segunda-feira, 9 de agosto de 2010

ESTRELA-GUIA

Vi um menino aprendendo a andar, pisoteando no ar em busca de equilíbrio. O pai lhe falava: "isto, filho, isto! Venha, meu menino, vamos". Mãos pequenas seguravam uma imensidão de alegria. Estava seguro. Na verdade, ali nem sabia o que era insegurança. Não aprendera ainda esta palavra, nem conhecera esta sensação, a não ser na hora do parto. Desde que sua mãe lhe segurou, pronto, o mundo havia voltado, se aquietado, posto fim aquilo tudo que ele não sabia nomear, mas que o expulsava de um lugar tão quentinho...

Estava ali agora, noutro lugar quente, seguro: as mãos do seu pai.

O gramado lhe convidava a correr, mas não podia ainda. Dois passos e buft. Às vezes, até achava engraçado quando caía, mas os olhos maternos aumentavam tanto de tamanho que ele intuía ser algo perigoso. E o pai: "levanta, filho, vem cá!". Então ía cheio de vontade.


O sol lhe aquecia a pequena cabeça. As mãos lhe seguiam também os passos e os pés lhe pareciam tão preciosos que, vez ou outra, tinha a vontade de retomá-los na boca. "Pare com isso, meu filho!".

Brincadeiras na tarde inteira - ele e o pai - fizeram o relógio correr e o mesmo sol deitou-se para dormir, colorindo diferente o céu, antes tão azul. Que mundo grande este! Enorme! Terra de gigantes!

E o pai a lhe rodear os passos, aproveitou para lhe mostrar a primeira estrela. E ele, menino, a enxergar duas estrelas bem grandes...nos olhos do pai.


Magna Santos

19 comentários:

Arsenio disse...

Magna, eis que me faço devoto cativo do blog.
E por falar em estrelas, sol, céu, infância, lembraça e pais & filhos, seus posts me animam a mandar-lhe esse trecho de Affonso Romano Sant’Anna, que está entre nós, e estará semre:

“certa vez, como os irmãos
pusessem em mim trinta apelidos
querendo me degradar a todo custo

o pai notando-me a tristeza,
levou-me pro quintal
entre couves e chuchus:
mostrou-me Júpiter, a enorme estrela
e outras constelações: peixes touros,
centauros, ursas maiores e menores.

Tudo voltou a brilhar em mim
estrelas que com ele eu distinguia
e desde aquela noite
nunca mais pude encontrar”.

Luna Freire disse...

Brindada com duas pérolas: a sua e a do Arsênio.

Srª Mendez-Calafange disse...

Magna, eis uma das cenas ou momentos que eu acho dos mais lindos esse que você descreveu. Quando um filho é guiado em seus primeiros passos pelo pai é uma das cenas mais lindas de se ver. E aqui digo pai mesmo e não a mãe, porque a mãe é de outro momento. O pai é desse momento simbólico de equilibrá-lo a partir de seus primeiros passos, sabe? De segurar-lhe as pequeninas mãos e encorajar-lhe os passos desde então - e a partir de então - para o futuro. Também concordo com a Luna Freire, pois fomos brindados de duas formas: por você e pelo Arsenio. Beijos, linda amiga!

Magna Santos disse...

Arsenio, e eu virando devota cativa dos teus comentários. Agora não tenho mais inveja de Samarone, muito menos dos seus cabelos ao vento(rsrs). Esta safra de jóias que tu ofertas é mais uma prova certa de quão tua lavoura é farta. Que presente!
Ah, estrelas...vocês existem também nas palavras compartilhadas, nas palavras-pontes, como diz Luna Freire(Fabiana Coelho). Então sou concha, Fabiana? À deriva, talvez, ou quem sabe com o leme quebrado, porque "viver não é preciso".
Sim, Clenes, borboleta - filha de passarinho - o pai guia, sustenta, ilumina, levanta, é tudo isto (e muito mais) que tentei ilustrar. Através dos seus olhos, aprendemos a olhar o mundo.
Muito obrigada mais uma vez.
Abraços fraternos.
Magna
Obs.:Arsenio, fiquei com vontade de ouvir este poema na voz de Maria Bethânia. Não sei se você gosta, mas ela tem um talento particular para declamar poemas.

Arsenio disse...

Magna, Vou te dizer. Bethânia recitando Pessoa, por exemplo, éúnica. São nessas horas que a gente enfrenta dilúio, enxurrada, e por um instante renovamos a crença na humanidade. O Poema em Linha Reta declamado por ela, num show que tive a chance de assistir em São Paulo incrustrou-se na minha cabeça. Ressoa até hoje.

Obrigado pelo carinho de vocês.

Abraços

Marina disse...

Que lindo, Magna. Sabia que encontraria no seu blog um lindo texto digno do dia dos pais.

Beijos.

Luna Freire disse...

Eita Magna, tu é f... enchestes meus olhos d'água. Obrigada por tua quarta cena!

Magna Santos disse...

Arsenio, exatamente, Pessoa na voz de Bethânia é pra acabar com um. O que me pegou foi "O guardador de rebanhos - VIII", ou, como chamo, 'o menino Jesus'. Muito bom. Me disseram que ela estará aqui em setembro.

Marina, que bom que gostou. Este tema é algo que me toca muito, você deve ter lembrado dos textos de agosto passado que, pra mim, foram uma tentativa de suprir todas as palavras.

Fabiana, adorei o "f..."! Obrigada. Como não entrar nas tuas cenas, se tu te faz tão próxima? Certa vez, escrevi em Estuário, que me sinto esquisita quando pareço conhecer gente que, de fato, não conheço. Sou matuta, minha irmã, esse negócio de internet ainda é um ser extra-terrestre pra mim.

Olhe, minha gente, recomendo o documentário "Uma noite em 67". Pra quem gosta de MPB...o documentário traz imagens da época, entrevistas da época e atuais, simplesmente, uma delícia. Divertidíssimo!

Abraços.
Magna

Luna Freire disse...

Magníssima: a Rede de Bibliotecas Comunitárias está marcando com todos os blogueiros conhecidos o nosso blogaço. No dia 19 de agosto, todos nós (Samarone, Inácio, eu, Homero Fonseca, e mais uma porrada de gente boa) postaremos notícia sobre a campanha de doações à rede. Desta vez, não se trata de livros. Mas de grana para coisas básicas, como retelhar a bilioteca do Coque, por exemplo. Tem mais informações no blog da Rede: rededebibliotecascomunitarias.wordpress.com. Te esperamos nessa, tb. E se vc puder espalhar isso aí entre teus conhecidos blogueiros, a gente agradece. Xêro grande.

Anônimo disse...

Ser Pai é um divisor de águas, o que antes era só, agora me acompanha para a eternidade, vai além do tumulo. A paternidade é o que nos deixa marcado para a imortalidade. É doce a maioria das vezes, por outras salgada, algumas amargas, mas nunca insalubre. Nem só de pão vive o homem, vive de sonhos e para os filhos. Agora e mais que nunca somos o exemplo para nossa maior obra, nossa maior responsabilidade: iniciar os passos de um cristão.
Halano.

Anônimo disse...

Oh Magninha, só mesmo você para me transportaar para um futuro tão ansiado. Adorei! Já imaginei a cena. Agora tenho que enxugar as lágimas,dei para isso agora. Bjs enormes

Beta Martins disse...

Magna
Relembrando a descoberta das primeiras estrêlas...Não ha felicidade mais genuina;pai e filhos !
Bjão amiga
Beta

Zanelli Gomes Alencar disse...

Não sou blogueiro ( já tive um , mas o coitado está abandonado no éter da internet),mas gostaria de participar deste encontro mencionado por Luna Freire no dia 19/-8/10. No blog de Samarone já fiz uma sugestão para ajudar a Biblioteca do Poço da Panela...não tive resposta....onde ocorrerá o encontro? é permitida a entrada de penetra...qualquer indivíduo interessado em biblioteca pode ir? ou será apenas para blogueiros "militantes" .
Magna, parabéns pelo blog....vc escreve muito bem...é muito agradável ler o que vc escreve....acho que visitarei sempre este espaço......

Magna Santos disse...

Zanelli, pelo que entendi, não será um encontro, mas um dia (19.08), quando todos os blogs (que quiserem, claro)postarão sobre a campanha. Pena você não ter mais blog, porém participar divulgando junto aos amigos através de emails e outros meios, quando terá o número da conta para depósito e formas de ajudar o pessoal.
No Palavras-pontes, Fabiana Coelho (Luna Freire) já publicou sobre a campanha e tem alguns posts que falam sobre a Biblioteca Popular do Coque, além do link aí do lado direito. É um trabalho muito bonito que está sendo feito na periferia de Recife e região.
Obrigada pelo interesse e por tuas palavras. Sementeiras surgiu apenas para que as palavras pudessem ser plantadas, visando o bem e os comentários sempre têm seguido este caminho, graças a Deus.
Abraço.
Magna

paulinho disse...

Depois das reminicências da adolescência, vem estas observações e vivências tão terna do que é ser´pai e mãe. A transmissão da segurança, as expectativas dos desafios, principalmente do "Andar".Adorei a metáfora, posta com tanta singeleza que é peculiar a você, minha tão querida e amada amiga.

Magna Santos disse...

Cumpade, creio que essa responsabilidade seja a maior de todas.

Beta, primeiras estrelas, primeiro tudo! Está aí Seu Carlos para contar a história.

Aluada, como te disse: são vocês amanhã.

Paulinho, já te falei por telefone, mas é sempre bom lembrar: obrigada.

Abraços a todos.
Obrigada.
Magna

lucilda disse...

Tantos anos se passaram e descobri num simples gesto de um “clique com o mouse”, num teclar no “enter”, uma forma de te conhecer melhor. Foi na SEMENTEIRAS que aprendi ainda mais a admirar você.
Sei que sou considerada a “sem juízo” dessa família de irmãos meio primos, dessa família meia misturada no parentesco, mas, saiba que por trás de tantas historias doidas da minha vida, como aquela, da escova no cabelo e das minhas brincadeiras que muitas vezes servem pra esconder as minhas tristezas, não me impedem de admirar a beleza desses versos de SEMENTEIRAS.
Parabéns por retratar tão bem tantos acontecimentos e sentimentos, que sei, vieram do fundo do seu coração.
Que Deus derrame sua benção sobre você e envie Seus amigos para te acompanhar e te dar cada vez mais inspiração.
Receba meu caloroso abraço.
Lucilda Freitas.

Magna Santos disse...

Lucilda, criatura de Deus que tanto já me fez rir, hoje quase me faz chorar.
Sim, "família misturada no parentesco", tanto que acabou virando história aqui no Sementeiras(vide "de quatro em quatro anos"), aliás, o que não falta é história pra contar.
Mulher, sempre temos algo que não tem muita graça, que está meio capenga, precisando de algumas palavras ou simplesmente do silêncio. Graças a Deus, somos capazes de rir de nós mesmas, das situações da vida. Se um dia perdermos isso, estaremos fritas.
Adorei ter recebido teu comentário, fiquei emocionada mesmo.
Obrigada pelo carinho e que Deus possa abençoar todos nós, ou melhor, que deixemos cair sobre nós as Suas bênçãos.
Beijos.
Magna

Dimas Lins disse...

Magna,

Lindo. Sem palavras, repito as tuas:

"E o pai a lhe rodear os passos, aproveitou para lhe mostrar a primeira estrela. E ele, menino, a enxergar duas estrelas bem grandes... nos olhos do pai."

Precisa dizer mais?

Dimas