domingo, 22 de novembro de 2009

O TESOURO (1ª Parte)

_ Vamos, João, vamos!
_ Já disse que só vou quando acabar de fazer o que pai me mandou.
_ Mas, João...
_ Depois pai briga comigo, e aí?
_ Mas, João...
_ Tá bom, tá bom.

Pegaram a baladeira, a pá, o mapa e saíram ao encontro do desconhecido. Foram de mapa em punhos, pois o tesouro teria que ser encontrado até o meio-dia, hora em que o pai chegaria em casa e descobriria a trela. Iguais cinderelos às avessas, foram com coragem e determinação. Fazia dias, encontraram aquele mapa nos guardados do pai:

_Pai, o que é isto? O pai empalideceu, avermelhou os olhos, quando fitou aquele papel amarelado pelo tempo e disse:
_Besteira.
_Besteira, pai? Mas tá aqui dizendo que é um mapa de tesouro!
_Besteira, menino - sentenciou e saiu, evitando explicações, sem perceber o brilho nos olhos dos filhos. Homem feito, precisava fugir daquela lembrança.

Agora os dois pequenos estavam ali, dispostos a descobrir o que o pai não ousou observar. Abriram a porteira, passaram pela cerca de arame do sítio vizinho, atravessaram a seca plantação de Chico de Dida, chegaram na cacimba de dona Filó, que de longe acenou. Mais cercas, mais arames, uma corrida do mangangá, que não brinca em serviço. Desembocaram no açude teimoso, onde deveriam dar uma volta enorme até a famosa pedra furada. Os irmãos morriam de medo do lugar, pois a fama era de ser um antigo cemitério de índios. O pai contava que, à noite, as almas vinham reclamar rezas e cantorias para quem andasse pelo lugar sem parar. Ele mesmo - o pai - já havia passado por maus bocados, quando criança. Costumava ir com seu pai ao umbuzeiro, sendo a pedra furada passagem obrigatória; na única vez que foi sozinho, arrependeu-se amargamente e nunca mais tentou. Assim, por precaução, eles parariam e rezariam um Pai Nosso por todos dali. De lá, segundo o mapa, estariam em condições de ver o antigo umbuzeiro.

O sol subia à medida em que caminhavam. João lembrou-se do pai:
_ Ligeiro, Netinho, ligeiro!
E Netinho se esforçava para acompanhar o irmão.

Chegaram finalmente ao umbuzeiro. Já haviam ido lá, claro, mas sozinhos...tudo parecia diferente. Agora começavam a entender porque sempre diziam que os umbuzeiros eram sagrados, eles pareciam ter raízes embaixo e em cima de tão bonitos. E por falar em raízes, lembraram-se do mapa. Olharam-no, examinaram a árvore e se acharam perdidos. Afinal, onde estava o segundo nó? A raiz indicada no mapa estava abaixo do segundo nó. Bom, resolveram arriscar e cavaram, cavaram ávidos de esperança. Quando o sol anunciava o meio-dia, encontraram uma caixa pequena amarrada com um barbante cru, porém não conseguiram de nenhum modo desatá-lo da caixa. O jeito era voltar com a caixa para casa, até porque agora não poderiam mais esconder o ocorrido, já era meio-dia.

Desabalaram ambos numa carreira sem fim. Netinho não ousava reclamar das dores nas pernas, mais dor seria encontrar o pai em casa antes deles. E correram, correram, fizeram todo o trajeto de volta sem olharem para trás.


Magna Santos

5 comentários:

Luna Freire disse...

Este negócio de conto a conta-gotas, pedaço a pedaço, me dá nervoso... vontade de conhecer o de depois. Fico na espera do que tem dentro da caixa...

Vc é mesmo incrível. Capaz de ler o que está nas entrelinhas das palavras e de fazer as associações que estão tão escondidinhas... (É verdade. Aquelas duas mensagens estão, sim, relacionadas)

Hérlon Fernandes Gomes disse...

Sou meio Pandora: ávido de curiosidade! O cenário é bem caririense! Aguardo as cenas do próximo capítulo.
Abraços.

Josias de Paula Jr. disse...

Que beleza! Suspense no ar, perfeito, um mundo de possibilidades.
Transitas no gênero com muita facilidade.
Agora, não demore muito para abrir essa caixa, não! Curiosidade danada...

Magna Santos disse...

Amigos, desculpem pelo suspense, foi o jeito. Ainda estamos abrindo a caixa, quase como ocorreu a Dimas (quando o personagem interferiu), estou às voltas com reclamações, críticas e tudo mais. Como podem ver, o sofrimento é conjunto.
Vamos ver no que vai dar. Só posso adiantar que algo que gosto é da simplicidade...me esforço por ela.
Beijos.
Magna

pollyannacalheiros disse...

pé de umbuzeiro, pedra furada, de passagem por uma cacimba, se ao invés de mapa do tesouro fosse caça à botija e no meio tivesse um adulto que se chamasse Ciço de Zezé, ... !? E fossem maior o numero de crianças diria que foi fato verídico e um dos personagens era eu. Tá bacana comadre, e que não se vê nesses dois meninos.