terça-feira, 8 de setembro de 2009

ALIÁS

"Aliás...". Foi como ele começou a carta. Já parecia teimar consigo mesmo ou com alguém que julgava contrário ao que pretendia expor.

Um tanto de displicência nas questões práticas da vida não escondia como de fato era metódico e articulado para alcançar seus objetivos. Parecia uma contradição ambulante de tão inconstante que se fazia com seus afetos, seus relacionamentos. Mas, não era nada disso. Queria, no fundo, um amor para ficar 'pro resto da vida', como intimamente dizia a si mesmo e só a si mesmo. Queria de verdade um amor tranquilo, sereno e apaziguador para acalmar as inquietações que trazia no peito, como se, de fato, isto dependesse de alguém e não de si. Era mesmo um grande inseguro pras questões do coração, não atinava para os próprios desejos quando diante de quem amava. Demorava demais a reconhecer um grande amor. Era isto. E só.

Ah, como começar uma carta dessas? Como voltar atrás? Ela não aparecia há exatos 10 dias...um telefonema, uma mensagem, um recado, nada. Nunca se sentiu tão impotente diante de uma ausência. Sentia-se igual menino orgulhoso, totalmente sem jeito diante do vacilo. Pois bem, pensou, já era "homem feito, maduro, senhor de si". E repetiu isto várias vezes como uma espécie de mantra, na tentativa de convencer a si próprio.

Amassou o papel com o 'aliás' ridículo. Distante demais seria um papel e algumas palavras. Riscos demais para palavras erradas. Pegou o telefone e sem pensar discou o número. Ela atendeu no primeiro toque, reconhecendo a hesitação do outro lado da linha. Já o conhecia há bastante tempo para identificar até sua respiração, mas estava cansada e decidiu também guardar silêncio. Foi então que aquele homem feito...feito menino falou com toda convicção que pôde reunir nos 10 dias de forçado exílio:

_ Sim, eu aceito. Aliás, se você ainda me quiser - resolveu consertar.

E foi assim que um menino novo nasceu, apesar de piegas, apesar de ridículo. Ridicularmente feliz...aliás, como são os finais felizes.


Magna Santos

3 comentários:

Hérlon Fernandes Gomes disse...

"Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas..." O amor é o que dá sentido à existência, mesmo quando a gente não o reconhece como o mais perfeito; porque o ser humano é bicho insatisfeito, que não reconhece facilmente a plenitude das coisas - sempre pensa que numa próxima esquina encontrará alguém que se encaixe mais perfeitamente nas suas preferências, idealizações...
Adorei o texto!

tesco disse...

- Cartas de amor são ridículas?
- sim, se o autor a ler vinte anos depois.
- Ah, sim. Mas na ocasião, não são não, né?
- Aí não. Aliás, na ocasião emocionam muita gente. Até o velho coronel ordena, com os olhos molhados: "Deichi ele! Isso é coisa de apachonado mermo".
Aliás, de outro modo,de outra forma: A vida não é uma sucessão de aliás? Sempre estamos nos equivocando, sempre refazendo, sempre renovando, muitas vezes forçados, é certo, mas quem para na mesmice está morto. Aliás... _Beijos.

Magna Santos disse...

Hérlon e Tesco, sem dúvida lembrei de Pessoa após escrever sobre o ridículo, as cartas ridículas.
De fato, Tesco, a vida é "uma sucessão de aliás", graças a Deus. Este seu arremate refletiu com precisão o que as minhas palavras meio confusas pretendiam falar.
Obrigada, amigos, por comentários tão preciosos.
Beijos.
Magna