segunda-feira, 9 de março de 2009

10 ANOS

Ela chegou numa tarde de quarta-feira. Não era de cinzas, ao contrário, eu trabalhava bastante e sequer pude assisti-la chegar a este mundo. Porém, quando a vi no outro dia, a reconheci. Sua mãe nem sabe disso, mas eu segurei sua filha em sonho. Foi numa noite feliz, anos atrás. O sonho não lembro direito, apenas do exato momento em que a segurei nos braços. Acordei com um amor tão imenso por aquele bebê, que a vontade de encontrá-la logo e adotá-la era grande, pois só pensei que seria minha cria, como num sonho premonitório, algo assim. Nunca vou esquecer deste sonho e da alegria que senti quando a revi e observei aqueles olhinhos puxados que agora dormiam depois de um susto na família toda.

Ah, essa menina nunca escondeu ao que veio, assim como seu irmão. Gente pequena que tanto nos diz, desde o primeiro momento. Quando seu coração deu ares de cansaço, prestamos mais atenção ao nosso. Nem sempre um coração sente como se deve e o nosso andava descompassado com a vida. Parece ter sido necessário ver alguém muito amado ser cortado no peito para podermos acertar nossas próprias válvulas, nosso próprio ritmo. Como disse há 9 anos atrás, aprendemos com ela que dificuldade não é sinônimo de impossibilidade, mas de oportunidade.

A vida seguiu e já são 10 anos de muita intensidade, muitas lições. Sua presença nunca passa despercebida, nem quando está em silêncio, distraída ou fazendo-se distraída, assistindo aos seus desenhos favoritos, lendo um livro...um olhar; um sorriso; uma careta; um 'eu te amo' sem datas especiais; uma 'bença' depois de um bom dia ou, simplesmente, depois de um silêncio ou de um beijo; um grito para acordar a alegria; uma intimidade com o 'pessoal do céu' difícil de ver em alguém.

Outro dia ela se empolgou ao microfone e me surpreendeu dizendo: “vou cantar uma música que titia fez”. E a plenos pulmões: “alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado...”. Alguém brincou na hora: "sua tia é bem velha, hein!" ao que escutou uma resposta que talvez não desejasse, embora se esperasse daquela que cantava. Ah, florzinha, bem que eu queria ter feito esta canção...certamente, teria feito para ti, como fiz aquela outra que fala o teu nome. “Alecrim, alecrim miúdo que cresceu no campo perfumando tudo”. Sim, teria feito para ti. “Foi meu amor que me disse assim que a flor do campo era o alecrim”.

Mas, já é março, minha flor, e mais uma vez o 'parabéns pra você' surge como uma lógica na tua vida: PARABÉNS PRA VOCÊ! Parabéns! É, de fato, uma data muito muito querida. Felicidades? Foi o que você nos trouxe desde o primeiro momento e de um modo tão verdadeiro que alguns de nós levaram um tempo para assimilar. Você um dia há de nos perdoar, mas é que não estávamos acostumados a tanto. Até sonhávamos, contudo, a ilusão era pensar num lugar perfeito, mas distante, cheio de flores e estrelas a cintilar. Porém, esse lugar nós o encontramos todo dia...é tão simples e tão perto! Com todos os humores, cores e paisagens diferentes...esse lugar, florzinha, é o teu abraço.

Que Deus te abençoe, te proteja e te ilumine sempre, minha amada filhinha do coração!


Magna Santos

5 comentários:

tesco disse...

Gozado isso, essa identificação com determinada música. Eu cantava frequentemente para minhas sobrinhas, uma música de Festa no céu, da Disquinho, Acho que é do Radamés Gnatali: "Quebrei três potes, quebrei três potes, com um coco só, com um coco só". Um dia, ao ouvir o disco, elas gritaram: "Olha, a música do tio Beto!" Rarrarrá! Uma das sobrinhas é a Butterfly. _Beijos.

Lídia Márcia Lima de disse...
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Lídia disse...

Magninha!

Que linda homenagem. E que linda história do sonho que nunca foi contada. Parabéns pela capacidade de dizer tudo em um único texto e obrigada por compatilhar conosco as suas histórias, dores e amores, tristezas e alegrias. Obrigada por semear e plantar em nossos corações.

Beijos.

Lídia.

Anônimo disse...

É incrível como seus textos esbanjam emoção, carinho, ternura. Parabéns!Anna Beatriz

Luziara disse...

Liiindo Magna,
Isto é coisa de mãe, que para ser não precisa sair do nosso útero, mas do coração e... sabe lá Deus,de que vida.
Parabéns por pela capacidade em escrever de forma tão simples e bela.
Beijão Lu