quinta-feira, 26 de agosto de 2010

REPUBLICAÇÃO

Sementeiras nunca republicou nenhum escrito, mas hoje, quando completa dois anos de existência, em vez de coisas novas, gostaria de compartilhar um poema antigo que os leitores mais recentes talvez não tenham tido oportunidade de lê-lo e ao qual dedico especial carinho. Mantive a forma original, apesar do perfeccionismo me dar muita vontade de modificá-la. Na verdade, meu coração, depois que o escolheu, sofreu por outros que lhe são por demais preciosos, como é o caso de Super-herói de botas e tantos que falam dos meus amores mais caros, outros que retratam encontro com gente "desconhecida" numa Sala de espera ou as muitas palavras que saíram quase num suspiro ao ver as fotos do generoso Pachelly Jamacaru, como foi em A menina e o espelho da serra, lembrando-me também Quando as palavras salvam. Contudo Doce Teté teimou em permanecer e aqui fica, porque não tenho mais energia para resistir.

Teté foi uma pessoa que cuidou um pouco
da minha infância, a quem se poderia nomear de babá, mas não, eu a chamava simplesmente de Teté e ainda a chamo, apesar da distância e da minha ausência desleixada. Agradeço a Deus por tudo e a vocês o meu muitíssimo obrigada por todas as sementes, por toda a plantação partilhada até aqui. Muito em breve teremos escrito novo. Que Deus continue abençoando a todos!


DOCE TETÉ

Lembro do cheiro pela casa
Impregnando as paredes de taipa

O chão de barro batido
Parecia vestido de rica cerâmica
O café me chegava tão doce
Como eram doces os sentimentos teus
E eu dizia satisfeita:
“É o melhor café que alguém já me deu”.
Café
Que pendia no pé da porta da tua casa
Café
Pilava pilava...
Preto como tu
Para uma branca como eu.
Acho que tenho a alma preta, Teté
Acho que ela foi pintada por ti
Enquanto eu tomava café
Enquanto tomavas conta de mim

(E mamãe nem percebeu
Foste esperta: nem ela nem eu).

Hoje tenho a negritude
Que nem o candeeiro conseguia espantar
Tenho a escuridão
Que graças a tua mão eu conseguia acalmar
Negritude, Teté
Que um dia, sem sucesso, a lepra te quis roubar
Negritude sadia
Quente, leve, destemida
Assim como teu café
Forte, doce...do pé.
Deste ficou o sabor
Guardado na minha lembrança
E de ti, a minha crença
Que tenho com emoção
De que a tua negritude
Está passada e registrada
Pintada no meu coração.



Magna Santos
*Escrito em 10 de novembro de 2003.

19 comentários:

Dimas Lins disse...

Magna,

Em primeiro lugar, parabéns pelo aniversário de Sementeiras. O Estradar, de um aniversariante para outro, manda de lá um abraço. Coincidência boa esses dois aniversários tão próximos. O meu presente para o aniversário do Sementeiras você já sabe qual é. Tenha apenas a paciência necessária, que são muitas tarefas pela frente, mas, um a um, vou conseguindo vencer. Esta semana, por exemplo, termino mais uma etapa.

quanto ao poema, é lindo, lindo mesmo. Você escreve bem demais, já te disse isso.

Da minha parte, fico orgulhoso de estar sempre por aqui, lendo e lendo.

Abraços,

Dimas Lins

Beta Martins disse...

Magna
Parabéns pela "Sementeira "Pelo poema ,o texto ,a foto (demais esse seu penteado, esse cachinho no meio da cabeça...,cuidado q a rede Globo gosta de imitar as novidades),as "tetês" de nossas vidas (tb tenho uma q se chama Conceição)de tão doces nem parece q carregam no sangue as agruras dos seus antepassados nas senzalas...
bjão
Beta Martins

Beta Martins disse...

Corrigindo ,Sementeiras"(Magna eu to qse cega ,esperando o óculos novo q n chega kkk)
Bjão Beta

Pachelly Jamacaru disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pachelly Jamacaru disse...

Todas as sementes vingam no SEMENTEIRA!

PARABENZÃO pelos dois aninhos!, extensivo a sua criadora!

Abraço amiga.

Magna Santos disse...

Ah, Dimas, você é uma das pessoas que me mostrou o quanto vale a pena a escrita e a coragem de publicar num blog. Estradar, como irmão mais velho, tem me ensinado muito. Fico muito feliz por esta amizade ainda incipiente, mas que já demonstra tanto carinho e consideração gratuita. Muito muito obrigada mesmo! Minhas mãos já estão abertas para receber o presente, mas, não se preocupe, eu tenho paciência.

Beta, danada, não fala da foto (do email). Mamãe teima em culpar Teté pelo penteado, mas não acredito numa só palavra. Sei não...criança sofre.

Pachelly, obrigada, amigo. Que continuemos nossa plantação. Tuas fotos terão sempre lugar especial aqui em Sementeiras.

Abraços.
Magna

Arsenio disse...

Magna, parabéns pelo Sementeiras. Sou cativo e logo dou-lhe um grande abraço virtual.

Sobre o poema, bom, eu gostei tanto, que ele me lembrou ninguém menos que Manuel Bandeira.

Um lirismo coloquial, sadio, sem pompas, apenas o coração mesmo e uma imensa vontade de escrever. Uma grande vontade de gostar.

Beta Martins disse...

Mulher Magna ,aquele cachinho hoje é "Cult"...Bjão
Beta

Magna Santos disse...

Beta, penteado 'cult'? Sou mais aquela definição que te dei. Cá entre nós, me lembra muito um livrinho infantil que adoro: "Da pequena topeira que queria saber quem tinha feito cocô na cabeça dela".

Arsenio, muito obrigada. Com uma lembrança dessa, meu amigo, só me resta dizer que a casa de Teté ficava em Pasárgada. E que Deus abençoe Bandeira!

Todos vocês não sabem o quanto é bom lê-los. Não pelos elogios, porque ando mesmo temendo essas coisas que nos tentam a nos fazer pensar melhor do que somos. Mas, pelo retorno, por saber que as palavras, de fato, cumprem com a missão que é passar afeto, amor. Esta sim, a mais bela semente.

Fiquem com Deus!
Beijos.
Magna

Obs.: agora, seguindo a lembrança de Arsenio, deixo este poema de Manuel Bandeira:

TESTAMENTO

O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros — perdi-os...
Tive amores — esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.

Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.

Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.

Criou-me, desde eu menino
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!

(29 de janeiro de 1943)

Arsenio disse...

E ele só precisaria desse poema para tornar-se importal. Só desse. Mas, generoso, nos deu inúmeros exemplares de genialidade. Salve Bandeira.

Bjão, Magna.

Srª Mendez-Calafange disse...

Magna, minha querida amiga linda, não sei se já te disse assim com todas as letras, mas você realmente escreve muito bem. Tenha coragem e continue a publicar suas coisas lindas para que nós continuemos a apreciar.

Parabéns ao SEMENTEIRAS! Que ele continue com sua missão de semaear e cultivar suas palavras tão belas. Beijos!

Magna Santos disse...

Ah, borboletinha, muito obrigada. Continuo sim. Tive uma conversa com Deus antes de criar Sementeiras. Nem sei se todas as palavras que escrevo aqui são mesmo só minhas. Somos tantos e tão bem acompanhados que é difícil saber quando estamos sozinhos, não é? Se Ele nos dá a condição de escrever é porque é para escrevermos e não para enterrar o instrumento na terra. Em vez de enterrar, plantemos. Assim, enquanto for vontade Dele, esse terreno estará por aqui, plantando e colhendo no tempo da vida. Deus é Pai!
E você continue também, Diariamente precisa mostrar as palavras que saem da tua mente de modo limpo, franco e belo, como vens fazendo.
Beijão.
Magna

Anônimo disse...

Magna, tás boa??? (rsrsrsrsrs)

lindas de novo as palavras, como sempre ! e parabéns de novo!!!
beijos!!!

Cynthia

Magna Santos disse...

Cynthia, obrigada, minha amiga.
Beijão bem grandão pra ti.
Magna
Obs.:ía esquecendo:tás boa? Eu tô.

Hérlon Fernandes Gomes disse...

Querida Magna,

Que Sementeira continue a aniversariar por muito tempo! Tenho recebido muito alento dos seus escritos e da sua presença sempre sublime no meu blog! Você é mesmo impregnada pela alma do Cariri! Que belíssimo texto! Fiquei deveras emocionado.
Abraços.

Hérlon Fernandes Gomes disse...

Ah! Alguns lembraram de Manuel Bandeira - grande lembrança!
Eu lembrei de Patativa do Assaré, cantando reminiscências de sua saudosa Mãe Preta, com o gosto que somente nosso Cariri tem. Segue um trecho:

"Quem pela infança passou,
O meu dito considera,
Eu quero, com grande amô,
Dizê Mãe Preta quem era.

- Mãe Preta dava a impressão
Da noite de iscuridão,
com seus mistero profundo,
Iscondendo seus praneta;

Foi ela a preta mais preta
Das preta qui eu vi no mundo.

Mas porém, sua arma pura,
Era branca como a orora,
E tinha a doce ternura
Da Virge Nossa Senhora.

Quando amanhecia o dia,
Pra minha rede ela ia
Dizendo palavra bela;

Pra cuzinha me levava
E um cafezim eu tomava
Sentado no colo dela."

Hérlon Fernandes Gomes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Magna Santos disse...

Hérlon, muito obrigada. Esta tua lembrança é muito especial para o meu coração. Já contei aqui do dia em que conheci Patativa. Pois bem, depois da visita, ainda emocionados pelas palavras do poeta, colocamos o cd por ele autografado e descemos a Serra do Araripe...todo aquele verde do Cariri, sua beleza tão própria... a emoção encontrou seu auge, quando ouvimos Mãe Preta: foi inevitável o choro de todos nós naquele momento. Cheguei em Recife impressionada, só depois soube que Patativa "rezou" Mãe Preta na Eco 92, fazendo chorar outros tantos.
É isto, meu amigo, sigamos.
Seja feliz onde estás.
Apareça, você faz falta.
Abração.
Magna

Magna Santos disse...

Ía esquecendo o link, onde podemos ouvir Patativa recitando Mãe Preta. Fica aí para você e os demais:
http://www.youtube.com/watch?v=K4HO_TXBdBc