domingo, 26 de setembro de 2010

PEQUENOS RECORTES DO MEDO

"Boi boi boi
Boi da cara preta
Pega esta menina que tem medo de careta"

_ Deixa eu dormir com vocês, mãe
_ Não, filha, vá para o seu quarto

_ Mas é escuro...

_ Por que papai está demorando?

Preciso aprender matemática.

E se a turma não me aceitar?

E se ele não me quiser?

Não posso perder este emprego.

E se o nosso amor não der certo?

_ Vindo com saúde, tanto faz menino ou menina.

_ "Boi boi boi...pega este menino que tem medo..."

E essa febre que não baixa...

_ Cuidado, filho, você vai cair!

Meu Deus, ele vai sofrer.

Eu não quero ficar sozinha.

Não quero morrer.

_ Meu Deus, quanta eternidade!



Magna Santos

12 comentários:

Arsenio disse...

Magna, os recortes apresentam uma face coloquial bacana; são pequenos dramas, vivências, recordações, lembranças.

O verso final é estupendo.
Apreende com exatidão todos os recortes postos na mesa.

"A vida que poderia ter sido e não"

Ou foi.

Ocorreu-me um poema de Alex Polari.
Breve. Mas igualmente um recorte ou corte, porfundo. Assim como os seus recortes.

"Idílica Estudantil

Nossa geração teve pouco tempo
começou pelo fim
mas foi bela a nossa procura
ah! moça, como foi bela a nossa procura

mesmo com tanta ilusão perdida
quebrada,

mesmo com tanto caco de sonho

onde até hoje a gente se corta."

Magna Santos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Magna Santos disse...

Arsênio, o poema de Alex Polari é muito muito bom!
Mais uma vez, obrigada pelas palavras. Nos recortes tentei construir este percurso que nos movimenta do nascimento a morte. O "se" que nos leva a especulação de como teria sido.
E assim, se também eu tivesse os conhecimentos de Dimas, teria colocado uma música que gosto muito pra embalar a leitura, chama-se "pequeno mapa do tempo" na voz de Belchior. Deixo pra ti um trechinho dela.
Beijão.
Magna

"...Eu tenho medo e já aconteceu
Eu tenho medo e inda está por vir
Morre o meu medo e isto não é segredo
Eu mando buscar outro lá no Piauí
Medo, o meu boi morreu, o que será de mim?
Manda buscar outro, maninha, lá no Piauí"

Josias de Paula Jr. disse...

Belo poema! Fica claro o sentido de mudança do tempo e no tempo; e a inopresença do medo, variando seus objetos ao longo do percurso.
Essa canção de Belchior a que tu se referes cairia direitinho...

Magna Santos disse...

Geó, só Dimas mesmo para fazer a façanha de colocar a música, pois com meus poucos conhecimentos, só sei mesmo escrever e imaginar.
Obrigada, poeta. Tua presença é sempre uma alegria.
E, olha, está dando um gosto danado de ver a movimentação em Inscritos em Pedra. Eu, que andava sem tempo nem inspiração, cheguei a me "obrigar" produzir alguma coisa, depois de tua ressurreição, como teorizou Dimas.
Abração.
Magna

Arsenio disse...

Magna, essa canção de Belchior é demais. Casou bem com tudo o que escrevestes. Foi bom lembrar dela.

bjão pra você

Dimas Lins disse...

Como bem disse Geó, no poema a gente sente a passagem do tempo, da infância que avança até velhice, do nascer, crescer e morrer. São dúvidas, reticências, medos que passaram ou há de passar por nossas cabeças.

Beleza, Magna.

Dimas

Magna Santos disse...

Dimas, medos, na verdade, que nos movem(ou paralisam), no final das contas. Sem eles não existiria vida. Creio que é por aí.
Abração.
Magna

Marina disse...

Lindos recortes de vida. Porque a vida nasce dos nossos medos.

Beijos, Magna!

Aivlis Sego disse...

"Meu Deus, quanta eternidade!"

Magna Santos disse...

É verdade, Marina, a vida nasce do medo e também do desejo, que é a sua outra face.

Silvinha, menina das palavras fecundadas, que passa sempre com leveza e doçura.

Beijos para vocês.
Obrigada.
Magna

Borboleta disse...

De volta!
Magna, Gostei do título que deste teu post. Estas são as situações de enfrentamento que temos quase que diariamente na nossa vida, desde tenra idade, como você exemplificou tão bem, até a vida adulta. E é impossível fugir disso. Mas são elas que nos ajudam a criar estratégias de robustez e fortalecimento. Ai de nós se não fossem elas. Seríamos como bichos da pele tão fina que ao sinal de qualquer "arranhão", sangraríamos por sermos tão frágeis.
Beijos!
Clenes