, examinaram a árvore e se acharam perdidos. Afinal, onde estava o segundo nó? A raiz indicada no mapa estava abaixo do segundo nó. Bom, resolveram arriscar e cavaram, cavaram ávidos de esperança. Quando o sol anunciava o meio-dia, encontraram uma caixa pequena amarrada com um barbante cru, porém não conseguiram de nenhum modo desatá-lo da caixa. O jeito era voltar com a caixa para casa, até porque agora não poderiam mais esconder o ocorrido, já era meio-dia.

Desabalaram ambos numa carreira sem fim. Netinho não ousava reclamar das dores nas pernas, mais dor seria encontrar o pai em casa antes deles. E correram, correram, fizeram todo o trajeto de volta sem olharem para trás.


Magna Santos

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

BUSCA

Sim, ele estava nu ao amanhecer
Rasgou-se das sedas que vestia seu corpo
E quase como louco
Estava a vagar.
Onde estava a lua que refletia o dia na escuridão?
Onde estava a estrela que pairava no ar?
Onde estava?
Neste momento ele olhou para si
E surpreso percebeu...
Seus pés tinham raízes
Seus braços eram de sol
...
Então ele chorou
E sorriu.


Magna Santos

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

14 ANOS

Fiquei lembrando dos meus 14 anos e não atinei para o que tinha sido, apenas lembrei que, naquele ano em pleno "1º científico" me sobrava muita preocupação e pouca alegria, na verdade me sobrava muita confusão no juízo.

Hoje vendo ele, nasce uma alegria redobrada, quadruplicada...ah, nem sei o tanto! Crescer com saúde é algo bonito de se ver. Muitas vezes se cresce igual planta abafada longe do sol. Acaba se espichando tanto que sempre fica alguma anomalia para ser resolvida depois, quando se resolve. Mas crescer, crescer mesmo é bem difícil.

Reuniões embaixo do cajueiro desta vez não foram muitas. Há que se dar atenção aos amigos que preferiam um lugar mais fechado. Não existiam paredes que retivessem as gargalhadas, os cochichos, as tramas arquitetadas em plena tarde pra noite que se aproximava. Também não demorou o medo bater pernas e sobrar coragem para se pegar rã em nome da farra. Desta vez não ouvi: "faz uma vistoria no banheiro, madrinha". Quanta coragem! Quanta vontade também de mostrar tudo de uma vez. Empinar pipa ficou mesmo para o pai e a madrinha abestalhada, que teimam em ser crianças no meio de adolescentes. Uma delícia a convivência, um banquete para a alma faminta.

Volto de um feriadão com gosto de quero mais. Talvez não tenha sido suficiente para me alimentar depois de dias doloridos por sofrimentos alheios. Mas, certamente, deu-me uma "sustança" das boas. Sobrou ainda um monte de brincadeiras a se fazer. Sobraram histórias a se contar, já agendadas pra próxima. O retorno de viagem não teve no que se pensar, a não ser em mais maneiras de se inventar um passatempo.

E o que vale mesmo é que nesse passar do tempo, vez ou outra nos surpreendemos com tudo o que se viveu, como se tudo o que se viveu fosse apenas do outro e não nosso. Mesmo assistindo ao outro crescer, mesmo sendo os hormônios do outro que fazem as pernas crescerem e dar passos mais largos, o crescimento é conjunto. Já falei aqui dos seus 13 anos, mas este agora é apenas para dizer a ti, filho do coração, sobrinho e afilhado muito amado: estou gostando demais do tamanho que tu estás ficando, sobretudo, por não fechares os olhos para quem não é tão alto. Cresça, meu filho, estarei sempre aqui...por perto.

Que Deus te ensine sempre a cultivar a alegria e a humildade!


Magna Santos

terça-feira, 3 de novembro de 2009

OLHOS ABERTOS

O nunca terminou num suspiro. Desfez as malas já em novo território. Aqueceu as arestas para sorrir melhor. Não esgotou as fontes do inverno, pois é sempre bom tê-las em dia para renovar o aquecimento. Também descolou três cestas para sorti-las de coisas. Uma para o dia, outra para a noite, outra maior ainda para a madrugada. Amanheceria límpida, igual ao lago que molha as crianças. Venderia sorrisos a preços banais: um por duas piscadas, três por quatro abraços. Não sobraria um, pois seu coração estava generoso. Bolsos cheios, voltaria com mais e mais e mais...até nutrir a humanidade inteira.

E assim foi.

Até acordar com um beijo de criança e perceber que poderia ser ainda melhor.


Magna Santos

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

OLHOS FECHADOS*

E hoje eu vi a face da morte.
Sorriu para mim
Em pleno inverno
Deitou-se no chão
E me falou de saudades
Apertou meu coração
Depois chorou
E eu sorri
Para não falar.
Hoje vi a cara da morte…
Era feia
E bela
E feia de novo
E bela outra vez
Até que fechei meus olhos
E nunca mais os abri.

Magna Santos

*Palavras dedilhadas a partir da leitura "Cantiga para Laura Avellaneda Santomé" do blog Razão e Poesia de Gustavo de Castro.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

MIGALHAS DE UM CASAMENTO

Ela me mandou um pedacinho da alegria e eu me fartei! Tanto que terminei em lágrimas a leitura de um amor declarado, pronunciado, vivido com poesia contagiante. Ela que nem me conhece, generosamente, me fez conhecer um pouquinho do que foi seu momento mais especial.

Amizade é sentimento muito nobre para termos por quem não deu provas dela, assim, não posso dizer que sou amiga deles, não tenho a menor intimidade com eles, mas fica por minha conta e cota de enxerimento hoje dizer que eles são meus amigos. Já a conhecia pelas lindas letras em Barro Cru. Ele, há bem mais tempo: pelas palavras em Estuário (desde a época do JC), por uns encontros desencontrados em virtude de um convite para dividir palavras com um grupo de cabeças brancas, muitos emails trocados e uma visita inesquecível a sua eterna e acolhedora tia Floceli.

O casamento ocorrido no último sábado parece ter contagiado a todos com uma alegria e um sentimento de "como vale a pena viver!", pois alguns blogs estão pipocando de felicidade e de referência à festa.

Assim declaro, de antemão, que não estive lá. Eu não vi a noiva entrar com a sobrinha linda. Não vi o noivo molhar a barba com lágrimas de emoção. Eu não vi os inúmeros amigos inundarem os corações de felicidade pela presença do amor. Não vi também a decoração feita pelas amigas, tornando uma das ruas do Poço da Panela ainda mais bela. Ah, eu não degustei o arrumadinho caprichado que mãos amigas fizeram. Não pude nem escutar os poemas salpicados como arroz nas cabeças dos noivos. Nem conheci Gustavo - o famoso amigo - a tilintar belezuras em forma de poesia.

Não é a primeira vez que escrevo sobre um casamento, já andei molhando os olhos por estas terras
aqui, com direito a lírios e tudo mais. Assistir ao amor só não é melhor do que vivê-lo. Porém, agora, não foi o casório de uma amiga íntima, como da outra vez e, principalmente, não estive lá. Mas, sinto que estou agora, porque a alegria deles é realmente contagiante. O email inusitado de Silvinha me fez parar na hora do almoço e querer dividir um pouco desse contágio com vocês. Vejam, leiam(quem ainda não leu), se inspirem, respirem e se fartem, como eu me fartei. Visitem quem esteve lá: Naire Valadares, Inácio França e Gerrá, eles lhes contarão muito mais, pois não tenho a pretensão de supri-los. Quase como a pegar as "migalhas" de um banquete, ficam estas palavras minhas. Porém, amanhã, quando eu acordar para mais um dia, vou saber que mais um casal está andando de mãos dadas neste mundo. E isto é maravilhoso!

Mais uma vez, obrigada, Silvinha, pela generosidade e perdão por este enxerimento.

Toda felicidade para Samarone Lima e Sílvia Goes!


Magna Santos

sábado, 17 de outubro de 2009

EPIDEMIA

Tempos atrás, após um comentário de Hérlon do Arqueologia da Alma sobre gostar da minha "veia poética", fiquei pensando sobre minha saúde artística (se é que posso chamar assim, mas por falta de nome, fica este mesmo). E, pela falta de inspiração e de tempo, nas quais estou mergulhada nos últimos dias, só me resta uma confissão: a minha veia encontra-se obstruída.

Acabo de visitar o Arqueologia e percebo que o mal foi igualmente confessado pelo autor do blog. Vou ao Inscritos em Pedra e o Josias encontra-se mais silencioso que a caricatura de um psicanalista. Ana Cláudia, do Ninho da'Ninha, está Lúgubre desde o dia 15 de setembro. Até o Samarone, que parece inesgotável nos assuntos, recentemente declarou-se sem inspiração. Então tiro a conclusão fatal: trata-se de uma epidemia.

Corram, portanto, aqueles que ainda não se contaminaram. Defendam-se como puderem, porque o caso é sério. Desse mal, creio, alguns já sabem do antídoto, mas a maioria não. Já ouvi falar que essa tal de inspiração é besteira, que escritor que é escritor não precisa da dita cuja, o negócio, dizem, é transpiração. Porém, isto só agrava minha situação, uma vez que não tenho essa petulância de me dizer escritora. Assim, confesso aos quatro ventos: preciso de inspiração, até porque transpiração em si não me tem faltado.

Enquanto meus colegas de infortúnio não me derem a solução, quero mesmo é encontrar um doutor-das-veias-poéticas-obstruídas para me fazer um cateterismo ou angioplastia urgente. Pagarei com letras e palavras serenas à vista, se achar melhor, pois a prazo também me custa. Não pedirei desconto ou regalias, só uma coisa, pelo amor de todos os poetas: deixe-me ir para casa logo. Perambular sem rumo, como estou agora, dá-me a sensação de que não sei para onde ir. Sim, porque estar com essa obstrução, acarreta tais sintomas: perder o rumo de casa, estar sem bússola e com uma venda amarrada nos olhos.

Contudo, a brisa, o vento e a luz que teima em penetrar na escuridão sinalizam que estou encontrando o caminho de volta. Em breve, chegarei. Chegaremos, amigos.

Magna Santos

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

PROTEÇÃO NA BIENAL

Ontem fui prestigiar uma amiga no lançamento de um livro, no qual ela é co-autora. Cheguei cedo à Bienal, porém atrasada para assistir ao debate coordenado por Samarone Lima. Quando vi aquela cabeleira, quase lamentei não ter levado a cajuína que prometi a este cearense de coração pernambucano. Fica novamente pra próxima, Sama, acho que não seria uma boa ideia, em meio aos livros, oferecer bebida. Na verdade, acho que seria, mas tenho que ter alguma desculpa.

Cheguei de fininho, sentei-me ao pé da porta, sorri e acenei pro cabeludo sorridente de caderno e caneta nas mãos. Enquanto os outros falavam, ele não parava de escrever. Como escreve, Deus do céu! Lembrei do que ele diz nas suas crônicas e imaginei a tortura que seria se acabasse a tinta da caneta.

O debate sobre literatura na periferia era de motivar sorrisos. Gente simpática, cada um contando sua entrada no mundo da leitura. Todos de um jeito, desfilando motivos, mais que isso, transbordando o prazer de ler. O fundamental era o que eles estavam mostrando com esse prazer despretensioso: o envolvimento de todos com os livros. Meu pensamento foi longe e fiquei vagando pelos becos, onde se tentam marginalizar cabeças curiosas. Ali eles traziam bons argumentos para prender ou satisfazer as curiosidades, despertar interesses...sementes literárias derramadas aos montes; era isto o que Gabriel Santana (PE), Sergio Vaz (SP) e Sacolinha (SP) traziam. E traziam com a prática.

Não sei bem como terminou, terei que esperar a próxima crônica do Estuário para conhecer o final desta história. Com certeza, será minuciosamente contada, tendo em vista as anotações do coordenador. Lamentei, de fato, não ter também papel à mão, pois as frases que ouvi foram preciosas. Chegada a hora das perguntas, era chegada também a hora do lançamento do livro: "Vivenciando Penas e Medidas Alternativas" pela Editora Bagaço. Hora de partir. Ainda tive vontade de perguntar onde saber mais, ou como era salvar gentes, plantando palavras, mas não sei fazer nada na pressa. A melhor alternativa, portanto, foi sim matar o meu próprio desejo de prestigiar uma amiga. Além disso, participar de um lançamento já havia virado questão de honra, após eu perder dois que desejei muito ir, o último: Viagem ao Crepúsculo. Segui então toda feliz para abraçar amigas preciosas.

Confesso que ainda me sobra muita timidez para certas ocasiões, sou capaz de trocar de lugar com o garçom para ter onde botar as mãos; assim, foi providencial ficar de máquina fotográfica em punho para clicar todos os sorrisos possíveis, sugerir poses, exagerar na repetição de fotos etc. Acabei o evento mesmo foi conversando acocorada ao pé de um puf, pois o cansaço me pegou de jeito. Saí com alegria sobrando e um livro me faltando: Vivenciando Penas e Medidas Alternativas. Sim, isto mesmo. Só com amigos podemos ir a um lançamento sem comprar o livro, mesmo tendo que aguentar a mangação e todas a piadas possíveis. O livro, claro, é muito bom, porém a área fica longe da minha prática, mesmo que esta 'minha prática' tenha sido uma 'medida alternativa' muito particular.

Restou mesmo foi a sensação de que na bienal, assim como na vida, alguns temas se encontram, mesmo que aparentemente distintos. O trabalho com a literatura, mesmo que despretensioso, é uma bela e poética “medida alternativa” de viver a comunidade, de transformar consciências, de colocar o cidadão senhor do seu próprio eixo. Realmente, Samarone, “um jovem com livros nas mãos, anda mais protegido”.

Magna Santos

* VII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco. Será até o próximo dia 12. Quem puder, vale muito a pena, está super super legal.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

OUVINDO GESTOS

Nesses dias que a cabeça anda vazia, só me resta um zumbido insistente no ouvido direito. Ou esquerdo? Ou os dois? É, a gripe realmente deixou sequelas. Vou ao otorrino que tem nome de bebida e vejo que nem sempre sei dizer o que sinto, se escuto bem ou mal...e saio de lá com 3 exames para fazer, porque médico não adivinha, ora bolas, no máximo, desconfia.

Embora tenha pedido pro médico repetir uma ou duas perguntas durante a consulta, só hoje, ao atender o telefone, percebi que um ouvido escuta melhor do que outro. Tudo bem que não somos simétricos em tudo, mas estou começando a desconfiar que minha audição não anda lá essas coisas. Porém se acalmem, porque estou longe de falar aos gritos para ouvir melhor. É só uma percepção sutil. Desta vez, ir ao médico me deixou com uma vontade enorme de escutar até sussuro de formiga, bater de asas de muriçoca, papel caindo ao vento etc. Estou me esforçando. Caso eu consiga ouvir qualquer destes, compartilho com vocês. Pena é não saber dizer direito o colorido de alguns sons. Bem que Pachelly Jamacaru poderia me ajudar com alguma fotografia de sons, com a criatividade dele, certamente conseguiria demonstrar em imagens o que o som traz em sensações.

Ando talvez atrasada em algumas conclusões, só agora me ocorreu que o som tem imagem. Sim, acho que este é o sentido da libras - língua brasileira dos sinais. Imagino que todos já sabem como é o aplauso em libras. São as mãos para cima e tremendo. Assim escrevendo não tem a menor graça, bonito mesmo é ver. Acabo de encontrar um site com um
dicionário da libras. Lá vemos cada palavra ou, diria, cada som. Dêem uma olhada na palavra saudade. É linda. É uma mão fechada circulando o coração...e, creio, é assim mesmo. Já o preconceito são duas mãos abertas, achatando algo imaginário - outra imagem bem fiel. Ah, e poesia? É algo que vem do centro do peito e sobe com emoção, espalhando-se.

Acredito que a falta sempre traz compensações. No mês passado, trocamos umas ideias nos comentários (em 'quanto vale') sobre ela - a falta - companheira antiga de todos nós. E hoje a vendo sob o ângulo bem específico da deficiência física, entendo que ela pode ser uma oportunidade de desenvolver outros talentos, sentidos ou dons. Imagino que não deve ser fácil, sobretudo, na convivência com os que têm. Os audientes, que somos nós, talvez não percebam a importância do gesto, muito menos do toque, embora vislumbrem cada som do menor ao maior volume, do grave ao agudo. Percepções que geram conclusões, amigos, porque somos seres de falta sim, uma falta existencial que nos empurra pra frente, nesta incansável busca de completude.

Ah, mas eu não quero trazer lições, muito menos "filosofia". Eu queria mesmo era compartilhar esta minha pequena percepção, ocasionada por uma insignificante falta. Enquanto gestos geram palavras e oportunidade de comunicação para alguns, as palavras aqui apenas querem dizer de gestos que talvez nos faltem, ou melhor, me falte. Mas, deixem eu ir lá no dicionário da libras para saber como poderei desejar um bom dia com as mãos, afinal, acabo de descobrir que elas têm voz.

Que Deus abençoe, então, nossos ouvidos e nossas mãos!


Magna Santos

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A BORBOLETA E O PÓLEN ESQUECIDO

Era uma vez uma borboleta e sua família. Ela, Florzinha (como era chamada), adorava voar, não se cansava. Ou, se o cansaço a visitasse, dizia: "fui feita para voar". Passava dias assim, direto voando.

A família de borboletas, onde existem muitas asas, era muito querida na floresta e estava sempre muito tranquila. Verdejantemente, borboletamente tranquila até que, um dia, a notícia se deu: rastros da borboleta Florzinha foram encontrados em pleno sertão. Correram todos: borboletas, papagaios, periquitos e a passarinhada toda, inclusive, os que estavam no Reino das Asas. É que Florzinha, distraidamente, havia esquecido alguns pólens pelo caminho em uma região muito árida; ao voltar para pegá-los, um pequeno acidente se deu, e um dos pólens acabou alojado dentro da própria borboleta e ela adoeceu. Nunca, na face da terra da floresta, havia acontecido tamanha esquisitice.

Apressaram-se todos em encontrar rápido uma solução ao problema. E agora? Asinhas paradas, cores pálidas, antenas a captar pouca coisa...e agora? A mãe da borboleta estremeceu, as irmãs zumbiram dores, o príncipe da borboleta tremeu intimamente, muito intimamente para ninguém perceber que lhe faltavam forças, afinal, era um príncipe.

_ E agora? repetiam todos.

Foi aí que viram o que nunca imaginaram: devagarinho, Florzinha foi-se envolvendo nas próprias asas...até que um novo casulo se fez. Assim permaneceu durante muitos dias, enquanto os demais se revezavam em cuidados ou em amolar suas antenas para vibrarem melhor. E Florzinha lá, no casulo. O pessoal do Reino das Asas mandou avisar: "é assim mesmo, tenham calma! O Rei Maior está no comando!". E estava mesmo, pois depois de um tempo, o casulo foi cedendo, asas novas foram surgindo e uma borboleta mais bela nasceu.

_ O que foi feito do pólen? - perguntaram.

E o Rei Maior respondeu:

_ Um pólen nunca deixa de cumprir sua função. Ele sempre germina. E foi o que aconteceu.

Magna Santos

Para uma amiga que passou dias na UTI, vítima de uma forte pneumonia. Disseram que ela era uma fênix, mas parece que ela é mesmo uma borboleta com um pólen germinado em si mesma.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

ALIÁS

"Aliás...". Foi como ele começou a carta. Já parecia teimar consigo mesmo ou com alguém que julgava contrário ao que pretendia expor.

Um tanto de displicência nas questões práticas da vida não escondia como de fato era metódico e articulado para alcançar seus objetivos. Parecia uma contradição ambulante de tão inconstante que se fazia com seus afetos, seus relacionamentos. Mas, não era nada disso. Queria, no fundo, um amor para ficar 'pro resto da vida', como intimamente dizia a si mesmo e só a si mesmo. Queria de verdade um amor tranquilo, sereno e apaziguador para acalmar as inquietações que trazia no peito, como se, de fato, isto dependesse de alguém e não de si. Era mesmo um grande inseguro pras questões do coração, não atinava para os próprios desejos quando diante de quem amava. Demorava demais a reconhecer um grande amor. Era isto. E só.

Ah, como começar uma carta dessas? Como voltar atrás? Ela não aparecia há exatos 10 dias...um telefonema, uma mensagem, um recado, nada. Nunca se sentiu tão impotente diante de uma ausência. Sentia-se igual menino orgulhoso, totalmente sem jeito diante do vacilo. Pois bem, pensou, já era "homem feito, maduro, senhor de si". E repetiu isto várias vezes como uma espécie de mantra, na tentativa de convencer a si próprio.

Amassou o papel com o 'aliás' ridículo. Distante demais seria um papel e algumas palavras. Riscos demais para palavras erradas. Pegou o telefone e sem pensar discou o número. Ela atendeu no primeiro toque, reconhecendo a hesitação do outro lado da linha. Já o conhecia há bastante tempo para identificar até sua respiração, mas estava cansada e decidiu também guardar silêncio. Foi então que aquele homem feito...feito menino falou com toda convicção que pôde reunir nos 10 dias de forçado exílio:

_ Sim, eu aceito. Aliás, se você ainda me quiser - resolveu consertar.

E foi assim que um menino novo nasceu, apesar de piegas, apesar de ridículo. Ridicularmente feliz...aliás, como são os finais felizes.


Magna Santos

sábado, 29 de agosto de 2009

RAPUNZEL DO SERTÃO

E assim Rapunzel ficou esperando seu príncipe
Sem tranças
Sem ilusões
Ou fantasias
E para escapar da agonia
Plantou flores de plástico ao sol poente
Nem toda dor decorre da gente
Nem toda cor retrata a lente.


Estas foram algumas palavras escritas a partir desta fotografia. Sementeiras está quase criando uma série pras parcerias com Pachelly Jamacaru, ou melhor dizendo, para as caronas inspiradas nas imagens captadas por este artista (sempre muito generoso comigo, sem ao menos me conhecer pessoalmente).

Apesar de arriscar tirar um pouco do proposto acima, eu não poderia, desta vez, publicar as palavras que me vieram, sem traçar um pequeno paralelo do que acredito ser a realidade da imagem, com base no meu conhecimento do povo sertanejo, do qual faço parte. Fico imaginando o que esta senhorinha diria ou sentiria se lesse o que escrevi... Ela, logo ela que acorda todo dia 4:30 da manhã, vê o sol nascer na serra, cata feijão, arroz, prepara o almoço, lava roupa, varre a casa...e assim permanece entre um afazer e outro até marcar as 18:00h, hora da Ave Maria, quando então se recolhe para agradecer o dia e a noite e pedir a bênção à Mãe Maior. Sim, assim mesmo, sem ilusões nem fantasias. Só calos nas mãos e uma gratidão imensa no coração.


Magna Santos

sábado, 22 de agosto de 2009

O MENINO GOLFINHO E O OLHO D'ÁGUA*

O menino golfinho
Dá cambalhotas no escuro
Sustenta o suspiro
Afunda melhor
Sobe de um fôlego só
Escorrega no abismo
E pra ser seguro
Solto
E passarinho
Lembra da fonte de nuvem
Que brota no chão
No fundo do chão...
Das águas.

Magna Santos

*A foto "O menino golfinho" é mais uma obra de Pachelly Jamacaru, o qual gentilmente autorizou a sua publicação. Foi tirada no Balneário do Caldas, situado na Serra do Araripe, em Barbalha-CE.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

QUANTO VALE

Há quem diga que flutuo
Outros, que permaneço no chão
Há quem suspeite do meu esboço
Como a amealhar intenções
Há quem adivinhe os suspiros
Os gritos e até as solidões

Há, sempre haverá
Onde ainda nem sei...

Me aparto do mundo
Para me ter mais inteira
Me aparto de tudo
Para sossegar o espírito
E há quem diga que sofro
Quando apenas sonho

Meninos perambulam nos meus sonhos
À procura de abrigo
Órfãos esperam aconchego
Enquanto estudo
Pais se interrogam sobre o eixo
Quando tateio o meu
Leis falam dos direitos
Onde existem aos pedaços
Inteira, permaneço na intenção

Escrevo os meus dias no silêncio
Falo quando faz barulho
Escuto a saudade
Enquanto canto
Talvez eu chore
Enquanto durmo
Talvez eu sonhe
Enquanto acordo

Creio que deixei de dormir
Talvez a sonolência de tempos
Se despeça pra nunca mais

Quero assistir ao menino bravio
Quero amparar-me na esquina dos trilhos
Extasiar-me com as multidões
Isolar-me dos padrões vazios
Encontrar-me com a menina que fui
Tirar-me de um muro de pedra
E pular ao encontro da luz

Sem dragões vermelhos
Sem espelhos assombrados
Sem cristaleiras de eus

Dar adeus ao que não me serve mais

E quando eu estiver de volta
Quero me ver de pé
Caminhando
Quem sabe pulando de alegria
Me despedindo do meu amado pai:
Até logo, até breve, até mais
Segue avante, querido sempre, estou aqui...
Estou em paz


De mãos abertas ao destino
Seguindo as pegadas do Menino de Luz
Sem esperar pelo Natal.
Sem esperar.

Quanto vale um coração sereno?
Quanto vale um espírito em paz?
Quanto vale toda uma vida?
Quanto vale o que tenho pra viver...
Ah, quanto vale!


27.11.2006.
Magna Santos

domingo, 9 de agosto de 2009

O AMOR DE PRESENTE

Não, não tenho mais o que te falar como antes
No dia de hoje.
O meu amor eu já te dei em dia de pais
Embrulhei com carinho
Empacotei
Adornei com um laço
Da mesma fita que amarrava os meus cabelos infantis
E te dei.
Mas que bobagem a minha:
Ele (o meu amor) já era teu.
E hoje repito a bobagem outra vez
Toma pra ti o que já é teu
Repara na falta do laço
Sinal que tua filha cresceu.
Continues também crescendo onde estás
Isto nos felicita
Continues seguindo pro alto
Isto nos conforta
Continues se libertando de nós
Isto nos fortalece.


Enquanto o Pai deixar
Serei tua filha
Enquanto Ele deixar
Te darei o amor toda vez
Para não esqueceres de onde vens
Para lembrares aonde vais.


O Pai te espera de braços abertos!
Segue feliz e em paz!
Feliz dia dos pais!


Escrito em 06.08.2008.
Magna Santos

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

DRAGÃO VERMELHO

Meus cabelos balançavam soltos
Ao contato de tuas mãos.
Por entre as grades do jardim
Via teu corpo de herói a deslizar como num sonho
Grande, alto, alegre, feliz
Como eu, como nós,
Meu pai.
Já estavas atrasado
Ao que tudo indicava
Ou quase tudo:
Ficava eu a ver-te ir
Por entre a grade? Não.
Me subiam ao muro
E de lá assistia
Ao que não podia supor.
Corrias feito um menino
E o dragão vermelho te esperava
Para inesperadas aventuras.
Um tchau de braço inteiro
Mostrava como eras feliz
Parecia um menino...!
Igual a menina que ficava
A ver-te por cima do muro
Sentada no muro...
Lugar mais incômodo, meu pai!
Melhor o teu colo
Melhor o teu braço
Teu abraço benfazejo
Teu aconchego eterno
Que o tempo me promete e traz
Meio que em uma nuvem
Talvez uma fumaça que seja
Tragada pelo dragão
Derramada pela espuma do mar
Que te levou de mim

Foi engano, papai, é engano!
Olha o relógio outra vez
Ainda é cedo
Não estás atrasado
Vem!
Me tira daqui
O muro é duro, pequeno, inseguro
Quero sair
Quero subir nas tuas costas
Sentar na tua corcunda
E sair por aí
Segurar na testa tua
Pra não cair
...
Que mundo mais bonito, pai
Quando visto daqui!

Escrito em 2004.

Magna Santos

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

PEÇA DA MINHA VIDA

Mesmo antes de nascer, Deus te escolheu como pai
Nome pequeno para uma função tão grande
Quando, enfim, chegamos, descobriste o que seria:
Cabecinhas novas para tu guiares
Mas nem tudo ocorre como esperado
E eis que mais tarde tu adormecerias
E acordarias meio atordoado
Saudade lancinante a cortar-te o peito...:
“Onde estão meus filhos?”
Luz guia, tu apagaste!
Agora acendes em outros redores
Tão longe de nosso lugar
Tão perto do nosso coração.

E os dois pequeninos comparecem todos os dias
Às desventuras da tua ausência
Crescem pernas, bocas, cabeças
Aquelas mesmas que te esperaram no jantar
No adormecer
No acordar
No brincar
Na escola
Nas dúvidas diárias
Na volta da faculdade
Do trabalho
Na chegada dos filhos...sobrinhos queridos:
Netos teus.
E mamãe te espera para pegar-te a mão segura
Quantas esperas, meu pai!
Quanta saudade!
Saudade que tu já compreendeste
E que nos resta acomodar
Sem maiores dores ou faltas
Como um quebra-cabeça no coração
PEÇA DA MINHA VIDA!

Escrito em 10.08.2003.
Magna Santos

terça-feira, 4 de agosto de 2009

PAI

Uns já se despediram
Outros tentam encontrá-los
Alguns esperam reconhecê-los
Pais

Impossível existir sozinho
Impossível pensar uno
Difícil pensar em dois...
Pai

Há palavras nascidas germinadas
Há nomes acompanhados de outros
Há letras que associam outros fazeres:
Pai

_ Pega a lanterna para eu te ver melhor
_ Pega o analgésico para eu te ouvir melhor
_ Pega a minha mão, filha

Pego o sonífero para eu acordar
Pego o sonho para eu te encontrar
Pego o paradeiro de uma estrada do mar...
Meu pai.


Magna Santos

domingo, 26 de julho de 2009

ARCO-IRIS DE PENAS*

Pintaram um arco-íris
De asas
Caído do céu
Ciscando ligeiro
Pelo terreiro
À procura de milho
Não
À procura de abrigo
Não
À procura
A'penas

Magna Santos

* Mais uma parceria com Pachelly Jamacaru, o qual entrou na brincadeira e autorizou a publicação desta fotografia.

domingo, 19 de julho de 2009

ÚLTIMA VEZ

Na última vez que te vi
Tinhas os olhos manchados
Havia névoa
Que inundava tua visão
Nela se confundindo
Como uma vidraça
Suja na manhã

Tanta dor em teu olhar...
Ceguei

Hoje não te vejo mais
Muito menos te sinto

Perguntam-me ainda por ti
Poucos que insistem em lembrar-te

Quando estão comigo
Respondo:
Não sei


O tempo passa, amigo
E apaga muitas marcas
O tempo passa, irmão
E nos permite novas estradas

As pegadas do caminho
Dão-me certeza:
Caminhei

Os rastros dos meus pés
Me convidam a novos andares

Teimo em ver o horizonte
Com olhos bons
Sem névoa
Sem manchas
Sem dores

...
Só paz.



Magna Santos

domingo, 12 de julho de 2009

PALAVRAS

As palavras não são minhas
Não são
As palavras são delas mesmas
Embora constrangidas
Por passarem por tantas mãos


As palavras secam
Quando não as pronuncio
As palavras reclamam
Quando não as acarinho


As palavras...
Sempre elas
A me acordarem

À noite para uma longa espera


Sim
As palavras têm insônia
Perambulam nas esquinas
Andam sozinhas nas ruas
Ou acompanhadas pensam
No final


No ponto final.



Magna Santos

quarta-feira, 8 de julho de 2009

RESQUÍCIOS DE VIAGEM E OUTRAS BOBAGENS

Há viagens que rendem. Esta rendeu. Salvo-conduto para andar em paz pelo resto do ano. Portanto, impagável.

No alto dos meus 39 anos, me vejo às vezes bem menina, embora noutras velha me pareço. Devo sofrer de um distúrbio ainda a ser catalogado. Se tiver sorte, entrarei pra história, quando conseguir decifrar meu próprio caso. Não, melhor passar a bola pra minha analista, talvez a oportunidade seja dela.

Nunca tive nenhum problema em relação ao passar do tempo, nenhum rasgo de vaidade ou sei lá o quê para esconder idade. O tempo passa e, para mim, isto sempre foi muito natural. Assim, vivi, estudei, por força do próprio trabalho, pesquisei, anos atrás, construindo hipótese confirmada, no final, sobre as temidas palavras que passeiam pelo caminho do envelhecimento. Associei à ideologia e Althusser me ajudou deveras nos meus pensamentos, além de Luria, o chato do Lacan e tantos camaradas que nos instigam a pensar melhor. Portanto, teoria não me faltava.

Porém, o que são teorias comparadas às vivências em família? Lá vai uma cena besta, banal, mas que me rendeu boas considerações: não sei mais o que estávamos a conversar, nem o que se passava na minha cabecinha chata para sair com esta pérola no meio dos meus iguais:

_ Eu achava que demorava tanto chegar os 40. Antigamente, pensava mesmo que uma pessoa de 40 anos tinha tanta idade! Hoje em dia os mais jovens não pensam assim.

Os olhos admirados da minha cunhada me interrogaram aos risos:
_ Como é? Antigamente? Não, minha filha, antigamente não, ainda hoje.

Surpreendentemente, a minha impressão era só minha. Ninguém concordou comigo. Mas será o Benedito? Meu sorriso amarelo não era pário pra risadagem que se formou, muito menos para inúmeros exemplos surgidos aos montes e de várias bocas ao mesmo tempo. Deus do céu, quase se formou um debate, tendo a mim como alvo, logicamente. Como não ía perder a diversão, teimei, reforcei o que nem eu mais acreditava só para ver a coisa pegar fogo. Eu gosto mesmo é do barulho.

A celeuma perdurou, mas amansou até no dia seguinte reacender em um ambiente onde os adolescentes dividiam o espaço conosco. Eles lá jogando o velho jogo de baralho chamado "burro" e nós cá, conversando miolo de pote. Um certo "nós cá" bem que tentou infiltrar-se no jogo, mas foi avisada pela outra: "te manda que tu és tia". Esta informação não podia dar noutra coisa, senão em mais risadas e teimas. Mas, por força das circunstâncias, renunciei a qualquer intuito de jogo. Enquanto conversava, retorcia a cabeça à mesma linha do ombro e observava com vigor a atividade "joguística".

_ Magna, tô avisando: tu tás doida para ficar com torcicolo. Olha pra cá, "tia".

E agora vocês podem perguntar onde isso tudo, afinal, foi parar. Em lugar algum, amigos. Bem, continuo com minhas teimas (pois gosto da graça), alguma teoria sem maior relevância (embora com mais uma palavra para computar: 'tia'. O torcicolo? Ah, já estou bem, obrigada, mas da pomada cataflam não restou quase nada.


Magna Santos

segunda-feira, 6 de julho de 2009

VOLTANDO

Vocês vêem coisas. Aqui não sou eu a escrever. Desconfio que não cheguei ainda. Ainda estou lá...onde não sei. Talvez me demore na porteira admirando o ipê que não floresceu. Quem sabe abraçada ao jasmim, plantado por mãos avós que não conheci. Devo estar numa rede contemplando o Araripe, buscando classificar suas cores tão singulares, tentando também imaginar as vidas naqueles pontinhos brancos que dizem serem casas distantes. Lá, por certo, não se precisa de geladeira nem de luz elétrica nem de gás. De que se precisa lá, meu Deus?

Lá, onde não sei, devo estar acompanhando uma criança alimentando pintos. Saudade também se sente das galinhas, mesmo que depois as coma e repita mais e mais e mais, como se iguaria e criatura fossem diferentes, como se aquela do prato fosse algo fabricado, bem distante da amiga do quintal.

Os sons ainda estão nos meus ouvidos. Acostumei-me aos plurais engolidos cheios de risadas e tudo mais. Reconhecer uma voz antiga, rir com outra aprendendo a falar. Rir também de tantas outras coisas...de perder o fôlego! Rir de si mesma, dos outros, da vida, das diferenças das gerações que nos acordam para o passar do tempo.

Ah, sensações!

Devo estar ainda cantando um "parabéns pra você" numa farra assim, digamos, bem "thriller", pois é necessário atualizar os acontecimentos.

Sim, é necessário atualizar-se. É essencial estar em dia com o coração para deixá-lo chorar de emoção ao ser convidada para madrinha de mais um amado pequeno com nome de avô. Quanta honra num convite, quanto isto representa!

É preciso estar aberta a conhecer gente nova, receber um presente cheio de poesia, trocar abraços e sorrir, mesmo sem jeito, com o convite para o compartilhamento de palavras. Outra honra.

Demoro-me demais nos cantos. Mas, creio, já peguei o ônibus, já tentei dormir no seu embalo, já me assustei com a chuva e o horário de retornar ao trabalho, quando aqui entrei nesta cidade de surpresas.

Cheguei, portanto, para outras viagens.


Magna Santos

domingo, 28 de junho de 2009

ATÉ BREVE

Pronto. A mala está arrumada. Daqui a 4 horas pegarei a estrada. Em plena noite de São Pedro, só me resta esperar algumas fogueiras pelo caminho. Certamente, contemplarei bandeirinhas, balões enfeitando ruas, meninos com traques de massa, arrasta-pé e rojão. A lua, salvo engano, estará crescente. Colocarei os problemas para dormir e estenderei meu olhos pela janela, esperando ver todas as maravilhas que meus olhos alcançarem.

Infelizmente, o mp3 - que nunca uso - vai continuar inativo, pois acabo de descobrir que a pilha se foi. Não há mais tempo nem disposição para providenciar nada, a não ser estas poucas linhas para informar a minha ausência do Sementeiras por uns dias.

A trilha sonora, portanto, ficará por conta dos sons do caminho. Porém o barulho do ônibus e a paisagem na janela me farão recordar um tempo em que essa viagem era muito mais frequente. Quanta coisa mudou desde aquela época! Para melhor, é bom ressaltar. Hoje me conformo em ir apenas uma vez por ano ao meu pequeno pé de serra.

E vou em paz.


Magna Santos

quarta-feira, 17 de junho de 2009

QUERERES

Depois de uma 'viagem' e de uma 'falta' inesgotável, hoje queria mesmo escrever algo simples, falando da vida, da alegria, do correr dos dias, do traçar do destino, como bem fizeram os adoráveis Samarone Lima e Luna Freire. Ah, eu queria falar com simplicidade da simplicidade. Queria contar das cores que vi hoje assim que acordei, do atraso que me permiti chegar ao trabalho, do bom dia que não hesitei em desejar, apesar do silêncio respondido.

Queria dizer que meu coração ficou apertado o dia inteiro por pensar os problemas alheios, quando os meus nem sempre sei resolvê-los. Não, não queria falar de problemas. Quem sou eu para trazer problemas para alguns olhos generosos que visitam estas terras atrás de sementes felizes.

Queria mesmo era falar de alegria. Da visita inusitada que também me permiti fazer a uma amiga no meio da manhã, para falar da vida, das perguntas da vida e da total falta de respostas. Queria dizer que almocei um feijão verde delicioso, temperado com muito papo, com risadas e histórias das mais diversas. Queria contar que existem adolescentes pensando sobre a vida, renunciando à festa de 15 anos para levar mantimentos a esfomeados de esperança. Ah, eu queria repetir esta história uma porção de vezes, porque é maravilhoso poder lembrá-la.

Queria também contar que existem crianças que encaram com naturalidade a morte, não porque seja seu cotidiano, mas porque é - a morte - mesmo natural, apesar da saudade que deixa em quem fica. Quem sabe as crianças se despeçam melhor do que os adultos, porque acabaram de chegar a este planeta de pontos finais, trazendo na bagagem tantas exclamações quantas cabem nos bolsos. Queria informar que, de vez em quando, mergulho profundamente nas interrogações e reticências, saindo com muitas exclamações enganchadas nos bolsos e cabelos. Lá no fundo tem mesmo uma porção delas. Pode acreditar!

Queria confessar como fico feliz quando me ligam para contar que estão com saudades e que lamento o relógio ser ingrato aos encontros, porém continuo querendo aquele sorvete, mesmo se o tempo estiver frio.

Queria pedir desculpas pelas palavras que não sei escolher direito, quando tento me definir, pois ainda não tenho definição.

Gostaria (só para mudar um pouco o verbo) de me estender nas histórias de como foi meu dia, contudo o sono me convida a sonhar mais para que eu viva muito mais, quando acordar.


Magna Santos

segunda-feira, 8 de junho de 2009

VIAGEM*

Protege a cabeça do vento
E roda no assento
Para ver mais:
Passa carro
Mato
Avião
Redemoinho
Carrapicho
Caramanchão
Passa sossego
Atropelo
Estrangeiro
Conterrâneo
Vira e volta
Pé ligeiro
Passa mãe
Pai
Desconhecidos
Assobio
Homem vendendo mel...
Nenhum tostão pra comprar
Passa
Passa tanto
E tanto o percorrido...
Embora o peito espremido
Só não passa
A vontade
De chegar.

Magna Santos

*Mais uma vez, Pachelly Jamacaru gentilmente autorizou a publicação desta foto, de cuja beleza veio a inspiração para esta 'viagem'. Fica a sugestão para conferir o blog deste artista, captador dos momentos simples e, por isso mesmo, mais belos.
Obrigada, Pachelly.

domingo, 31 de maio de 2009

FALTA

Seu peito seca
O leite acabou
O dia também se fez noite
E ele não chora mais

Um choro, por favor
Para suas noites
Uma febre
Uma dor
Um calafrio

Seus pés não vão ao quarto vizinho
Não há barulhos infantis por entre as paredes
Só o silêncio
Acorda as manhãs

Não fosse os bem-te-vis
Nada faria sentido

Sim
O bem criou mesmo asas
E voou



Magna Santos

domingo, 24 de maio de 2009

ENCONTRO



O diálogo com outros terrenos nos deixam mais férteis, mais serenos e, por vezes, mais plenos. Assim, deixo o que escrevi a partir de duas fotografias de Pachelly Jamacaru, já publicado em seu blog no último dia 11. Pachelly é um artista que capta a beleza e tem o dom de fotografá-la, escrevê-la e também musicá-la. Sou, particularmente, tocada por suas imagens. Estas duas, em especial, me chegaram como um carinho no coração, trasbordando em lágrimas, emoção e muitas lembranças. Nem toda poesia está escrita, a grande maioria está para ser vista, sentida e vivida. Com a permissão do conterrâneo Pachelly, publico as fotografias, porém existem muito mais no seu blog(acesso do lado direito). Vamos às imagens e algumas palavras minhas:


A MENINA E O ESPELHO DA SERRA

Lá no alto da serra vive uma menina feliz
Uma menina
E sua boneca
E seu pai
E sua mãe
À noite dormem abraçados
Pela manhã acordam assombrados
De tanta cor e luz.
Há muitas frestas nas telhas
Quebradas com o tempo
Há tantas outras nas paredes
Que a tinta branca esconde

Outro dia a menina perguntou:
_ Mãe, o que é espêi?
_ O que, menina?
_ Espêi, mãe, o que é?
A mãe sorriu e a pegou pela mão
Foram pela estrada estreita
Onde a menina distraída chutava pedrinhas
E brincava com as borboletas
Ao chegar do outro lado do "lagoin"
(como a menina chamava)
A mãe pediu:
_Olha, fia
E a filha olhou e viu
...
E nunca mais esqueceu.

Muito obrigada, Pachelly Jamacaru.
Magna Santos

segunda-feira, 18 de maio de 2009

DONA INSPIRAÇÃO

Há dias que a espero, mas ela finge não me ver. Aliás, é sempre assim: quanto mais a queremos, mais a perdemos. Melhor é deixá-la ir, por si só terá vontade de voltar um dia.

Sempre temperamental, chega quando quer, não adianta espernear. Alguns dizem que já a possuem naturalmente. Não consigo entender e me controlo para não julgá-los mentirosos. Talvez não sejam, talvez não. Talvez o problema seja meu que ainda não ganhei sua simpatia incondicional. Sim, terá que ser incondicional, pois o que farei nos dias que a preguiça não deixar pensar? No dia em que as palavras gargalharem em vez de sorrirem, gritarem ao invés de sussurrarem?

Ah, bendita inspiração que acontece quando menos esperamos, que nos surpreende sem nenhuma caneta, cotoco de lápis, muito menos papel e com uma memória incapaz de reter o já sabido, quanto mais o inusitado...

Santa inspiração que gosta das noites, quando o silêncio vem nos visitar. Gosta daquela solidão instantânea, passageira, quando os momentos parecem se alongar ou refletir a beleza das ruas, das praças, das gentes.

O relógio se arrasta e a fuga é inevitável. Impossível não viajar nos pensamentos, nos sonhos, nas ilusões. A falta dela nos deixam volúveis, enche um barril inteiro de ausências, ao ponto de estar aqui sem saber como terminar esta conversa, mantida por força dos dedos. Perdoem-me a escassez de assunto e essas palavras tão evasivas. Quando ela voltar mais complacente, há de deixar os seus rastros neste terreno de sementes. Por ora aceito humildemente a sua falta e peço: paciência.

Magna Santos

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A FUGA

O menino queria fugir. Preparou a bolsa com seus pertences favoritos, ou diria, seu tesouro: um pião, 10 bolas de gude, 5 chicletes, o último gibi. A mãe assistia a tudo em meio a cálculos de contas a vencer em poucos dias. No entanto, observando a movimentação do pequeno, deixou de lado calculadora, papéis e preocupações financeiras; eles podiam esperar.

_ Queres ir aonde, Serginho?

_ Para longe.

_ Onde? insistiu

_ Naquele lugar que é depois daquela curva.

_ Pois bem, meu filho, mas você está esquecendo duas coisas.

_ O que, mãe?

_ Primeiro nossa foto. Não se pode ir embora sem fotos. Depois, precisa lanchar para seguir viagem.

O menino concordou sem demora. Escalou a primeira prateleira da estante e retirou a foto: ele, o pai, a mãe e dindin, seu cachorro. Depois olhou-a demoradamente, guardou na mochila e sentou-se à mesa, esperando algo para comer.

A mãe fez um ritual inusitado na cozinha: ligou o som em uma música bem divertida, buscou apetrechos e começou a rebolar manipulando os ingredientes. O menino também assistia a tudo, tentando apenas observar, mas aos poucos começou a batucar com os dedos. Dindin parecia entender tudo, com seu rabo ministrando euforia. A mãe, ao som da batucada, ía cada vez mais misturando: sabor e ritmo, enquanto o filho mesclava som, sorriso, fome e alegria em porções generosas.

Fartaram-se ao pôr do sol até que Serginho pareceu lembrar-se de algo. Guardou as bolas de gude e o pião. Nada mais de chicletes, ele e a mãe mascaram todos. De mãos dadas com ela, seguiu para o quarto a fim de escutar o gibi antes de dormir.

A fuga? Ah, ela poderia esperar para depois...e de novo.


Magna Santos