terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

INSÔNIA*

Houve tempo em que dormir era um grande privilégio ...
Houve?
Acho que esse tempo é agora.
Levanto-me, saio, sento, assisto
à TV
Ao computador ...
... à minha vida.

Espera ansiosa por um dia que não vem.
Esqueço que estou dormindo
Para me acordar em tempo.
Quanto tempo falta?
Quantas horas durmo?
Será que eu acordo?
Será que estou sonhando?
Seria um pesadelo?
Um sonho exótico
De um país vizinho,
Vizinho ao meu.
O continente está perto de ser deslocado
Como a África das Américas.
Quanto tempo levou?
Continentes estranhos
Sonhos distintos
Ideais distintos.
Sadios, absurdos.
Eram irmãos.

E o globo se põe a girar
E a hora a passar
Correr ou se arrastar.

Luzes apagadas no edifício vizinho
Lá, por certo, dormem
Serenizam, sonham
Se eternizam
Nesse tempo absurdo
Que não volta mais...
Quando o sol surgir
Vou perguntar:
“_Onde esteve
Que não aqui?”



Magna Santos

*Escrito em 2002.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

SEMENTE LIGEIRA

Esta semente deixo rapidinho, como escapulindo a mão ligeira da janela de um carro veloz que não pode parar. Tenho pressa. Mas, antes que pensem que retornei ao afobamento dos dias cheios (os quais acabam nos tornando, muitas vezes, cegos e surdos para beleza), sosseguem. Não é isto, aliás, os que virão, se Deus quiser, irei procurar domá-los com o chicote da paciência. Não se trata desta pressa, nem desta agonia.

Esta é apenas porque a palavra escrita me faz falta, parece levitar, borbulhar, por vezes morrer nas mãos, na língua dos dedos e isto tudo dá uma coceira danada. Melhor curar. Não custa nada pedir um computador emprestado, mesmo com a tecla do 'backspace' travada, o que ocasiona por diversas vezes ter que refazer frases inteiras. É, parece que o chicote da paciência anda ágil.Pois bem, estou aqui enquanto posso.

Assim, antes que o computador apague, eu queria que as palavras dissessem o quanto estou lavada pelo mar de Tamandaré, cujo sal parece adoçar a alma. Seria bom também dizer que andei com uma saudade danada de Renato Russo com sua voz de Elvis, suas letras inusitadas, rimando 'romã com travesseiro', articuladas diretamente com o coração da humanidade inteira, de uma juventude que tinha muito, mas muito amor por desejar. O mundo anda mesmo complicado para não valorizarmos a arte e andei soltando a voz, ao som do violão do meu filhinho do coração, sobrinho muito amado, que anda tocando tão bem ao ponto de não me acompanhar, mas sim me perseguir nas cordas.

Foi ótimo também pegar a estrada ao lado de um companheiro muito legal, cuja conversa precisou ser interrompida pelo bom senso, sob pena de, possivelmente, amanhecer o dia tagarelando. Quem sabe a tagarelice continue por email, se o endereço estiver certo. Passei, assim, da praia ao sertão, especificamente, cariri do Ceará. Em decorrência de uma atividade que não poderei declarar aqui, para não estragar uma certa surpresa, desde ontem ando rindo com lágrimas nos olhos. Uma coisa declaro: é muito bom poder ouvir palavras do coração, poder ver velhos irmãos se amarem tanto, apesar de tantas coisas, ou até mesmo por causa delas.


Encerro aqui esta semente remendada pelas ações involuntárias do teclado, antes que o chicote da paciência quebre e eu termine sem dizer que meu afilhado novo, mesmo que às vezes se pareça com Mr. Magoo, é lindo e parece ter gostado de mim, pois se cala nos meus braços. O que mais pode querer uma pessoa, senão fazer bebês calarem o choro e irmãos chorarem de emoção?


Termino então cumprindo minha promessa: estou mais velha e imensamente mais feliz.


Brejo Santo - CE.


Magna Santos

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

DEZEMBRO E FÉRIAS

Não sei que febre tem dezembro, só sei que todo ele tem um gosto de fim e de começo, de cansaço e de descanso. Reencontros podem ser seu forte, assim como os encontros, as despedidas, as falas desconsertadas pelo que não se conseguiu durante todo o ano. Consciências pesadas também dão o mote. Na hora do balanço, às vezes se enruga a testa e vê que poderia ter sido bem melhor. Aí vem o lugar das promessas, das juras e, consequentemente, dos planos.

Fecho o ano, graças a Deus, muito bem, mas não estou livre do ônus de viver um mês intenso, por ser curto para tanta coisa. Fora o tempo que encurta, os compromissos que aumentam, os encontros que acrescentam, o cansaço que não dá trégua, sobra mesmo é uma baita vontade de relaxar, tomar banho de mar, jogar o corpo numa rede e não pensar em nada, porque cabeça de cearense é grande, mas é só uma. Assim, sem tempo nem juízo para dizer mais nada além disso, novamente venho aqui em mais um dezembro para agradecer a todos a atenção, o carinho e tantas palavras bonitas que vocês me ofertaram por todo este ano. Realmente Sementeiras só me tem feito bem, pelo bem que tenho recebido generosamente de cada um aqui. Tenho aprendido muito. Obrigada! Que Deus abençoe a todos.

Estou arrumando a mala para entrar de férias. Deus é Pai e Ele fez o mar, o cajueiro, a areia, o céu, a lua, as estrelas, o vento, o sol...como boa filha, pretendo aproveitar todas estas coisas. Balanço do que foi 2009? O único balanço será o da rede que levo comigo. Voltarei, provavelmente, ainda em janeiro.

No próximo dia 06 saibam: estarei apagando as velinhas com muita alegria, recebendo todas as ligações possíveis do meu povo todo. Agradecendo mais uma vez por mais um ano, pela entrada nos "enta" que dizem ser pavorosa, mas creio ser tudo balela ou exagero de quem não é amigo do tempo; como ele é meu parceiro literalmente de todas as horas, vou passando junto com ele, cantarolando igual passarinho. Para mim é sempre uma enorme alegria meu aniversário e uma grande honra nascer no dia de Reis Magos; Belchior, Gaspar e Baltazar foram destemidos, perseverantes e sábios...uma verdadeira inspiração para minha alma inquieta. Um dia certamente irei conseguir dar as boas vindas a Jesus com tanta determinação como eles fizeram.

Enfim, voltarei, se Deus quiser, mais velha e mais feliz. Aguardem.

Que Deus abençoe todos vocês e seus familiares com muita paz, luz, saúde, amor e fé por todo 2010!

Um grande abraço!


Magna Santos

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

UMA HISTÓRIA DE NATAL

Tenho me emocionado com algumas mensagens recebidas, sobretudo, as que falam de Jesus; para mim, único e verdadeiro revolucionário, o modificador de vidas, a coragem e sabedoria por excelência. Embora o comércio queira inverter o sentido, creio que o Natal já é um grande presente. Soube outro dia que uma socióloga atéia(não lembro o nome) falou em uma palestra que, embora não acreditasse, não tinha como negar que, se a sociedade praticasse o que disse e fez Jesus, não existiriam os problemas sociais que enfrentamos (ou construímos). Lembrando disto e da mensagem do Cristo, conto uma história que me emocionou demais nos últimos dias. Recentemente, uma grande amiga, após algumas tentativas frustradas, passou em uma seleção para mestrado. Fiquei orgulhosa dela não pela vitória, mas pela forma como ela prestou todas as etapas de seleção, pela sua dignidade, busca, pela renúncia do egoísmo, o qual, infelizmente, ainda nos rendemos muitas vezes. Vitória e fracasso são passageiros, mas a forma como se vive cada uma dessas experiências, não. Enfim, é uma historinha real de uma menina verdadeira. Ela ainda não sabe, mas é protagonista de uma história de Natal:

Era uma vez uma menina que queria ser índia. Ela adorava o céu, as estrelas, o mar, ela amava a natureza e tudo o que há. Em torno dos indiozinhos, ela foi crescendo, olhava-os com encanto e uma certa curiosidade. Nasceu um pouco distante da realidade indígena: povo branco tem que crescer, tornar-se gente, colher frutos para depois plantar. Povo branco tem que sustentar-se em fortes pernas para debruçar-se apenas em uma cama para dormir. Povo branco nasce sabendo do seu destino, longe do sol, da chuva e do encanto dos mares. Assim ela escutava.

Pois bem, esta menina, para cumprir seu destino, teve que se ausentar da sua terra, amada pelos indiozinhos. Cresceu. Por um bom tempo esqueceu do encanto. Desencantou-se. Sofreu. Gozou. Em pleno Natal, povoou o seu mundo de belas meninas, falantes, comoventes, atentas e humanas. Sim, a menina era amiga do Natal e do Menino de luz. Em busca do seu destino, a menina branca esmurrou muros, derrubou paredes, construiu pontes. Precipitou-se em abismos, escalou torres e de lá viu que era muito pequena mesmo. Entendeu.

Tentou por várias vezes a vitória dos brancos. Fracassou. Sentiu-se frustrada, mas aceitou. Mais que isto, compreendeu. Havia quem estranhasse a aceitação, porém a menina branca, embora distante dos índios, lembrava da tribo: deveria plantar primeiro para depois colher; a fortaleza não estava nas pernas, mas nas mãos generosas para dar e humildes para receber; o destino não se espera, se constrói com mãos e coração unidos; a chuva é importante para lavar o espírito ressecado pela arrogância; o sol...ah, o sol é a luz que irradia tudo, assim como Deus. Sim, Deus, o Pai Criador, Único. Os indiozinhos, no fundo, sabiam que era único.

Os calos das lutas haviam lhe ensinado muita coisa, uma delas a de que era apenas instrumento. A menina crescia, trabalhava, buscava, estudava e tentava se encaixar no mundo dos brancos, preservando o mundo seu. Olhou para o seus pés e viu raízes e resolveu aproximar-se do sonho infantil, enfrentando uma luta de paz num mundo de guerra. Havia 13 postos de trabalho para muitas outras mãos brancas. Ela olhou todas elas com amor e, tendo como farol o Único, orou:
"todos são Teus filhos e eu não posso Te pedir que me escolhas em detrimento dos demais, além do fato de que todos se dedicaram e plantaram para colher. Escolhe dentre todos os projetos aqui representados por nós participantes, os 13 que irão Te servir, que verdadeiramente poderão contribuir com a educação e a sociedade. Eu não tenho como Te afirmar que o meu projeto é um deles porque eu não conheço nem os outros projetos, nem o amanhã, mas faz de acordo com a Tua santa vontade, em nome de Jesus, amém"*.

Neste momento, o sol veio morar em suas mãos e em seu coração. E, dentre os 13, Ele lhe deu o primeiro posto de trabalho, porque "os últimos serão os primeiros". Mais uma vez era Natal, mais uma vez a estrela de Belém cintilava no caminho.

Que Deus te abençoe, Lidinha. Que Deus te conserve a humildade e a vontade de servi-Lo sempre. Obrigada pela lição natalina.

A todos um Natal de Luz estendido por todo 2010!


Magna Santos

*Esta oração foi feita por ela antes da seleção.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

PASSARINHO

Como deve ser um coração de passarinho?
Igual as asas?
Como deve ser sua vida por entre nuvens...?

Libertário, quero te ter comigo
Já que não posso ser como tu

Mas, como sonhar é o possível
Me faz passarinho
Me deixa voar
Por entre as campinas
Do dia e da noite
Do luar

No céu estrelado
Quero flutuar

Como queria ter asas, meu Deus!
E ver o solo bem longe de mim
Como queria ter peito
Pra cantar todas as canções que soubesse
E as que ainda pudesse inventar

Bico de pena
Bico de aço
Bico de tucano
De gavião
Bico de bem-te-vi
Que já nasceu abençoado
Beija-flor, estou aqui
Leva-me contigo

Chorar eu preciso
Por tudo o que não consegui ser
Por tudo o que ainda vem
E por tudo o que nunca chegou.

Coração de passarinho
Não fica no solo acorrentado
Não fica espremido
Nem amedrontado

Coração de passarinho...
Voa também.

Escrito em outubro de 2005.
Magna Santos

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

MALA DESTROÇADA

Meu coração está qual mala destroçada
Após uma longa viagem
De fantasia
De desejo
De sonhos...
Acho que andei na terra do nunca
Querendo crescer, no entanto
Nada de Peter Pan a me esvoaçar pelos ares
Não precisei
Bastava a mim
E a ti
No sonho que acalentava
Bastava meu coração
E as asas que ele me deu
Difícil não flutuar
Sentindo as cores no ar
Difícil não viver
Não pulsar
Não amar
Não sorrir
Acho que esqueci alguma coisa
Creio que perdi algumas asas
Creio
E isto me faz turista por terras alheias
Não visitei coisa alguma se deveras não fiquei
Qual bêbado desequilibrado em noite estrelada
Assim fui eu, talvez
Só sobrou eu e minha mala
A me testemunhar que esqueci de algo
Volto sozinha
Após dias viajando
Levitando.
Voltei.
Quase voltei
Parte de mim ainda está lá
Ainda não quer voltar
Mas voltará.

Escrito em setembro de 2005.


Magna Santos

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O TESOURO (2ª Parte - Final)

José voltou mais cedo para casa. A fome e a vontade de chegar o encontraram antes da hora. Nem atinou para a ausência dos meninos, lembrava apenas de cada palavra do pai, de cada gesto, de cada atitude. Aquele papel amarelado de alguma forma tinha mexido com ele. Não tinha dúvidas, era a caligrafia do pai, os antigos papéis onde seu velho ensaiava mapas, certamente, aquele era mais um dentre os muitos mapas que ele explorou, quando criança. Uma saudade danada lhe apertava o peito, parecia que tinha ficado algo para se dizer...e tinha mesmo. Sua ida a São Paulo, há 18 anos atrás, havia contrariado demais seu pai, o qual nunca mais pôde rever.

"_Meu filho, broto retirado do seu chão, morre solitário. Repare o mandacaru, é seco, mas dá flor". Foi o que o pai lhe disse na despedida.

Lutou por alguns anos e, de última hora, largou tudo e voltou, após receber um telegrama, comunicando o falecimento do seu velho. Lembrou-se do que pensou na viagem de retorno: nunca mais conversas na madrugada, nunca mais ouviria histórias assombradas, nunca mais visitas ao umbuzeiro. Nunca mais. Era mais do que uma constatação da verdade, era uma condenação, uma promessa para si mesmo: nunca mais com ninguém.

Os dias se passaram, os anos correram, dando-lhe mulher, filhos e o mesmo teto para morar; não tinha mais coragem também de arredar o pé daquele terreno, por mais duro que lhe fosse a vida. Às vezes ficava pensativo e a mulher já o entendia, era hora de tirar os meninos de perto, porque o marido estava longe. Nestas horas, ele voltava a ser criança e se via brincando com o pai. Apesar de acostumado a lida rude, seu pai era sábio o suficiente para brincar com os filhos, inventar mil e uma brincadeiras. Com José, adorava criar uma caça ao tesouro, porque gostava de observar a vivacidade e a alegria do filho; ir ao umbuzeiro, então, era como ir ao paraíso, melhor, era como ir a um templo, onde tudo era sagrado, tudo que se dissesse, que se fizesse.

Destes momentos de lembranças, José acabava acordando com um dos meninos a lhe perguntar por algo e via então que ele ali era o pai. E agora, enquanto sonhava, algo parecia faltar: as crianças. Onde estavam? Neste exato instante, surgiram os dois em disparada na porteira. Pareciam exaustos. Ainda quis reclamar, chamar a atenção, mas não conseguiu, estava claro o medo dos dois e o cansaço excessivo, talvez até pelo medo. Resolveu então perguntar o que aconteceu:

_ Não me escondam nada. Quero saber onde foram.

João, sem palavras dizer, depositou-lhe nas mãos a caixinha e o mapa sujo de suor e de terra. José reconheceria o embrulho do seu pai em qualquer lugar que estivesse...sempre as mesmas voltas no barbante, sempre o mesmo nó cego. Tremeu. Pensava que havia descoberto todos os tesouros e aquele estava lá, nas suas mãos. Ficou meio hipnotisado até ser despertado por Netinho:

_ Abre, pai, abre!

E José sacudiu a terra da caixa e pegou o canivete para libertá-la do sofrido barbante. Abriu. Os olhos dos meninos brilhavam, os dele, marejavam. Era a última foto tirada com o pai, ambos sorrindo abraçados, dias antes da sua viagem. No verso, a dedicatória em letras quase apagadas: "Tesouro se guarda no coração. Eu estava errado, meu filho, broto vive bem onde for bem cultivado. Do seu velho e amigo pai". Entre lágrimas entendeu e uma paz, há tempos desaparecida, finalmente retornou. Fitou os dois pequenos ansiosos por alguma reação sua...pegou-lhes as mãos com gratidão e, após um demorado abraço, suspirou profundamente.

Daquele dia em diante, ele jamais falaria 'nunca mais'.


Magna Santos

domingo, 22 de novembro de 2009

O TESOURO (1ª Parte)

_ Vamos, João, vamos!
_ Já disse que só vou quando acabar de fazer o que pai me mandou.
_ Mas, João...
_ Depois pai briga comigo, e aí?
_ Mas, João...
_ Tá bom, tá bom.

Pegaram a baladeira, a pá, o mapa e saíram ao encontro do desconhecido. Foram de mapa em punhos, pois o tesouro teria que ser encontrado até o meio-dia, hora em que o pai chegaria em casa e descobriria a trela. Iguais cinderelos às avessas, foram com coragem e determinação. Fazia dias, encontraram aquele mapa nos guardados do pai:

_Pai, o que é isto? O pai empalideceu, avermelhou os olhos, quando fitou aquele papel amarelado pelo tempo e disse:
_Besteira.
_Besteira, pai? Mas tá aqui dizendo que é um mapa de tesouro!
_Besteira, menino - sentenciou e saiu, evitando explicações, sem perceber o brilho nos olhos dos filhos. Homem feito, precisava fugir daquela lembrança.

Agora os dois pequenos estavam ali, dispostos a descobrir o que o pai não ousou observar. Abriram a porteira, passaram pela cerca de arame do sítio vizinho, atravessaram a seca plantação de Chico de Dida, chegaram na cacimba de dona Filó, que de longe acenou. Mais cercas, mais arames, uma corrida do mangangá, que não brinca em serviço. Desembocaram no açude teimoso, onde deveriam dar uma volta enorme até a famosa pedra furada. Os irmãos morriam de medo do lugar, pois a fama era de ser um antigo cemitério de índios. O pai contava que, à noite, as almas vinham reclamar rezas e cantorias para quem andasse pelo lugar sem parar. Ele mesmo - o pai - já havia passado por maus bocados, quando criança. Costumava ir com seu pai ao umbuzeiro, sendo a pedra furada passagem obrigatória; na única vez que foi sozinho, arrependeu-se amargamente e nunca mais tentou. Assim, por precaução, eles parariam e rezariam um Pai Nosso por todos dali. De lá, segundo o mapa, estariam em condições de ver o antigo umbuzeiro.

O sol subia à medida em que caminhavam. João lembrou-se do pai:
_ Ligeiro, Netinho, ligeiro!
E Netinho se esforçava para acompanhar o irmão.

Chegaram finalmente ao umbuzeiro. Já haviam ido lá, claro, mas sozinhos...tudo parecia diferente. Agora começavam a entender porque sempre diziam que os umbuzeiros eram sagrados, eles pareciam ter raízes embaixo e em cima de tão bonitos. E por falar em raízes, lembraram-se do mapa. Olharam-no, examinaram a árvore e se acharam perdidos. Afinal, onde estava o segundo nó? A raiz indicada no mapa estava abaixo do segundo nó. Bom, resolveram arriscar e cavaram, cavaram ávidos de esperança. Quando o sol anunciava o meio-dia, encontraram uma caixa pequena amarrada com um barbante cru, porém não conseguiram de nenhum modo desatá-lo da caixa. O jeito era voltar com a caixa para casa, até porque agora não poderiam mais esconder o ocorrido, já era meio-dia.

Desabalaram ambos numa carreira sem fim. Netinho não ousava reclamar das dores nas pernas, mais dor seria encontrar o pai em casa antes deles. E correram, correram, fizeram todo o trajeto de volta sem olharem para trás.


Magna Santos

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

BUSCA

Sim, ele estava nu ao amanhecer
Rasgou-se das sedas que vestia seu corpo
E quase como louco
Estava a vagar.
Onde estava a lua que refletia o dia na escuridão?
Onde estava a estrela que pairava no ar?
Onde estava?
Neste momento ele olhou para si
E surpreso percebeu...
Seus pés tinham raízes
Seus braços eram de sol
...
Então ele chorou
E sorriu.


Magna Santos

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

14 ANOS

Fiquei lembrando dos meus 14 anos e não atinei para o que tinha sido, apenas lembrei que, naquele ano em pleno "1º científico" me sobrava muita preocupação e pouca alegria, na verdade me sobrava muita confusão no juízo.

Hoje vendo ele, nasce uma alegria redobrada, quadruplicada...ah, nem sei o tanto! Crescer com saúde é algo bonito de se ver. Muitas vezes se cresce igual planta abafada longe do sol. Acaba se espichando tanto que sempre fica alguma anomalia para ser resolvida depois, quando se resolve. Mas crescer, crescer mesmo é bem difícil.

Reuniões embaixo do cajueiro desta vez não foram muitas. Há que se dar atenção aos amigos que preferiam um lugar mais fechado. Não existiam paredes que retivessem as gargalhadas, os cochichos, as tramas arquitetadas em plena tarde pra noite que se aproximava. Também não demorou o medo bater pernas e sobrar coragem para se pegar rã em nome da farra. Desta vez não ouvi: "faz uma vistoria no banheiro, madrinha". Quanta coragem! Quanta vontade também de mostrar tudo de uma vez. Empinar pipa ficou mesmo para o pai e a madrinha abestalhada, que teimam em ser crianças no meio de adolescentes. Uma delícia a convivência, um banquete para a alma faminta.

Volto de um feriadão com gosto de quero mais. Talvez não tenha sido suficiente para me alimentar depois de dias doloridos por sofrimentos alheios. Mas, certamente, deu-me uma "sustança" das boas. Sobrou ainda um monte de brincadeiras a se fazer. Sobraram histórias a se contar, já agendadas pra próxima. O retorno de viagem não teve no que se pensar, a não ser em mais maneiras de se inventar um passatempo.

E o que vale mesmo é que nesse passar do tempo, vez ou outra nos surpreendemos com tudo o que se viveu, como se tudo o que se viveu fosse apenas do outro e não nosso. Mesmo assistindo ao outro crescer, mesmo sendo os hormônios do outro que fazem as pernas crescerem e dar passos mais largos, o crescimento é conjunto. Já falei aqui dos seus 13 anos, mas este agora é apenas para dizer a ti, filho do coração, sobrinho e afilhado muito amado: estou gostando demais do tamanho que tu estás ficando, sobretudo, por não fechares os olhos para quem não é tão alto. Cresça, meu filho, estarei sempre aqui...por perto.

Que Deus te ensine sempre a cultivar a alegria e a humildade!


Magna Santos