quarta-feira, 21 de julho de 2010

O LOUCO EMPOEIRADO

Costumava ler Gibran* como quem lê gibi, por diversão, até o dia em que parou no Louco. Viu-se nas ruas como o personagem a gritar e encontrar o sol sob os olhares perplexos da multidão. Viu-se como em uma miragem. Assustou-se! Jamais poderia dar-se ao inusitado, era contido demais, previsível demais. Nunca mais leu um livro sequer do poeta, nem O Profeta foi capaz de seduzi-lo. Nada.

Detestava surpresas e naquele dia, algo o angustiava. Os colegas de trabalho haviam prometido comemoração no seu aniversário. Logo ele que não era chegado a festas?! Deus do céu, nunca teve tanta vontade de faltar ao trabalho como naquele dia. Maldito aniversário que chegou. Poderia ter demorado um pouco mais. Pelo menos até se ambientar melhor no trabalho ao ponto de recusar qualquer convite sem perigo de ser classificado como esnobe. Agora estava sem saída. Teria de aceitar toda graça, qualquer cumprimento e festividade. Este era o preço por ter apenas 28 anos, estar numa terra estranha e vir ocupar a vaga cobiçada de alguém bem quisto.

O elevador demorava horrores, finalmente chegando para umas dez pessoas entrarem. Último andar não é brincadeira, demora outra eternidade. Passa pelo corredor numa rapidez invejável a qualquer esportista. Chega finalmente à sala, senta, suspira, fecha os olhos, antes de abri-los assustados com a primeira batida na porta. Outro suspiro, era apenas a servente que havia atrasado a limpeza diária. "Esse dia demorará a passar", pensa. Cuidou logo de pensar uma desculpa para o almoço. E para noite? Não terá como escapar, todos já sabem que ele vai direto para casa, não conhece ninguém ainda na cidade. Ele, que costumava ter uma resposta pronta nos momentos mais delicados da empresa, enrolava-se numa situação tão simples. É um homem precoce para trabalho, ascendendo muito cedo e rápido, graças a sua competência, dinamismo e senso de oportunidade, mas era devagar demais para o restante. Todos sabem de muita coisa sobre ele, desde que sua avó, em uma das viagens, resolveu aparecer de surpresa na empresa e conhecer, por conta própria, todos os seus colegas. Que vexame! Todos riram gostosamente com as histórias da velhinha moderna, enquanto ele disfarçava um sorriso amarelo com mil motivos para a avó se ausentar rapidamente.

Enquanto se perdia nas lembranças, o tempo passava. Já estava acostumado a fazer mil coisas ao mesmo tempo, sempre foi assim. Sua mãe não entendia como ele conseguia e o motivo disto, afinal, tudo sempre foi tão calmo, tão parado na sua casa. O tempo era abundante, mas o menino desde cedo estava lá, querendo ser centenas de gentes, revirando outros tantos para fazer do dia um dia produtivo.

Enfim, as horas foram passando, as pessoas entrando e saindo para resolver também mil problemas, expor outras tantas situações. Era um dia realmente daqueles. O almoço foi reduzido a um cafezinho e sem companhia. Aliás, que companhia? Nenhuma recordação, nenhum sussuro sobre a data, nada. Nenhum telefonema, nenhum email. Absolutamente nada. Cadê a comemoração prometida? Cadê os parabéns pra você? Cadê o dia? Acabou. O céu se pintou daquele rosa peculiar ao pôr do sol, mas, olhos fixos, observava apenas a pilha de papéis sobre a mesa. Voltou sozinho para casa, sem gritos, sem sussuros, sem velas, sem.

E o Louco empoeirado, esquecido na antiga estante.


Magna Santos

*Gibran foi veículo de muitas preciosidades. Parece ter vivido o que escreveu ou, seria o contrário, escreveu o que viveu. O fato é que por causa do seu compromisso, chegou a se prejudicar para não ser incoerente, conforme livro de sua amiga Bárbara Young(Gibran, esse homem do Líbano). Fica aqui um link para quem ainda não o conhece e tem curiosidade.

3 comentários:

Sandrio cândido. disse...

conheço bem o gilbran, desde o profeta até o poeta.
amei este texto.

Eduardo Trindade disse...

Loucos são às vezes os mais lúcidos.

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Querida amiga Magna

Hoje estou passando para agradecer
a sua amizade.
Amizade que torna a vida preciosa.
Que enche de cores as minhas palavras.
Que me faz ainda mais feliz,
com o afeto distribuído
a cada visita,
a cada comentário
e a cada palavra escrita
no livro dos meus dias.

Sua amizade me faz melhor.