segunda-feira, 24 de maio de 2010

SEM NOÇÃO

Chegou numa manhã, quando eu ainda cochilava. Chamou-me de preguiçosa e emendou com outras tantas palavras que meus ouvidos sonolentos registravam a conta gotas: "você não tem noção...não sabe do seu tamanho...eu não faço nada".

Palavras escritas de próprio punho e lidas com uma emoção disfarçada. Seus 14 anos engrossaram a voz, eu não abaixo mais os olhos para olhar os seus, mas ele ainda cabe no meu colo e sempre caberá, por mais que cresça.

Uma chacoalhada nos neurônios me fez assimilar direito o que ele dizia, dirigido a mim, mas também à avó: "vocês não têm noção do tamanho do meu amor por vocês...fazem tanto por mim e eu não faço nada...que continuem me ensinando o caminho certo". Encerrava sua declaração em pleno dia das mães. E ele ainda pensa que não faz nada.

Hoje, depois de alguns dias, o vejo animado me contando a última descoberta. Seus olhos têm o brilho particular da alegria. Vibro com este espaço que nos envolve, o qual foi construído ao longo dos anos à medida em que brincávamos de qualquer coisa, que o colocava para dormir, que o buscava na escola, que assistíamos a diferentes filmes, que a conversa rolava solta, enfim, cotidianos, graças a Deus, não desperdiçados. Gosto de saber que ele conta comigo, antes mesmo de me perguntar qualquer coisa; a pergunta é apenas necessária para o agendamento, mas o "saber que pode contar" já é certeza e isto é uma bênção para qualquer ser humano.

Assim, que venham os dias. Como ele disse, talvez eu não tenha mesmo noção e ele também não. Mas, no meu caso, é bom não tê-la para não me achar melhor do que sou e também para me surpreender, quando acordar de uma cochilada.


Magna Santos

5 comentários:

Dimas Lins disse...

Já ia comentar este artigo, após o outro, quando fiquei sem internet.

Amor é uma coisa doida. Imagine de filho. Hoje, minha filha, que só tem um ano e dez meses, ia descer para brincar com as outras crianças, quando voltou correndo da porta para me dar um beijo.

São pequenas coisas, como essa e a que está escrita no texto que faz a gente depositar esperanças neste mundo velho e enfadado. E assim, com essas coisas mínimas, me passa logo pela cabeça, e há desculpa para não ser feliz?

Dimas Lins

Anônimo disse...

É Cara Comadre, ainda bem que isso nós temos, uns aos outros.E acho que é quase tudo. Um colega certa vez me disse que os nossos descendentes são o nosso legado para a imortalidade do nosso nome. Acho que vai ficar bem escrito ...
Um abração Halano.

Magna Santos disse...

Não, Dimas, não há mesmo desculpa. As "pequenas" coisas enchem o dia, o coração, o mundo. Somos seres, de fato, abençoados diariamente. É bom demais viver!

Cumpade, a tua resposta à foto que te enviei diz tudo: ainda somos daquele jeito. Crescemos e junto com este crescimento está o que foi plantado. É muito bom saber que os novos brotos estão entendendo a mensagem e também seguem firmes, escrevendo suas próprias linhas de forma tão bonita.

Obrigada, mais uma vez.
Abração.
Magna

Clenes Mendes Calafange disse...

Mamá!! Que texto lindo! Imaginei toda a cena!

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Querida amiga.


Palavras plenas de verdades,
e de certezas preciosas.
Palavras que já dizem tudo,
e que são sentidas
pelo que de melhor existe
na vida,
o coração.

Que haja sempre em
teu coração espaço
para os sonhos.