quinta-feira, 19 de maio de 2011

APELO À CHUVA

Fui acostumada, quando criança, a te esperar com ansiedade, te festejar com alegria, sapateando nas poças que fazias no meu quintal. Corria atrás de bicas para aflição de uma mãe cuidadosa, que temia uma gripe na filha pequena.

Com tua chegada, meus tios sorriam, porque era certeza de colheita farta e mesa abastecida. Eras, portanto, bem-aventurança.

Hoje, longe do meu torrão e já crescida, fujo de ti. Vejo-te da janela e dentro permaneço, indiferente à variedade de biqueiras que ostentas nas casas vizinhas. Sem gripe, com saúde, restou-me algum medo por te ver alagando ruas, vilarejos, cidades inteiras. Inundas até as famílias que, junto com tua água, afogam a esperança e o sossego.

Preocupa-me tua presença como quem hospeda um amigo à beira de um colapso. És e não és bem-vinda. És e não és querida. Uma certa tensão impera no ar.

Porém as vozes alegres dos meus distantes dão-me notícia de que também os visitastes. Novamente: colheita garantida, suor respondido.

Então, daqui te aceno como quem te dá mesmo um tchau: vai embora para onde és bem vinda, vai para onde és sinônimo de bem-aventurança.


Magna Santos

segunda-feira, 9 de maio de 2011

REMOTO CONTROLE

Muitos nessa altura buzinam anunciando o time vencedor. Ela, que acaba de ler o Poema em Linha Reta do Pessoa, não se identifica com o buzinaço, nem tampouco com o silêncio dos derrotados. Não se identifica com esse gosto pela disputa, embora, muitas vezes, se comporte como uma briguenta contumaz.

Ah, se soubessem do aperto que sente no peito, certamente teriam piedade dela. A raiva indigesta perambula sem achar abrigo, porque não há de encontrar no seu coração benfazejo que se angustia por não poder dominá-la.


A náusea a consome há dias. Vomitou injúrias acumuladas na hora errada. Foi julgada como fútil e desequilibrada. Perdeu a razão. Entristeceu-se tanto que teve mais raiva ainda. Defesa de quem viveu na selva por muito tempo. Hoje não vive mais, porém guarda-lhe a experiência.

Quando terá sossego não sabe. Quando pensará antes de falar...já fez isso tantas vezes que pensou que podia ousar. Errou. Pecou pelos extremos. Foi de um polo a outro num átimo que lhe custou a paz.

Resta-lhe o controle nas mãos. Há de mudar de canal. Há de sintonizar com o dia, com o sol e o tempo bom. Chega de trovoadas dentro do peito.


Magna Santos

quinta-feira, 5 de maio de 2011

COISAS...

Há determinadas coisas
Capazes de serem expressas apenas na poesia...
E eu nem sei dizer quais
Até as chamo de coisas
Mas não existem como tais.


Magna Santos

segunda-feira, 2 de maio de 2011

RIMA E SOLUÇÃO

Olhos estupefatos presenciaram duas torres irem abaixo como prédio de dominó. Milhares de pessoas mortas por qual objetivo? Tempo das cavernas?
Milhões de pessoas se aglomeram comemorando a morte de alguém. Mesmos olhos estupefatos presenciam a cena. Tempo das cavernas?
Não. Tempo em que a dor ainda tem valido mais que o amor.

OsAMA
ObAMA
Rima que atrai
Rima que revela
O ainda não buscado

Somos todos rimas de alguma solução, querido Drummond.


Magna Santos

domingo, 1 de maio de 2011

BRISA

Hoje senti uma paz inominável
De que não quero viver em ti
Sim
Não quero
Pasmem todos os corações
Praguejem todas as amigas
Não quero mais
E não sei explicar o que aconteceu
Talvez o silêncio que me fala
Talvez a dúvida que me dá certeza
De que não és mais

Teu tempo passou em mim

Uma paz...
Como a sementeira que só despeja a semente
Para dias futuros nascer
Como a gota humilde que cai da chuva
Em noite de inverno
Como a mãe que se despede da cria
Sabendo-se apenas mãe
Não amor eterno

Fui
Passou
Meio que deixando rastro
Pegadas ainda fortes
Pistas de algo ainda fresco
Ainda perto

Passou


Magna Santos

domingo, 24 de abril de 2011

SONHO DE PÁSCOA*

_ Não faz "cosquinhas" na minha barriga. É onde eu tenho mais. Pára. Vem, Paulinho, me ajuda com ele. Sobe nele, puxa os cabelos. Pára, Jesus, pára!
...
...
_ Não, Jesus, não pára! Não pára nunca mais!


Magna Santos

*Não dá pra ler a autoria desta belíssima ilustração. Em email recebido da amiga Nanda, diz apenas que o autor quer permanecer anônimo, apenas assinando: "Jesus Painter". Caso alguém saiba, favor informar. O artista merece todos os créditos, além do meu agradecimento por retratar tão bem um Ser tão feliz.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

PEQUENO RECADO A BANDEIRA*

Esqueci teu aniversário, lembrei apenas do índio que compartilha o dia teu. Tu, pequeno como te julgavas, deve se alegrar por partilhar a data com estes esquecidos de tudo. Eles que um dia foram muitos, como testamento, não deixam nem terra nem água, pois não consideram nada como seus. Deixam, como tu: a vida, a lida e o muito do que não têm.

Assim, Bandeira, em nome de todos os esquecidos, que teu nome seja asteado em todas as estações, sobretudo no inverno, aquecendo os desabrigados.

Assim seja.


Magna Santos

*É pra Bandeira, mas a publicação deste vai, especialmente, para meus generosos amigos do blog No Toitiço e o poeta Tadeu Rocha, cujo pedido acabo de responder com esta publicação.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

MIRA

Mais uma vez, as palavras viajam.
Preferem o silêncio, o aconchego dos ares que as levem para bem longe.
Difícil ter a palavra certa na hora adequada.
Difícil também responder em silêncio a quem julga necessitar de discursos, explicações.
Nem sempre sei o que dizer...nem o que não dizer.
Nem sempre sei ficar em silêncio, mas simpatizo com os momentos, quando as palavras saem pelos olhos.
Quando a dor é grande, pretende-se remédios milagrosos.

Olhos perdidos me chegam, denunciando que há muito vagueiam.
Só me enxergam, quando me fitam para não errarem o alvo.
Viro mira.
Finjo uma morte que sorri ao ver que os olhos perceberam.
E é bom morrer assim.

Chega o fim e ele às vezes é custoso.
Faltou o bombeiro, a polícia, o caminhão...
Tanta coisa...
Arrisco risos para quem me devolve irritação.
Na próxima, ele verá que sobrevivi e poderá perdoar-se e me perdoar as faltas e o desejo incontido de ampará-lo.

Sim, os medos continuam.
Os desejos também.


Magna Santos

quinta-feira, 14 de abril de 2011

SEM BÚSSOLA

Depois de um dia deparando-me com a dor alheia, sobrou-me pouca coisa ou quase nada para ofertar a quem quer que seja. Escapo para os amigos, antigos amores, só solidão. Escapo para o ocaso, só compaixão.

Escapo entre dores e amores.

Chego aqui e esta terra úmida tem tanto de mim...


Deito e descanso.

Ao menos Oswaldo me dirá algo amanhã. Ao menos ele poderá me falar que "a vida é bola de gás, segura a corda com a mão". E caso eu não consiga entender, ele completará:


"A estrada sempre tem luz
o amor tem sempre razão
quando a alegria conduz
não importa qual direção"

Por isto, vou esquecer da bússola e vou, vou me deixar ir.


Magna Santos

domingo, 10 de abril de 2011

PREGUIÇA

Nessa preguiça em que me encontro
Viver é fácil

Deslizo

Escorrego
De todas as dores e desconfortos


Nesta preguiça
Encontrar-me é difícil
Pensar também

Falar impossível
Cantar mais ainda

Deito e assisto
Ao nada que produz
Um levitar de ares ao redor de mim

Respiro como se pensasse
Como se
Falasse
Como se
Cantasse

E assim fico
Esquecida de mim



Magna Santos