sábado, 14 de março de 2009

COMO PASSARINHO

Escutava algumas pessoas conversando sobre os escritores e apenas observei. Pensei como, às vezes, é difícil fazer qualquer coisa sem a urgência alheia de lhe enquadrar em um padrão ou categoria específica. Espero estar longe disto por muito tempo ainda. Sequer sou escritora, talvez apenas desenhe palavras, ou melhor, as plante. Por enquanto, vou seguindo sem interesse em nenhum rótulo para algo que faço por um misto de necessidade e prazer. Quero escrever como eu voaria se tivesse asas. Um pequeno passarinho.

Cada um tem seu delírio, este é o meu: voar através das letras, das palavras. Elas - as palavras - são minhas asas e o meu voar. Através delas poderei ir aonde quiser, pousar no ombro que me acolher, planar onde o céu for mais azul, ou quem sabe, furta-cor, visitar outros ninhos, outras paragens, mergulhar na imensidão desse infinito que são os pensamentos, melhor, as palavras. Voltarei também quando me for conveniente, sem data para chegar, porém pousarei macia, sorrateira, sem fazer barulho, pelo contrário, no mais profundo silêncio, como quem chega em solo sagrado, onde as sementes germinam. Trarei ainda novas sementes, colhidas a custo deste muito voar. Todo passarinho é semeador. Assim também quero ser de palavras. Sorrirei algumas vezes, noutras uma lágrima me fará companhia, fazendo-me lembrar do sal dos oceanos onde estive.

Visitando outros ninhos, também assistirei a vôos distintos, inclusive, ao que cada um promove nos demais; neste universo de blogs, através dos comentários. Como será bom lê-los! Como já é! Serão como brisas em pleno vôo, ou mesmo, um mudar de foco, como um companheiro que te diz coisas do tipo:

"ei, olha para aquele lado, vê que beleza!"

"vamos naquela colina, dizem que é interessante"

"você passou por aquela árvore e nem observou"

É, sem dúvida, uma lição de humildade importante de apreender para ser melhor, para crescer. Palavras libertam, mas também podem aprisionar, como num vôo infeliz, quando o passarinho é capturado na armadilha do predador. A diferença está em este ser interno e a armadilha, extremamente camuflada. O predador mais comum talvez seja a vaidade, a arrogância a abafar o crescimento de outras sementes mais generosas, mais benfazejas. As armadilhas? Ah, não conheço muitas, ainda estou explorando e, portanto, em perigo. Mas, desconfio de algumas: a fidelidade à estética, mesmo desconsiderando o respeito ao outro, como também, a ânsia de corresponder a expectativas de terceiros, seja por qual motivo. Estes são exemplos de armadilhas bem maquiadas.


Finalmente, apesar de tudo isso, confesso, não sei o que é escrever. Talvez eu tenha acabado de cair em uma armadilha: a do falar demais, explicando-me demais. Definições podem aprisionar. Certo estava Quintana: "quando deres opinião, nunca deixes de escrever a data...". Portanto, já está registrado o dia de hoje. Anunciando que posso mudar amanhã, mudarei amanhã. Quem sabe as águas de março da minha querida Recife possa lavar algumas sementes, antes de plantá-las. Não sei bem o que germinará, nem como, porém me esforçarei para ser o melhor...com beleza e perfume.


Magna Santos

3 comentários:

manzas disse...

Gostei da maneira como escreve!
Belo texto!

Nos vastos arejados
Campos do meu ser
Corre a sombra de uma voz
Pelos prados da mente…
Entre montes de razões
E rochedos do enlouquecer
Suplica a conflituosa
Tentação inconsciente…

Grato pelo
Belo comentário
No meu blogue…
Aproveito para desejar
Uma agradável semana!

Bem-haja!

O eterno abraço…

-MANZAS-

Laila disse...

Com certeza será sempre bem-vinda quando quiser pousar no banquinho solitário em que me sento.
Foi um vôo maravilhoso aqui no seu blog, e voltarei muitas vezes.
O maior presente, entretanto, foi ver uma citação do Quintana que pra mim era desconhecida até agora.
Não conseguiria encontrar nenhum poeta melhor que ele para expressar toda esta leveza de texto.

Luna Freire disse...

Magna, só respondendo:
Luna Freire é meu pseudônimo na rede. Em verdade, eu me chamo Fabiana Coelho, e sou jornalista no Sindicato dos Bancários. Um abraço.